Humor escrachado e a lábia de Genoino

genuinoA mais nova polêmica espalhada pela internet diz respeito a uma “entrevista” que um programa da Band divulgou no último dia 25. Há meses, o humorístico aborda o deputado com perguntas embaraçosas, buscando uma declaração sobre o caso do mensalão. Claramente contrariado, o político se nega a falar, tranca o rosto e tenta escapar do cerco. O silêncio de Genoino se tornou parte de uma anedota e obter uma resposta virou questão de honra do programa que incomoda os poderosos, “custe o que custar”. A produção, então, recorreu a uma estratégia inusitada para extrair declarações do político, escalando uma criança para fazer isso. O menino João Pedro Carvalho tem dez anos e é ator. Em Avenida Brasil, novela global, ele fez o Jerônimo, uma das crianças que viviam no lixão. João Pedro se passou por uma criança que queria um autógrafo de Genoino em um livro, acompanhado por seu suposto pai. Ambos foram recebidos no gabinete do parlamentar em Brasília e no encontro, o garoto fez perguntas ambíguas sobre corrupção e o caso do mensalão.
Depois que a matéria foi ao ar, começaram as discussões sobre ética e enquadramento do programa. Criar uma cilada para conseguir a fala do deputado não é legítimo. Usar uma criança para abordá-lo e extrair informação não é apropriado. Nos termos da ética jornalística, a forma como foi obtida a “entrevista” é altamente questionável.
Exibido pela Band desde 2008, o CQC é um dos programas de maior sucesso da emissora, reproduzindo o formato original argentino em que seus apresentadores perseguem celebridades e políticos “custe o que custar”. Com humor ácido, aparentemente sem piedade, o programa recorre a técnicas jornalísticas, mas o CQC não faz jornalismo! Seu elenco persegue fontes, confronta versões, cerca os poderosos e provoca os entrevistados com suas indagações de duplo sentido. O programa recorre ao estilo jornalístico por conveniência e não por vocação ou enquadramento, já que sua busca é o riso, o humor, a diversão do espectador. Outros três fatores mostram como o CQC não é um programa jornalístico: todos os prêmios que recebeu até então são na condição de humorístico, a sua produção não está sob responsabilidade da direção de jornalismo da emissora e a própria Bandeirantes afirmou que o CQC faz humor. Não há razão, então, para as críticas a cerca do que é ou não um bom jornalismo.
Eu, sinceramente, gosto do tipo de humor praticado no programa que tem como grande diferencial a capacidade de aliar coisas tão distantes como humor e política. Em um país despolitizado e que pouco lê como o nosso, essa é uma forma – um pouco distorcida, reconheço, mas de certa forma eficiente – de aproximar eleitos de eleitores. Exageros existem, claro, isso é inegável. Mas quantos não são os exageros de corrupção, falta de ética e de escrúpulos que não são praticados, todos os dias, pelos congressistas? O que seria mais nocivo: o humor escrachado e, em alguns pontos grosseiro, ou os sucessivos casos de improbidade administrativa, enriquecimento ilícito, corrupção ativa e mais um não sei quantos números de crimes praticados no Congresso?
Nessa polêmica toda, deixou-se de lado o tema que deveria ser o mais importante, o que gerou a “pauta” do programa e o que vem instigando as insistentes investidas dos “repórteres” dos CQC. José Genoino foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal no caso do mensalão e é lamentável que ainda esteja ocupando uma cadeira no parlamento brasileiro. Seu julgamento e condenação são fatos e foram exaustivamente acompanhados pela sociedade brasileira. A assunção de uma vaga na Câmara de Deputados é absurda, nesse contexto, já que suscita a impressão de que Genoino foi premiado e não condenado.
Acredito que todos devem querer uma declaração de José Genoíno não enquanto condenado, mas enquanto parlamentar em exercício. Ele está em efetivo exercício de uma função pública e deve, portanto, prestar contas à sociedade, seja da forma que for.
Sejamos coerentes, é absurdo termos que acessar – enquanto eleitores – meios legais para toda e qualquer solicitação de prestação de contas por parte de um político. Por isso da importância da mídia “incomodar”. É curioso termos um político assumindo uma comissão parlamentar após a sua condenação. Isso é, no mínimo, estranho a quem não entende o como se dão as etapas do processo penal. Ou seja, nada mais natural que dúvidas surjam nesse sentido e calar-se não pode ser uma opção nem para Genoino nem para nenhum outro representante público.
Enquanto atacam o programa humorístico, esquecem de enfatizar, também, que, num misto de malícia e ingenuidade, o menino que fez o trabalho dos homens de terno do CQC consegui constranger Genoino, que deixou escapar a frase: “O PSDB não foi condenado no Mensalão porque tem lábia”. Parece que no Brasil a lábia pode ser usada para livrar políticos de acusações, mas não pode ser usada para conseguir algumas respostas pelas quais o país inteiro espera.

Isabela Scaldaferri
belscaldaferri@hotmail.com

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