História de vida esportiva de Manoel Ferreira Santos (Gatiaz)

ooNatural de Macarani, nasceu no dia 10 de dezembro de 1928, tem atualmente 84 anos. Está em Itapetinga desde 1941, é casado com Dona Elisabete e tem sete filhos, nove netos e 2 bisnetos. Manoel Ferreira Santos começou a jogar futebol ainda muito cedo. Como era muito rápido, ganhou logo o apelido de “Gato”, aperfeiçoando depois para “Gatiaz”, devido à sua velocidade e maestria com a bola. Meia direita dos bons, era o detentor da camisa 10 do time, impondo respeito aos colegas e temor aos adversários. Começou a jogar futebol com 12 anos, atuando em times de Itarantim, Macarani, Almenara, bem como no interior de São Paulo – em Lins, Marília e Garça. “Foi um bom tempo, jogar futebol era diversão e também muita responsabilidade. Não tive foi como me profissionalizar, pois não era tão fácil como agora, mas tinha todas as características necessárias e cheguei a receber convite para atuar pelo profissional de Lins, porém como eu tinha que trabalhar, a situação financeira não era fácil, não deu para conciliar as duas coisas”, comentou Gatiaz, ressaltando a qualidade do futebol de sua época de jovem atleta: “Era bom atuar, não tinha a pancadaria que a gente vê hoje dentro de campo, eram amigos que se encontravam para se divertir e jogar sério e não havia inimizades no esporte”, comentou.

Gatiaz encerrou sua carreira de jogador de futebol aos 40 anos, ainda com muita resistência física e lamenta não ter jogado por times de Itapetinga, uma vez que estava sempre com compromissos com times de cidades vizinhas. “Recebi muitos convites para atuar aqui, mas tinha compromisso com outras agremiações e não dava para conciliar as duas coisas”.

Lembrando-se de jogadores de sua época, registrou o nome de Carlito Nova, que foi jogador de Macarani e era bastante conceituado, bem como Catingueiro, que era de Itarantim. “Era muito bom ver tanto Carlito Nova quanto Catingueiro atuando. Eram verdadeiros maestros com a bola, me recordo muito desses dois jogadores que faziam sucesso em Macarani e Itarantim”, recordou-se.

Afastado dos gramados aos 40 anos, o desejo de Manoel Ferreira Santos era montar um time de futebol, a fim de tirar dele alguns nomes que pudessem se profissionalizar. Neste intuito ele montou o Vasquinho, em 1974, aqui em Itapetinga. Sem colaboração financeira de órgãos públicos ou patrocinadores, levou à frente o projeto, contando com o apoio dos atletas e de incentivadores do esporte como Zildo Carvalho. “Seu Zildo foi um dos meus colaboradores, nunca me negou o gramado para jogar e ali pude atuar com o Vasquinho por seis anos, até o dia que me tomaram o time”, lamentou-se Gatiaz, bastante emocionado.

Torcedor fanático do time carioca Vasco da Gama, Gatiaz resolveu dar ao time que montou aqui nos idos de 70, o mesmo nome do time de seu coração. “Eu observava alguns garotos jogando e resolvi reuni-los em um time que eu pudesse orientá-los. Um desses era Edno, meu filho, que pelo futebol que apresentava na época, eu achava que ele tinha tudo para arrebentar como jogador de futebol. Montei o Vasquinho e tive muita alegria com esses meninos, que tinham de 7 a 14 anos e me deram muito orgulho. Alguns quando eu parei de jogar, já deviam estar com 16 ou 17 anos”.

Gatiaz disse que viveu muitos anos decepcionado com o futebol de Itapetinga, mas que tudo isto tinha se apagado de sua memória “no momento em que você, Hernando Cardoso, se lembrou de meu nome para ocupar a sua coluna no Jornal Dimensão, me prestigiando”. Mesmo assim, se recordou que ao perder o Vasquinho, foi chamado para ser treinador do juvenil do Cometa, que ficou em 4º lugar no campeonato da época.

O Vasquinho de Gatiaz era time respeitado nos gramados de Itapetinga e região. Atuando na vizinha Itororó, por quatro vezes fez ótimas campanhas. Em Vitória da Conquista atuou por três vezes com um dos melhores times daquela cidade, o Cruzeirinho, e em Itarantim e Maiquinique os campos estavam sempre cheios de torcedores interessados em apreciar a boa performance dos meninos de Itapetinga. “Recebi convite para jogos em outros lugares, mas infelizmente sem condições financeiras adequadas, não dava para ir em todos os cantos que a gente queria. O esquema era muito bem organizado quando a gente tinha jogo fora, pedíamos autorização aos pais, eles tinham muita confiança em mim. Eu alugava uma Kombi e todos iam muito satisfeitos, apesar das poucas regalias. Teve momentos em que o time tinha que esperar horas até a gente consertar a Kombi que quebrava no meio do caminho, mas mesmo assim não havia reclamações”, disse Gatiaz, recordando-se que o primeiro Vasquinho começou com apenas 7 pessoas, jogando nas quadras. E quando havia a oportunidade de limpar um terreno baldio, a gente fazia dele um campinho, pois não havia outro lugar para os treinamentos.

