“Lucene, um caminho com o coração”

Lucene Ramos Santos nasceu em Itororó/BA, a 08 de dezembro de 1949, filha do terceiro prefeito de Itororó, Agostinho Costa Santos e de Odete Ramos Santos que faleceu aos 33 anos de idade, deixando-a órfã com 7 anos e mais duas irmãs de 5 e 2 anos de idade, respectivamente, professora Lúcia e a enfermeira Lucilma.

Após alfabetização, ginásio e “curso normal” em Itororó continuou seus estudos em Salvador onde foi graduada em Psicologia pela Universidade Federal da Bahia. Perita em Psicologia do Trânsito, com Especialização pelo Conselho Regional de Psicologia, CRP/03. No CEPOM, SSA, fez o curso de Pós-Graduação em Metodologia e Técnica do Ensino Superior.

Iniciou carreira como servidora do DETRAN/BA em 1976, quando enfrentou muitos desafios, e muitas alegrias. Acompanhou efetivamente a evolução da Psicologia do Trânsito no Estado da Bahia, e no Brasil. Numa época em que não havia Ciretran´s na maioria do estado, muito menos clínicas credenciadas, participou de diversas “bancas” que se deslocavam de Salvador para as mais diversas cidades. Por sua postura ética, por trabalhar dentro da legalidade, e em obediência aos seus princípios, muitas vezes foi incompreendida e prejudicada. Para sair de uma determinada cidade, um cidadão que lhe ameaçou, ficou preso. Numa outra, o delegado e o prefeito disseram: enquanto formos vivo esta mulher não pisa aqui. Precisou concluir seu trabalho na cidade vizinha. Até em Itororó tem ocorrências deste porte. Como psicóloga de trânsito não se restringiu às atividades de praxe, quis mais. Buscou sensibilizar a sociedade e os próprios psicólogos do trânsito na discussão sobre políticas públicas de saúde, educação e segurança relacionadas à circulação humana. Suas diversas entrevistas na mídia falada, escrita e televisiva retratam suas reflexões, enquanto instiga a construção do conhecimento e comportamento adequado ao trânsito. Sua dedicação e competência foram reconhecidas pelos diversos cargos que assumiu no Setor de Saúde do Detran, sempre indicada pelos colegas, médicos e psicólogos, sem qualquer interferência política. Dentre eles, foi Coordenadora de Saúde do Detran/BA, rompendo paradigmas, vez que foi a primeira vez que a categoria de psicólogo foi contemplada num cargo eminentemente de médico, e homem. Enquanto Coordenadora, fazendo parte de uma diretoria aplicada, destaca as providências tomadas para melhor atender ao deficiente físico. Na sua gestão houve aquisição de cadeiras de rodas, o setor médico que funcionava no primeiro andar passou para o térreo com construção de salas e obtenção de equipamentos, revogou Portarias, passando a constar a exigência de acessibilidade em todas as clínicas credenciadas ao Detran, e antes da sua intempestiva exoneração, implantou os pólos de atendimento ao deficiente físico no interior do Estado, evitando assim seu deslocamento para a capital, o único lugar onde poderia tentar sua habilitação, ou renovação da CNH. O atendimento nos pólos consiste no deslocamento da equipe médica da capital para os pólos. Além dessas providências foram instituídos cursos complementares para os psicólogos com simulado antes da sua liberação para atuar em clínica. Algumas das suas decisões desagradaram, é claro, mas costuma dizer que a compreensão do que fazemos nem sempre acontece no momento que acontece. Taxada de rígida, principalmente por alguns conterrâneos quando assumiu a Coordenação da 19ª Ciretran/Itapetinga, reage dizendo que cumpre a lei, não cumpre vontades. Desafia os contrariados, a dizerem o que pediu, e o que lhes foi negado. Não é fácil passar do ciclo vicioso para o ciclo virtuoso, pondera. Acreditando na formação moral da criança como uma das soluções para o trânsito, lançou seu livro no Conselho de Psicologia, no dia dos psicólogos, intitulado Educação para o Trânsito: da Moral Heterônoma para Autônoma, baseada no Construtivismo de Piaget.

