José Thiago da Silva: fazendo justiça a quem realmente trabalhou – parte 1

neJosé Thiago da Silva é um nome bem típico de filho ou neto de escravos, negros africanos que deixaram sua terra a bordo de navios para aportarem no Sul da Bahia. Alguns chegaram no fim século XVIII, quando já contavam com a liberdade da carta de alforria proporcionada pela aprovação da menor lei do mundo a “Lei Áurea” proclamada pela Princesa Isabel. Muitos desembarcaram e habitaram a Província de Itararé (Itacaré), na Capitania dos Ilhéus e Porto Seguro nas proximidades da Costa do Cacau onde se desenvolviam a cultura da cana de açúcar e não a da lavoura cacaueira que a seguir se estenderia por aquelas bandas e até o fim da região sul da Bahia. As sementes chegaram da Amazônia para formar as primeiras roças de cacau e se transformar no principal produto de exportação.

Os colonizadores do Sertão da Ressaca, no entanto, sob comando do capitão português João Gonçalves da Costa, buscavam reforço para combater a fúria dos nativos, os índios mongoiós a fim de dominar o planalto sertanejo que ia além do município de Caetité. Eles contratavam muita gente para fortalecer sua retaguarda.

Na dificuldade de vencer os obstáculos dos despenhadeiros da cordilheira do Marçal em busca dos primeiros contatos do Sertão da Ressaca com o Litoral Sul da Bahia, João Gonçalves da Costa tentaria descida por muitas localidades que mais tarde ficaram conhecidas por Poções, Planalto, Barra do Choça, Caatiba e Nova Canaã. Porém, lhe seria mais viável enfrentar a parte mais íngreme em linha reta que levasse aos povoados de Verruga e Cachimbo para alcançar as caudalosas águas do Rio Pardo e ali pudessem acessar uma boa viagem descendo de canoas e outro grupo de pessoas a lombo de burro pelas margens do rio até a desembocadura na cidade de Canavieiras. Mas como o destino era a Capitania dos Ilhéus, mais tarde, coube a seu genro Bernardino Lopes Moitinha a tarefa de bifurcar na aldeia dos índios Camacãs, na localidade onde foi fundada a cidade do mesmo nome, desviando o rumo para alcançar o Rio Cachoeira que corta Itororó, Itaju do Colônia, Itapé, Ibicaraí, a vila de Ferradas e a cidade de Itabuna para desaguar na cidade de Ilhéus.

João Gonçalves da Costa, Capitão-Mor da Polícia Portuguesa, era de cor negra e foi o último em 1782, a combater os índios Botocudos e Mongoiós, levando-os ao recuo para dar lugar a conquista definitiva do Planalto do Sertão da Ressaca…

(A Conquista dos Coronéis) – 2010 – Durval Lemos de Menezes.

A escrava Rita Maria de Jesus, não se sabe como nem porque, também foi parar na região sertaneja do Planalto da Conquista. Mas num raciocínio lógico, e isto encontra extremo eco no desenrolar dessa história, imaginamos que ela tenha sido mais uma das muitas pessoas levadas pelo Capitão-Mor, João Gonçalves da Costa, para desbravar o sertão, até porque foi em Vitória da Conquista que nasceu seu neto José Thiago da Silva, a 12 de maio de 1903 que se vivo fosse estaria completando 110 anos e isto evidencia também o nascimento de seu filho Manoel Thiago da Silva nesse lugar. Manoel Thiago da Silva e Generosa Maria de Jesus eram os legítimos pais de José Thiago da Silva. O filho, a nora e o neto da escrava Rita Maria de Jesus, mais tarde, ajudaram a construir o distrito de Itapuí do Colônia.

No início do século XX, década de 10, precisamente, resolve correr trecho para aventurar a vida e chegar à cidade grapiúna de Itabuna, um retirante da seca do sertão nordestino, o jovem sergipano de Estância, João Borges da Rocha Neto, filho de senhor de engenho, que via quedar seus sonhos de usineiro após a libertação dos escravos, deixando o engenho de cana que herdara do seu pai, que já havia herdo do pai dele, de “fogo morto”. Aquele jovem era altamente visionário. Após passar pela experiência de caixeiro de loja no armazém de secos e molhados do Cel. Paulino Vieira, sogro do seu tio coletor de impostos, primeira pessoa a quem procurou em terras grapiunas, já dispondo de um bom capital de giro conseguido no comércio de Itabuna, resolve criar gado e não plantar cacau nas terras do Rio Colônia, propícias para esse tipo de lavoura. Manda seu companheiro de viagem João Alves de Andrade, também sergipano de Itabaianinha, seu amigo confiável para inspecionar as terras e comprar bastante hectares de floresta para instalação de uma boa fazenda de criatório de bovinos. E lá pelo meado do ano de 1922 do século XX, uma comitiva composta por João Alves de Andrade, João Mineiro e Faustino Mineiro chega a uma pequena clareira onde habitavam alguns posseiros que ali produziam o mínimo de lavoura, apenas cultura de subsistência.

João Alves de Andrade, cujo objetivo era comprar matas, propõe a compra das pequenas propriedades e enfrenta de imediato algumas resistências, mas acaba comprando aquele aglomerado de pequenas propriedades rurais. Manda medir outras milhares de hectares nas matas devolutas, terras do Estado e imediatamente procura regularizar a situação junto ao órgão competente e assim procede a escrituração das terras adquirindo legalmente a área desejada a que deu nome de Fazenda Cabana da Ponte e Sede de Cima.

O documento da época se chamava Título de Domínio Legítimo. E assim ele documentou 3.500 hectares de matas em nome do Coronel e seus familiares. As posses que formaram a Fazenda Cabana da Ponte foram as de Antônio de Atanázio, José de Ana Rosa, Eugênio de Ana Rosa, Gonçalves Alves, Senhorinha Rangel, Sinézio, Bastião da Gameleira, José Eustáquio Barbosa, Viturino Ribeiro e Ritão Rangel. Somente uma posse formou a Sede de Cima, a de Camilo de Atanázio.

“Ué, e cadê a história de José Thiago da Silva, personagem central deste relato histórico? Ué é um termo bem a moda ruralista do norte de Minas Gerais que eu quis usar propositadamente pra dar um cunho bem ruralista a este relato, pois, aqui no sul da Bahia não se usa esse tipo de dialeto que é próprio da mineirada”.

Esta parte a gente confere na próxima semana!

* Miro Marques é escritor, historiador e radialista

jornaldimensao@yahoo.com.br

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