Jupará, uma figura estranha!

Jupará foi, sem dúvida, a figura mais estapafúrdia que viveu no Sul da Bahia, mais precisamente na cidade de Itabuna dos velhos tempos. Ele ficou mais conhecido no lugar pela sua estranha “mania” de querer servir aos mortos, levando para os velórios o caixão, as coroas de flores, as mortalhas, velas, buquês e outras coisas mais que fossem preciso para uma velação cadavérica.

Jupará era meio débil mental. Isto não se tem como negar. Era alto, de cor clara, magro e extremamente feio. Estava sempre metido em roupas folgadas que ganhava das famílias quando morria um parente. E este jeito esquisito de se vestir causava pânico às crianças e logo deixava transparecer um mau prenúncio de morte para as pessoas que convalesciam no leito de dor pelas ruas aonde o agoureiro passava. Se ele parasse na porta da casa de um doente, logo as pessoas alardeavam: fulano ou fulana não escapa desta. “Onde Jupará aparece o doente falece”.

Jupará, tal qual o bicho do qual ele herdara o nome, trocava a noite pelo dia. E muitas vezes passando pelas ruas escuras ele causava espanto às pessoas que encontrava devido a sua aparência um tanto espantosa. Pois o destino de Jupará era mesmo percorrer todas as ruas da cidade, farejando defunto, à procura de uma sentinela e quando encontrava, ali ele passava a noite toda e logo se oferecia para ir buscar os apetrechos que embalam um defunto. E se a família do morto lhe desse atenção, ele ficava a noite toda na cabeceira do decúbito, sacudindo as moscas, acendendo velas e quando chegava uma pessoa amiga ou um parente que se punha a chorar, ele chorava junto.

Contam que o maior disparate que Jupará praticou nas suas aventuras velóricas, foi quando lhe encarregaram de levar uma urna funerária (caixão), para o bairro “Surubim”, que fica na saída para Ferradas, na zona oeste da cidade. Jupará, tão emocionado com o mandado que surgira bem a seu gosto, nem prestou muita atenção ao nome do bairro. E ao invés de ir para o bairro Surubim, ele foi para o Salobrinho lá para as bandas de Ilhéus, bem mais distante, na zona leste.

Enquanto a família do morto do bairro Surubim, já desesperada, aguardava a chegada de Jupará com o caixão, o danado vagava madrugada a dentro pelas ruas do bairro Salobrinho com o “envelope de madeira” na cabeça batendo, de porta em porta, onde tivesse uma luz acesa, perguntando: foi aqui que morreu um defunto?

O tempo foi passando, e quando já era madrugada velha, já cansado de tanto andar com a pesada encomenda sobre a cabeça, Jupará colocou o caixão no chão e dentro dele se deitou e adormeceu. Pela manhã, quando as pessoas acordaram que deram de cara com Jupará se levantando de dentro do caixão, saíram em disparada, assombradas, dizendo que viram um defunto se levantando de dentro do caixão. O bairro todo ficou em verdadeira polvorosa, até que aquele maluco pudesse melhor explicar o que estava acontecendo.

O velho Zé Carroceiro, “fretista” do lugar, ao tomar conhecimento do fato, ficou com pena do “biruta” Jupará e lhe ofereceu carona na carroça com sua estranha mercadoria. E, assim, por volta das 7 horas da manhã do dia seguinte, Jupará conseguiu encontrar o endereço do falecido, verdadeiro dono da urna funerária.

Vale salientar que naquele tempo não existiam empresas funerárias com seus maravilhosos planos mortuários, não tinha carrinho niquelado ou confortáveis veículos tocando músicas inerentes como faz a Pax Perfeição do meu amigo José Mauro. O que existiam no mercado eram no máximo alguns marceneiros que confeccionavam os caixões de defunto conforme a encomenda e a medida do decujos. A cor das urnas era padronizada em roxo com adereços próprios cor de prata e com apenas quatro alças. Depois, se colocou seis alças para dividir o peso entre mais dois voluntários. Mais tarde, para satisfazer os políticos, foram colocados dois trilhos inteiriços do tamanho do caixão, um de cada lado, para que os políticos também pudessem tocar as pontas dos dedos como se estivessem ajudando carregar o caixão e poderem ser notados pelos enlutados. Porém, a nova sistemática mortuária de transportar o caixão em veículo apropriado, lhes tirou este “gostinho de se aparecer”.

Mas é bom salientar que em cada cidade tem sempre uma figura defuntóloga, dessas pessoas que dão a vida para carregar a coroa de flores à frente do caixão. Em Itororó, Seu Paulo, cunhado de Cafezinho, sempre se encarregou de fazer esse trabalho mortuário. Já em Itapetinga, segundo meu amigo Jeremias do INSS, quem era louco por velório, enterro e não abria mão de conduzir a capela na frente do defunto era Onílio Pety. Porém, certo dia morreu assassinado o taxista Gileno e os colegas decidiram lhe prestar a última homenagem fazendo todo o ritual pertinente. Mas quando chegou a hora da partida, de repente apareceu Onílio de ventas arreganhadas para pegar a coroa de flores e partir na frente do caixão como era seu costume. Porém os taxistas não abriram mão, já haviam designado um colega para aquela tarefa. Onílio pediu, insistiu, implorou, chorou, mas não conseguiu realizar seu intento. Chateado, ele virou-se para a classe de motoristas e disse: “Meta seu defunto na bunda cambada de sacana”.

José Dantas de Andrade, que não perdia tempo, documentou o episódio de Jupará no seu livro Documentário Histórico Ilustrado de Itabuna – 1968…

 

 

* Miro Marques é escritor historiador e radialista

jornaldimensao@yahoo.com.br

 

Sem comentários ainda.

Deixe um comentário