Em 1997 o Brasil aguardava a aprovação do novo Código de Trânsito, especialmente médicos e psicólogos de trânsito. Para surpresa dos psicólogos, FHC e seus tecnocratas vetaram a avaliação psicológica na obtenção da CNH (Carteira Nacional de Habilitação). De imediato um lobby foi formado por profissionais de todo o Brasil. Lucene foi a única baiana que inicialmente se rebelou e se deslocou durante várias vezes para Brasília. Foi atuante, buscando com outros colegas abaixo assinados e Moções de Apoio, inclusive da Câmara de Vereadores de Itororó. Como ACM era o presidente do Senado, a participação da Bahia tornou-se fundamental, até porque dependia dele a matéria em pauta, o que aconteceu. Foi um dos lobbies mais importantes que passou no Congresso, segundo os próprios senadores e deputados. Ganhou repercussão nacional. O veto foi derrubado e no dia seguinte a foto da psicóloga Lucene estava estampada ao lado de ACM na Folha do Senado de 22/01/1998.

Apesar de morar em SSA, nunca esteve ausente de Itororó, tornando-se um dos principais militantes do PT. Por diversas vezes encontrou pontos em comum na história de vida do seu pai com Lula, aumentando sua paixão. Aliás, diz ela, a história da esquerda no Brasil, é também a história de uma paixão. “Uma paixão capaz de mover homens e mulheres na tentativa de mudança e de transformação da sociedade em que vivem”. É impossível contar a história do PT em Itororó sem incluir Lucene. Sua atuação perpassa por doação de imóveis de propriedade da família para instalação do diretório em diversas eleições, da sala de gravação dos discursos dos candidatos, por discursos inflamados e com Leone, motorista, usando do microfone em um carro velho, bradou aos quatro cantos sua indignação com os comentários de Regina Duarte, atriz, sobre Lula. Foi também presidente do partido. Hoje, menos ingênua, consciente da necessidade de definição de muitas questões, da superação de muitos fantasmas, de muitos pontos a serem esclarecidos, se emociona com as belas experiências vividas, e por certo a serem resgatadas para as futuras gerações, acrescenta.

Em SSA esteve presente de forma ativa em diversos movimentos, tais como: campanha de Lídice, Salete e Bete, Diretas Já, impeachment de Collor, campanha de Waldir Pires, Wagner e Rosemberg. Com os estudantes universitários protestou contra a Fraude do Painel, exigindo a CPI da Corrupção, vivendo, segundo ela, a experiência por mais de 10 horas da invasão do campus universitário em 2001 pela PM da Bahia com cães amestrados, bombas de gás e armas. Sobrevivente, posteriormente participou da passeata no Vale do Canela, contra a truculência.

Em Itororó, enquanto presidente do CACI – Centro de Arte e Cultura de Itororó, transformou a casa que nasceu na Oficina de Sonhos, destacando dentre outras atividades e eventos, o Museu do Índio, exposição de 500 fotografias de Itororó com a presença de 800 freqüentadores, exposição de artes e orquídeas com cerca de mil freqüentadores, apresentação de diversas peças teatrais sobressaindo 500 anos de Descobrimento da América com texto e direção de Sérgio Ramos. Shows com Juacy, Roberto, Guiga Reis (dentre outros). Seminários, competição de carteado com a presença saudosa do Sr. Moisés Oliveira. A Oficina mostrou o que todos já sabiam: havia público sedento por uma casa cultural em Itororó, coincidentemente, logo após, surge a Fundação Cultural Cabana da Ponte e o Anfiteatro Sinval Palmeira.

Lucene sente-se orgulhosa pelo conjunto das suas realizações, sabendo que por onde passou plantou novas e mais sementes, por ter aprendido a fazer apenas o que lhe enche o coração de entusiasmo. Ressalta que vai seguir respeitando suas estações e celebrando a memória dos seus caminhos.

 

(Texto importado da internet com algumas intervenções de Miro Marques).

 

* Miro Marques é escritor, historiador e radialista

jornaldimensao@yahoo.com.br

 

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