Madrugadores e cedeiros

Os mais antigos costumam dizer com certo orgulho que gostam de levantar cedo e até afirmam que Deus ajuda quem madruga.O velho Mané Cebola, nos momentos de boa prosa no tempo em que viveu lá na Fazenda Liberdade, sapecava logo que a conversa descambava para tal rumo:- “Mal mal o dia amanhece, já estou de pé. Durmo e acordo com as galinhas”.Meu pai, Silio Dutra, era outro madrugador. Pulava cedo da cama e quando alguém acordava, lá estava ele com o café coado.O amigo do peito, Dr. Zé Henrique, apesar de não fazer parte (ainda) da geração dos antigos, é da mesma escola. Com certo exagero, costuma dizer:- “Quem está dormindo, está morto”.Mas há quem não gosta de ficar para trás, mesmo não sendo um fiel madrugador. Se você diz que levantou cedo para ver a chuva que caiu naquela noite, ele vai logo se adiantando e tomando o lugar de quem viu a chuva primeiro.- “Que nada moço! A chuva começou muito antes. Às três da madrugada já estava acordado e foi quando ela começou”.Balela! Devia estar era no terceiro sono.No meu caso não posso me incluir no rol dos madrugadores. O mínimo que posso dizer é que faço parte da turma dos cedeiros. Também não durmo com as galinhas, como fazia o velho Mané Cebola. Se uns acordam quando o dia amanhece, acordo quando o dia está de pé, lá pelas seis horas da manhã ou um pouco antes.Já quem não tem o hábito de levantar cedo e por um motivo ou outro cai na malha dos madrugadores, não está livre de ouvir: “Caíu da cama? Deu formiga na cama?”Meu cunhado Arthurmário levantava muito cedo e gostava de elogiar o dia. Abria a porta e dizia:- “O dia hoje tá é bonito”. Tanto fazia se fosse tempo quente ou frio.Enquanto isto a nossa poetisa Marvione Macedo vai declamando seus poemas, dizendo:- “Hoje o dia amanheceu trazendo saudade”.Já meu filho Gabriel está longe de pertencer a este time dos cedeiros e muito menos dos madrugadores. É, por assim dizer, um vespertino. Quando me vê dormir um pouco mais tarde e acordar no mesmo horário de costume, mesmo sendo um domingo ou feriado, custa a acreditar e comenta com a mãe:- “Não tem condições! Meu pai dormir aquela hora e já estar de pé tão cedo”.Brinco com ele dizendo não pertencer à geração da turma boa de cama, ou seja, aquela que cai na cama e dorme. E como dorme!Nos bons tempos de estudante em Salvador, das moradas em repúblicas, o hoje Dr. Solon Dias, Oftalmologista, exercendo a profissão em Alagoinhas e que também fez parte do nosso grupo, era um fiel dormidor e o maior roncador de todos os tempos. Quando o sono vinha chegando, corria para cama dizendo:- “Marciano me pegou!” Era como se os marcianos tivessem pousado na terra e o carregado. Coisas de tempo de estudante.E assim vamos levando a vida, uns dormindo demais e outros de menos. Há quem possua o hábito de levantar cedo e outros que precisam fazê-lo para o batente e a luta do dia a dia. Quem não tem nada para fazer, ou fica enfiando bufa no cordão ou então perturbando o sono dos outros, abrindo janelas, cutucando e tirando o sossego dos dorminhocos. A ladainha é sempre a mesma:-“Acorda que o dia já amanheceu!- “Já é meio dia!”Como resposta, os dorminhocos se cobrem da cabeça aos pés e fazem de conta que nada ouviu e continuam dormindo. Mas nada como uma boa noite de sono.Na canção Amor de Índio, de Beto Guedes, há um verso que diz:  “Lembra que o sono é sagrado/ E alimenta de horizontes/ O tempo acordado de viver”.Vou parando por aqui, pois o sono hoje chegou mais cedo. Lembrando o amigo Solon: marciano me pegou!
Em atenção aos amigos:Tenho sido cutucado com vara curta por ter encerrado o Blog do Kalú. Há muitos amigos querendo ficar até de mal comigo só por causa do Blog. Dizem que não acharam graça alguma. Coelho Dias, Gilson de Jesus (J.J), o dileto amigo Agnelo Nunes, Juá da Bahia, a poetisa Marvione Macedo, Manoel Neto, Antonio Maciel, Luizinha Muniz, Eliene Portella, Dom Fontinelli, Getrinho e tantos outros. Estou nesse fogo cruzado e como se diz, no mato sem cachorro. É preciso rever tudo de novo, com meu filho Gabriel, que foi o mentor do blog, para ver se consigo recarregar a bateria. Vou pensar no caso de vocês. Tal qual o livro de Marcel Proust, ando em busca do tempo perdido, por ter me afastado um pouco da leitura. Em apenas um mês reli alguns livros e crônicas de Fernando Sabino: O encontro marcado, O menino no espelho, O gato sou eu, A falta que ela me faz e Cartas perto do coração (correspondências dele com Clarice Lispector). Agora estou lendo: O grande mentecapto. Estou aguardando a editora enviar-me a coleção completa que adquiri recentemente. Como li em um artigo do jornalista Ricardo Kotscho: “De vez em quando, a gente precisa parar de escrever para poder ler um pouquinho…” E é nesse mundo da literatura e da música que passeio.

* Carlos Amorim Dutra (Kalú) é médico Cardiologista, médico do Trabalho e músicoe-mail:carloskdutra@gmail.com

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