Mais histórias

kaluPor várias vezes deixei claro aqui neste espaço que me foi cedido gentilmente pelo Dimensão, que não sou jornalista e muito menos escritor. Apenas um mero contador de histórias, que teve a felicidade de ser acolhido por uma seleta meia dúzia de leitores. Contador de causos e dos bons era Getro Guimarães, que deixou um imenso vazio entre nós. Ao tentar transpor as idéia para o papel, tenho uma preocupação que sempre fica me martelando na mente. O que o leitor realmente gostaria de ler aqui neste cantinho? Com a semana atribulada e cada um cuidando dos seus afazeres, pouco tempo sobra para a leitura. É preciso que haja disciplina e sobretudo gosto pela leitura. Notícias ruins e violência do dia a dia, a televisão e alguns blogs estão aí para bombardear os leitores, sem dó e nem pena. Veio-me a lembrança de uma senhora, leitora assídua do Jornal Dimensão, antiga moradora de Itapetinga, que passou a residir em em Salvador. Sempre apreciou minhas histórias sobre a cidade. O filho enviou-me e-mail dizendo que quando eu não escrevia no Jornal, ela comentava: “O Dutra não veio hoje.”

Tem sido esta minha preocupação em escrever algo para quem aqui reside e para aqueles que, por opção ou necessidade tiveram de ausentar de sua cidade natal. Se alguma coisa boa lhe vier à lembrança, já me deixa feliz.

Em minhas andanças pela Fazenda Liberdade ouço com atenção as histórias que os trabalhadores contam, quando por lá se reúnem. São dois da própria fazenda e outros de fazendas vizinhas, que aparecem nos finais de semana para prosear. Uns mais jovens, outros mais maduros, uns casados e outros solteiros. Quando o assunto é mulher nova, sai cada coisa que me causa frouxos de risos, como dizia um dos personagens de Chico Anísio em seus maravilhosos programas de humor, já que os atuais deixam muito a desejar. Se alguém procurasse se vangloriar dizendo que estava saindo com alguma menina nova, a conversa era encompridada e o bombardeio vinha em seguida. Se fosse casado, aí é que vinha chumbo grosso. Teve um que afirmou que o que leva homem pra frente é chifre e pra trás, rapariga. E citava como exemplo algum coroa que andava dando boa vida a menina nova. Um solteirão contou de sua experiência com uma menina nova, dizendo que toda semana era dinheiro para fazer unha, fazer chapa no cabelo e como ele trabalhava no campo e só aparecia nos finais de semana, o bujão da casa da tal namorada só acabava no sábado. Sem falar nas farras com cerveja. Como não tinha bala na agulha para bancar, foi obrigado a pular fora. E outro logo rebatia perguntando:

– Mas, o que que um velho feio e magricela como você quer se meter com mulher nova?

– Feio é seu passado! Rebatia na bucha, dizendo não ser tão velho assim e que ainda dava no couro.

– Só se for em couro de boi para dormir no chão.

E a conversa ia seguindo com boas risadas, num ambiente bem descontraído, que a gente nem via o tempo passar. Pensava com meus botões que era bem melhor que discutir política ou religião. Já ouvi alguém dizer certa ocasião que política e religião não se discute, se bebe. Não sei de onde tirou esta idéia da cabeça. A conversa ia tomando outro rumo e descambava para outro assunto, que era a dificuldade em conseguir alguém para trabalhar no campo, principalmente na função de vaqueiro. Diziam que ninguém mais queria trabalhar em fazenda. Os jovens que aparecem nem parecem trabalhador de roça. Vestem roupas coloridas, usam tatuagens e até brinco na orelha. Sem falar nos cortes de cabelo. Um mais conservador não deixou por menos e fez logo um comentário seco:

– Isso é lá coisa de homem? Usar brinco em orelha é coisa de mulher. A gente conhece um homem de verdade, de longe.

– E se tiver a canela rapada? – Perguntou um outro, só para esquentar a prosa.

Aí é que danou-se. Trabalhador que tem batata da perna grossa não é bom de serviço. Quem precisa ter perna grossa é mulher. E homem de perna rapada, onde já se viu isso, home? Nem mesmo o capeta aguenta.

Um outro pergunta: – Você não usaria uma camisa cor de rosa?

– Sarta fora. Nem morto. E eu lá sou lá homem de usar roupa de mulher. Cor de roupa de homem é marrom, cinza, preto, branco e azul marinho…

E eu ali no meio daquela discussão só ouvindo e me deliciando com tudo. Mesmo no frescor da tarde que ia sumindo era hora de retornar à cidade, deixando para trás a história e o pensamento do homem do campo, cada um com sua filosofia, vivendo no seu mundo longe do barulho, em busca do sossego, que é o que todos nós almejamos, na esperança de que a paz não nos abandone nunca.

 

 

Carlos Amorim Dutra

e-mail: carloskdutra@gmail.com

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