Gilson de Jesus: nasceu poeta e se fez político

Originário da recíproca volúpia de um coito, ápice de um amor brejeiro, na argúcia da penumbra de intensa desforra das agruras da vida, depois de um longo dia de difícil tarefa na laboriosa atividade rural, os camponeses José Felício Irmão e Josefa Felício de Jesus, regurgitavam das aguçadas entranhas mais um ramo da sua próspera árvore genealógica. No dia 06 de março de 1956, nascia na querência Fazenda Santa Luzia, povoado de Marí, município de Antas na região nordeste do Estado da Bahia, o segundo filho daquela prole de nove garbosos rebentos. Estava chegando ao mundo José Gilson Felício de Jesus, que, sem saber, ao sentir na moleira a gélida água do batismo com uma pitadinha de sal, haveria de conceber os fluidos do dom poético advindo das crendices do ‘‘Cruzeiro da Serra Anane’’, onde sectários afirmam ‘‘ali habitar as crianças que morreram pagãs dos ex-votos do universo do Divino”, rituais de um sincretismo regionalista.

Decorria então o ano de 1971, quando o menino Gilson de Jesus, acompanhado de sua família, aos 14 anos de idade, chegava a esta “terra firme de gado forte” para pedir rancho e ser acolhido com o carinho de um verdadeiro filho adotivo.

Em Itapetinga, seu pai instalou um pequeno comércio de bar e o garoto Gilson ali laborava ajudando o seu genitor. Naquele mesmo ano, por ser portador de uma doença congênita, Gilson de Jesus fora obrigado a rumar-se para São Paulo em busca de tratamento que logo encontrou na Santa Casa de Misericórdia Paulista, onde foi internado por um longo período de três anos e quatro meses, passando por 14 cirurgias. No período em que esteve internado, Gilson ganhou o gosto pela literatura, lendo praticamente toda a obra literata do escritor Graciliano Ramos, pois lá atrás, na terra das Antas, o esperto Gilson de Jesus já havia iniciado, com dificuldades, o Curso Primário.

Durante o período de internamento estudou por correspondência e concluiu o ensino fundamental, tendo como professores os livros e o travesseiro.

Voltando à sua nova terra mater, o jovem Gilson de Jesus conhece uma moça da sociedade itapetinguense que haveria de deixar ser flechada pelo cupido dos seus olhos que disparou, impiedosamente, na pontiaguda flecha, uma gota de um suave e eterno amor que ia culminar com o ato matrimonial que fez ecoar a bela expressão de: “até que a morte nos separe”. Esta sua outra metade, foi registrada no Cartório Civil por Cristina Raquel, uma criança que brincou, cresceu, estudou e se tornou funcionária pública e cantora popular. Esta, unida a Gilson, gerou Joema e Marília, e, de bônus, recebeu o encanto da família, o netinho Davi.

Em 1976, período em que ainda conciliava o tratamento de saúde com o Curso do 2º Grau no Centro Educacional Alfredo Dutra, Gilson se enturma com outros amantes da cultura e cria o Grupo Pau de Arara, que na década de 80 viria a conquistar festivais de MPB, com composições suas e do grupo, onde também fizera parte o saudoso José Barbosa, Juá da Bahia e Ademilson Atanásio. Destaque para as canções: a Peleja de Três Homens, vencedora de três festivais; o Milagre deste Chão, festival de Itapetinga e Marcha da Esperança, 3º lugar em Caratinga-MG.

A poesia de Gilson de Jesus tem conteúdo voltado para o social com a linguagem típica da literatura do cordel regional.

Seguidor da ideologia e da escola Marxista, Gilson de Jesus funda em Itapetinga, juntamente com outros seguidores, o PC do B, Partido Comunista do Brasil. Participa da luta contra a ditadura militar, pela Anistia Ampla Geral e Irrestrita, no final da década de 70 e começo da década de 80. Gilson fez parte também do antigo MDB de Itapetinga e foi o principal articulador da criação do CEITA, Centro dos Estudantes de Itapetinga que lutava pela instalação de uma casa residência para os estudantes universitários em Salvador, e isto, se tornou realidade com a aquisição da Resita (Residência dos Estudantes de Itapetinga), que ainda permanece na ativa. Mas, antes, esta luta já almejava a criação de uma universidade própria para Itapetinga.