O vasquinho de Gatiaz tornou-se campeão em 1978, na Nova Itapetinga, enfrentando o Flamengo. “Foi um jogo emocionante, a Nova Itapetinga em peso estava lá para apreciar a partida. Por sinal quando o Vasquinho saía para jogar, tinha mais gente do que hoje em alguns campeonatos que acompanhamos”.

 

Filhos atletas

Orgulhoso, Manoel Ferreira Santos relacionou o nome dos filhos que também lhe deram o orgulho de serem bons jogadores: Lívio como goleiro, Zênio e Edno, que era considerado muito bom e que se tivesse mais oportunidade e condições financeiras, possivelmente se tornaria um bom jogador profissional.

Em época em que fazer futebol era muito difícil, Gatiaz conta que durante todo o tempo que manteve o Vasquinho, ganhou apenas um jogo de camisa, de presente de Ariston. “A única ajuda que tive praticamente, foi esta doação do jogo de camisa. Os meninos apenas o que eu dava a eles era apolo, a única exigência que me faziam, até porque sabiam de nossas condições. Os calções, camisas, eram também fornecidos por mim para eles durante os treinamentos e jogos”, lembrou-se.

Dos jogadores do Vasquinho que teve oportunidade de treinar, destacou os nomes de Sormando, Gaúcho e Nondão que tinham capacidade de irem para um time profissional caso fossem vistos por algum olheiro.

Praticamente Gatiaz foi um dos primeiros donos de escolinha de futebol de Itapetinga, através do Vasquinho. Disse que nunca se indispôs com nenhum dos jogadores e que exigia deles boas notas na escola, respeito aos pais e compromisso com o que estavam fazendo, não sendo necessário ir à casa de nenhum deles chamar para os treinos.

“Se pudesse, ainda gostaria de treinar um time de futebol. Foi um tempo bom, de boas recordações, uma atividade que exerci de coração e ao lado de outros abnegados do futebol daquela época, fizemos o esporte aqui com respeito e com bons valores”, se recorda, dizendo que até hoje encontra amigos que lhes perguntam sobre o seu time e se recordam da boa performance do time.

 

O futebol de hoje

Gatiaz ao finalizar, fez uma breve avaliação de como vê o futebol principalmente da seleção de Itapetinga atualmente. Para ele, os dois títulos ganhos no Intermunicipal foram muito importantes, mas percebe que o estilo dos jogadores mudou e que o time que atualmente forma o selecionado da casa, “joga muito embolado. O meio de campo não encontra os ponteiros, enfim, parece que a qualidade dos jogadores não é mais a mesma daquela que víamos no tempo da seleção e da Ladi que tínhamos Nelson Calango, Pelecotó, Viralino, enfim, tivemos seleções muito boas e que nos deixaram muita saudade”, registrou.

Quanto ao fim que levou o Vasquinho que tantas alegrias lhe deu, Gatiaz reluta em lembrar o episódio, se dizendo ainda muito magoado com uma reunião que aconteceu no Primavera, quando alguns dirigentes de futebol de Itapetinga fizeram uma pressão em cima dos atletas do Vasquinho, querendo levá-los para outros times. “Os meninos foram de certa forma ameaçados, pois se não deixassem o Vasquinho para atender o chamado desses que não entendiam o valor do time que tínhamos, eles iriam proibir os meninos de jogarem no gramado do Primaverão. Foi aí que o Vasquinho acabou, pois eu não podia segurar os meninos, impedir que ele jogassem no gramado, que era sonho de cada jogador. Chorei igual menino junto com meus jogadores da época, pois foi uma tristeza o que aconteceu. Me recordo de Burreguinho, Sormando e outros, que acabaram saindo do Vasquinho porque queriam dar continuidade a seu futebol e não poderiam ficar sem jogar no gramado. Duas pessoas, que se diziam meus amigos, fizeram uma reunião e acabaram com o meu time. Foi uma grande tristeza não apenas pra mim, mas principalmente para meus jogadores. Cadeca, Gildásio Queiroz, Antonio, Lula e outros que foram me procurar, registraram a tristeza e a decepção em terem que sair do time. Isto me entristeceu e para falar a verdade, até hoje quando tenho vontade de ir ao estádio, saio de lá magoado e chorando. Quando acompanhava as seleções que foram campeãs pelo Intermunicipal, sempre saía de lá com um misto de alegria e de tristeza, pois queria que meus meninos da época tivessem a oportunidade de serem melhor aproveitados, apesar de que alguns chegaram até a participar do selecionado”, comentou Gatiaz, que mora em frente ao Campo Edilson Santana e ainda tem a oportunidade de acompanhar o futebol suburbano do Primavera.

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