Incomodados com a tragédia alheia

No último sábado, o ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva realizou exames no hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, e foi diagnosticado com câncer na supraglote, localizada na laringe. Graças aos exames preventivos, a descoberta do tumor foi feita em estágio que permite seu tratamento e cura. Na segunda-feira, o ex-presidente começou a quimioterapia contra o tumor de 2cm a 3cm.

O câncer de Lula gerou um mal-estar não apenas restrito ao seu círculo familiar. Outros brasileiros também se comovem com o estado de saúde do ex-líder metalúrgico, dada a sua história pessoal, carisma incontestável e trajetória política. Lula é mesmo um fenômeno. Mas a enfermidade que o acomete revela sintomas que extrapolam seu organismo. O primeiro deles é que a sociedade brasileira atual é mais complexa do que jamais foi e tem ânsias para se manifestar, qualquer que seja o assunto e a sua conveniência. Não é a toa o crescimento vertiginoso de tantas redes sociais que têm como objetivo divulgar o que cada usuário está pensando e espalhar para todos os seus “seguidores”.

Outro sintoma é que as novidades nem sempre vêm das redações, e tem se tornado comum que venham do lado de lá do balcão. E essa troca de papéis vem tomando uma proporção tamanha que talvez o jornalismo comece a perder a sua força e já não seja mais possível cumprir sua função de educar seu público alvo. Falo especificamente, agora, em educar leitores, espectadores ou ouvintes pela assustadora reação que a notícia da doença do ex-presidente causou. As redes sociais convulsionaram com o anúncio do câncer de Lula. O assunto dominou o Twitter e Facebook gerando diversos debates e provocando até mesmo uma “campanha” para que Lula fizesse seu tratamento pelo Sistema Único de Saúde. Opositores do político fizeram piadas de gosto duvidoso, atacaram seus familiares e destilaram alguns litros de fel por todos os lados. Alguns amigos meus aderiram à infeliz “campanha”. Meu facebook estava cheio de gente que marcou o seu perfil com uma imagem que dizia: “Esta pessoa quer que Lula vá se tratar pelo SUS”.

Lula, em seus dois mandatos, teve muitos problemas – e merece ser criticado por muitas coisas e uma delas é o fato de, em uma inauguração do UPA ter dito que a unidade estava quase tão perfeita que até dava vontade de ficar doente para ser internado ali. Mas Luiz Inácio manteve as regras democráticas e a economia crescendo, investiu como nunca no social e teve, também, uma série de grandes qualidades que não podem ser ignoradas. No caso de seu câncer, tratou a doença com extrema transparência e altivez. Mostrou-se um ser humano como outro qualquer sofrendo de uma enfermidade temida por todos pela sua alta capacidade de destruição. É um caso, portanto, em que todos deveriam se sentir incomodados com a tragédia alheia. E eu não consigo ver graça na tragédia dos outros nem acho que caiba ironia onde o assunto é câncer, seja lá em quem for.

Além disso acredito que é correto, sim, que o mandatário tenha à disposição o que há de melhor no setor. Isso não exclui a sua obrigação, indeclinável, de fazer o possível para elevar as condições de atendimento na saúde pública – que vive um caos no Brasil, não ignoro isso. A UPA, se e quando funcionar bem, será um benefício para os pobres. E Lula nunca botará os pés ali como paciente, sejamos realistas.

Para muitos, Lula deve honrar sua origem pobre. Não na hora de estimular transferências de renda ou impulsionar acesso dos mais humildes às universidades públicas – que incomodam ou dificultam o caminho da classe média. Deve honrar sua origem de pobre vivendo como um pobre, vestindo-se como um pobre, tratando-se como um pobre. Uma hipocrisia sem tamanho. A trajetória de Lula deveria ser um orgulho para o país, independente de sua função política ou partidária. Um daqueles exemplos de como até um capitalismo mal ajambrado e uma democracia censitária como a nossa permitem, vez por outra, tal ascensão. E essa ascensão não o deixa menos humano, menos merecedor de compaixão e solidariedade.

Os ataques a Lula mostram mais uma vez que a internet permite uma polifonia pouco controlável, independentemente do bom senso, dos bons modos, das virtudes mais esperadas. Há quem se sinta seguro e confiante atrás de uma tela para julgar, ofender e caluniar. Lula não é um semideus. Não está isento de críticas por causa da doença e não traz consigo uma história de vida sem defeitos ou perversões – como, de resto, nenhum de nós. Mas a delicada situação em que se encontra não é a melhor oportunidade para que nos divorciemos de nossa humanidade.

 

 

Isabela Scaldaferri

belscaldaferri@hotmail.com

 

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