Em 1982, Gilson de Jesus ingressa definitivamente na política partidária e se elege vereador pelo PC do B, cujo mandato foi prorrogado de quatro para seis anos. Reelege-se em 1988 e em 1992, mesmo se reelegendo o quinto vereador mais bem votado, não conseguiu tomar posse por falta de quorum partidário. Porém, nas eleições de 1996 e 2000 voltou à Casa Legislativa eleito entre os mais votados. Todavia, em 2004, o número de vereadores foi reduzido para dez, Gilson ficou na suplência, mas recuperou o seu mandato em 2007, com a saída da vereadora Virgínia Hagge que se afastou para concorrer uma vaga na Assembléia Legislativa do Estado.

Em 2008, Gilson de Jesus conquista junta ao eleitorado de Itapetinga o seu sexto mandato de vereador e em 2010 se lança, sem sucesso, candidato a deputado estadual.

No bom desempenho da atividade parlamentar, Gilson de Jesus, ficou conhecido pela marca de “vereador atuante”, máxima conquistada pela sua luta em favor dos mais humildes, e, sobretudo, pelo fato de não ser pedagogo, mas ser por várias vezes, relator da Comissão Permanente de Educação e atuar também nas Comissões de Constituição e Justiça, e Direitos Humanos, da qual é o autor.

Gilson de Jesus, orgulhosamente, escreve seu nome na história do colendo Legislativo Municipal de Itapetinga como parlamentar constituinte que relatou a carta magna do município, a Lei Orgânica de 1990, ao lado da saudosa Hilda Gama e do ex-vereador Luis Carlos Carvalho, cujos nomes ficarão indelevelmente contidos nas páginas do livro histórico dessa Casa Legislativa.

O vereador Gilson de Jesus foi Secretário de Cultura e Esportes do Município de Itapetinga por um curto período, mas o bastante suficiente para iniciar a instalação da iluminação pública do Estádio Antonio Carlos Magalhães, o Primaverão; reformar e reabrir ao público a Concha Acústica e ali realizar festivais de talentos de danças e de músicas, priorizando o trabalho artístico cultural dos jovens itapetinguenses. Foi na sua gestão que se iniciou os folguedos juninos na beira da Lagoa e se difundiu o folclore, valorizando a volta dos ternos de reis. Foi quando também se recuperou 1.600 peças do antigo Museu de Artes e Ciência do Município.

Este ilustre vereador do P C do B, tem o traço marcante no uso do exercício do seu mandado por defender os direitos humanos, as minorias e agir em favor das classes trabalhadoras organizadas, como por exemplo: professores, bancários, comerciários, trabalhadores rurais e sindicatos classistas.

Gilson de Jesus dá um belo exemplo da sua atuação parlamentar com a criação da Lei Municipal que veio a penalizar a rede bancária pela demora no atendimento ao consumidor, aprovada em 1998 pela Câmara Municipal, enquanto o Congresso Nacional só veio pensar nisso, dez anos depois, ou seja, em 2008. Apesar de haver apresentado vários projetos ao Legislativo Municipal, Gilson de Jesus entende que sua marca maior não está na criação de leis, pois sabe que no Brasil já existem leis até demais, o que falta é o direito ao cidadão, e cita a CPI de 1999, onde se apurou as causas que levaram o jovem Marco Aurélio à morte, pela falta de atendimento correto, luta que culminou com a criação do Hemoba, banco de sangue para o Hospital Cristo Redentor.

No seu perfil de vida o vereador Gilson de Jesus está cônscio de sua responsabilidade parlamentar para com a população, e está convencido de que servir é diferente de servir-se. Por isso, vive sua vida modesta, mas de cabeça erguida com a justeza de quem cumpre corretamente o mandato que o povo, por várias vezes, lhe confiou. E em seu discurso de vida está sempre presente uma frase do poeta Patativa do Assaré: “Nesta penosa vida, só o que provou da comida, sabe o gosto que ela tem”…

Nossos penhorados agradecimentos a Sra. Cristina Raquel, fonte das informações que geraram com grandeza esta carta biográfica.

 

* Miro Marques é escritor, historiador e radialista

jornaldimensao@yahoo.com.br

 

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