‘‘Gentileza gera gentileza’’

gentNesta sexta pela manhã, no meio das notícias trágicas de todos os dias, uma em especial chamou-me a atenção. Chico Pinheiro, apresentador do telejornal Bom Dia Brasil anunciou uma boa nova: uma das obras viárias mais polêmicas de São Paulo virou galeria. Vinte pilares do Elevado Costa e Silva, conhecido com Minhocão, ganharam fotos gigantes de gente que sempre esteve ali, mas ninguém enxergava. Os rostos dos moradores daqueles arredores, através das fotos feitas por Raquel Brust, deram vida àquele amontoado frio de concreto.

Os depoimentos dos personagens da reportagem demonstraram que o trabalho da fotógrafa humanizou o local e emocionou aos que por ali passam, mostrando que pequenos gestos podem transformar o ambiente. Foi o que sempre fez e pregou o famoso profeta Gentileza durante toda a sua vida.

José Datrino, desde muito jovem era dado a revelações e experiências místicas. Durante a adolescência saiu da casa dos pais sem dar notícias. Casou-se em Niterói e teve filhos. Montou um negócio com transportes e vivia tranqüilo até ocorrer o incêndio de um circo perto de sua casa e ter uma revelação: uma mensagem divina o mandou ir ao local do acidente consolar as vítimas. José Datrino, então, largou tudo e foi morar no terreno do circo por quatro anos, onde fez um jardim de flores. Daí em diante, dedicou sua vida a transmitir o bem.

Esqueceu o seu nome de batismo para virar simplesmente Gentileza ou Agradecido. O “maluco beleza” passou a usar uma bata branca e deixou sua barba crescer. Levava em uma mão um bastão e na outra um estandarte com mensagens de paz. No Rio de Janeiro pintou 56 murais nas pilastras do Viaduto do Caju, cheios de gentilezas.

Aos 75 anos, fez uma de suas últimas aparições. Em plena ECO-92, o profeta apareceu para pedir que as nações do mundo e seus presidentes adotassem a gentileza como forma de gestão. No ano seguinte, uma pequena queda lhe rendeu dificuldades para andar. Sem qualquer vínculo com sua ex-mulher no Rio, Gentileza pediu abrigo na casa da família em Mirandópolis. Foi lá que passou os últimos anos de sua vida, para onde levou, também, a sua gentileza.

Em 1997, a Companhia de Limpeza Urbana do Rio, sem distinguir a arte da sujeira, a pichação do grafismo, jogou cal sobre as escrituras do Profeta. A arte de Gentileza ficou coberta de tinta. Não fosse o empenho do professor Leonardo Guelman – que coordenou o trabalho de recuperação das pilastras – talvez a voz do Profeta ainda continuasse abafada, calada debaixo do viaduto. Em 2000, os trabalhos foram concluídos e os cariocas puderam, novamente, “ler as letras e as palavras de Gentileza”.

Muitos devem estar se perguntando por que escolhi este assunto para a página dois desta edição. A resposta é simples: por causa da frieza e violência que nos circunda. Perdemos a cordialidade e a leveza da vida não é mais a mesma. Nosso país vem perdendo a beleza. A natureza ainda está lá mas não nos dá mais alegria porque nossos olhos se turvaram pelo quadro da violência. O nosso coração só dispara de medo e de desconfiança. Falo sobre o profeta e projetos como os desenvolvidos no Minhocão porque precisamos deste espírito de gentileza.

Vivemos em um mundo de grandes transformações sociais, culturais, econômicas e religiosas. O pano de fundo destas transformações tem sido frequentemente estampado com a intolerância e ações de desumanização. Neste contexto, a figura de um profeta, assim como as fotos estampadas no Minhocão, surgem como um acalanto, capaz de fazer com que os homens voltem a acreditar, a sonhar. O Profeta Gentileza, através de uma experiência de sofrimento, abraça a causa maior de sua vida: pregar o amor e a gentileza entre os homens. Raquel Brust viu uma cidade se degradando à sombra de um elevado e buscou humanizar o lugar.

Neste mundo de incertezas, onde os mais nobres sentimentos como o amor e a gentileza se perdem, torna-se imprescindível uma gestão feita de gentilezas. Nossos olhos foram vedados pela violência, pela incompreensão, pela intolerância, pelo medo, pela desconfiança e pela falta de sensibilidade. Neste caos, surge um clamor, chamando todos para vivem em “Tempos de Gentileza”. Viver com gentileza é proporcionar a paz interior e universal, sustentáculos para um mundo melhor. Assim, a razão deste texto, que foge dos padrões políticos e combativos que costumo manter, é deixar a mensagem do profeta, na tentativa de resolvermos nossos problemas com menos violência, mais humanidade e muito mais gentileza: “Não usem problemas, não usem pobreza, usem amor e gentileza”

Isabela Scaldaferri

belscaldaferri@hotmail.com

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