Malala

mamaNo último dia 11, o Prêmio Nobel da Paz foi concedido à Organização para a Proibição das Armas Químicas (OPAQ), que atualmente está em missão para acabar o arsenal químico da Síria. Malala Yousafzai, a adolescente de 16 anos que luta pelos direitos das meninas de estudar, era um dos nomes mais cotados para levar o prêmio este ano.

Malala morava no Vale do Swat, região que sempre foi muito conservadora do país islâmico. A partir de 2007, o fundamentalismo defendido pelo Talibã, aditivado pelo sentimento antiamericano depois do 11 de Setembro, cobriu de sombras a cidade no Noroeste do Paquistão. A educação se tornou alvo frequente dos religiosos, que ordenaram o fechamento de escolas para meninas. Muitas resistiram, respaldadas pelo exército, mas, no começo de 2009, todas foram fechadas. Por medo. Em casa, sem poder estudar, Malala começou a escrever um blog denunciando as arbitrariedades da milícia e exigindo o direito à educação. A jovem paquistanesa conquistou visibilidade com suas publicações “O diário de uma adolescente paquistanesa”. Logo, a blogueira havia se tornado uma voz na luta pela educação, contra a repressão local do Talibã.

Ao saber que a menina não tinha recebido o Prêmio Nobel da Paz, os talibãs paquistaneses comemoraram. O porta-voz Shahidullah Shahid afirmou que Malala “não fez nada importante” para merecer o prêmio.

Não quero aqui, em hipótese alguma, julgar certo ou errada a escolha do famoso prêmio. Mas quero mostrar a importância do feito de Malala. Ao contrário do que pensam os Talibãs, a menina paquistanesa fez, sim, foi um ato de coragem e de luta contra a repressão e contra a violência. Defender o direito à educação é defender a promoção da paz.

O professor Ubiratan D Ambrosio, que há anos faz estudos sobre a educação para paz, costuma dizer que a “violência vem do medo. Medo da incompreensão, que vem da ignorância. E ignorância se combate com educação”. Para ele, a chance de construir um mundo sem violência está na mão dos professores, que criam condições para gerações e culturas diferentes dialogarem.

Li, há um tempo um trabalho de pequisa feito pela UNESCO que constatou que “elevar o nível de escolarização (assegurando a formação no segundo grau, por exemplo) de 10% dos homens dos EUA acarretaria redução de 20% das taxas de homicídios e de prisões por lesões corporais”.

O estudo verificou que “apenas 5% dos americanos negros que freqüentam um estabelecimento de ensino superior foram presos em 2000; entre os brancos, esse percentual foi de 1% no mesmo ano”. Os indicadores sobre reincidência criminal também são mais comuns entre aqueles que não se graduaram no segundo grau.

Até onde sei, no Brasil ainda não temos pesquisas sistemáticas e dados confiáveis sobre as relações entre escolaridade e crime. No entanto, uma pesquisa realizada em um presídio de Brasília, em 1997, constatou que três em cada quatro presos não terminaram o primeiro grau e que apenas 7% deles tinham alcançado o nível médio ou mais. É importante lembrar que os jovens com baixa escolaridade são também o agrupamento onde mais se concentram as taxas de vitimização por homicídio no Brasil, uma curva que, entretanto, cai muito acentuadamente para aqueles que terminam o ensino fundamental.

Perguntada em entrevista sobre o porque de os talibãs a quererem morta, Malala respondeu: “O Talibã tem medo porque sabe que, se as mulheres tiverem acesso à educação, serão capazes de exercer um papel ainda maior do que o que elas já têm na sociedade. Em geral, são as mulheres que cuidam das famílias. São elas que administram a casa, cuidam dos filhos. Com a educação apropriada, elas poderão ter ainda mais oportunidades. Isso assusta o Talibã. É uma visão muito ruim, porque o mundo precisa de igualdade. Se as mulheres, que são metade da população mundial, não tiverem acesso à educação, o mundo não se desenvolverá. O profeta Maomé nos ensina sobre igualdade, sobre fraternidade, sobre o amor ao próximo. O Talibã se esquece de tudo isso e só se lembra da jihad (guerra santa). Nós, meninas, temos nossa própria jihad pela qual lutar. Temos que lutar pelos nossos direitos e pela educação”.

Ao que tudo indica, aqui no Brasil, a falta de maiores e mais consistentes investimentos em educação, também é o medo. Parece que o Brasil não quer educação porque educação liberta. A educação converte pessoas em cidadãos. Mais Malalas precisam aparecer pelo mundo, inclusive aqui em nosso país, para mostrar a todos que educação é liberdade, é entendimento, é paz.

 

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