Francolino do Nordeste e seus cabras da peste!

mirNa década de 40, Itororó recebia um casal que haveria de entrar para a história agrícola e para o folclore desta cidade, pelas notáveis habilidades de homem do campo que ele trazia na bagagem. Quem o conheceu pode confirmar, Francolino era mesmo um velhinho bom como dinheiro achado, daqueles que só lhe fazia uma proposta de bom negócio se o dinheiro do pagamento estivesse escutando a conversa. Ele morou primeiro na região dos Mutuns e depois na Rua Mal. Floriano Peixoto no centro de Itororó. Francolino José dos Santos e Martinha Rosa da Silva chegaram inesperadamente e se apossaram do coração dos itororoenses com jeitinho cativante de gente simples, mas muito bem educada, coisa que traziam de berço ou da escola doméstica.

Contam que eles fugiram do sertão após a morte do bandoleiro Lampião, porque era amigo de alguns cangaceiros do bando e temia represália.

Ele nasceu no município de Pombal no alto sertão da Bahia no dia 12 de dezembro de 1906, filho de Antonio José dos Santos e de Maria Francisca de Jesus, cresceu e se casou em sua região, mas as coisas foram se estreitando para as bandas do norte, devido às fortes estiagens que castigaram todo o sertão, e como aconteceu a muita gente, Francolino também foi obrigado a deixar seu torrão natal para migrar na região do Colônia, o novo Eldorado baiano dos anos idos.

Com o pouco recurso que arrecadou na vendagem de algumas cabeças de cabras e cabritos que ainda restavam, ele aqui chegando comprou uma pequena área de terras nas matas da região dos Mutuns, lá pelas pirambeiras do Rio Gameleira, já descambando para a Cangalha no Município de Itororó. E ali ele se instalou com dona Martinha, sua fiel companheira e tiveram uma filha.

Como a sua propriedade era bastante pequena, estava mais para um sítio, do que para uma fazenda, ele plantou toda a área de cacaueiros e bananeiras que serviria de sombreamento para proteger o cacau e produzir frutos que lhe ajudasse no custeio das despesas. E aproveitou-se do aceiro para plantação de aipim cacau e pacaré, mandioca farinheira, cana de açúcar etc. No entorno da casa, valendo-se do perene riacho que passava na frente, ele plantava hortaliças. Aos sábados era uma grandeza, a sua produção de hortifrutigranjeiros gerava a arrecadação de um bom “cascalho” que dava para garantir a manutenção das despesas da casa. Ele fazia uma ou duas cargas de bugigangas punha no lombo do jeguinho “Periquitinho” e da mulinha “Paquinha” e partia para a cidade a fim de comercializar na feira livre de Itororó sua genuína produção in natura. E aquela renda dava, suficientemente, para fazer a feira de passar a semana e ainda comprar um frasquinho de xarope Bromil para curar a difrúcio, um frasco de Saúde dos Meninos, Tiro Seguro ou Ponvermina para matar vermes e uns 2 ou 3 comprimidos de Melhoral para tirar a febre quando a filha pequena adoecia. Ali o casal criava uma porquinha parideira, muitas galinhas, patos, gansos, perus e saqués. E com isso eles foram levando a vida até o cacau começar a produzir. A sua pequena propriedade chegou a ser avaliada e premiada pela CEPLAC como a mais produtiva, proporcionalmente, na região, mas ele não chegou a alcançar essa vitória porque já havia vendido a propriedade para o Sr. Edvaldo Maurício dos Santos (Vardinho Pedreiro), que comprou a fazendinha já produzindo as primeiras safras.

Homem religioso, de convicção Católica, Apostólica Romana, nunca perdeu uma missa dominical na Igreja de Santo Antonio de Itororó. Domingo, ele acordava bem cedo, se arrumava tudo, quase sempre de branco e ia levar a parte que lhe cabia na devolução do Dízimo. Ele também tinha por devoção a prática da “Ladainha de Nossa Senhora”, rezada no mês de agosto, de 1º a 6, quando se celebrava a apoteose da festa do Bom Jesus da Lapa. Todo ano o casal participava da romaria do Bom Jesus, viajando em pau de arara.

Francolino não apartava de um chapeuzinho de couro de abas curtas sobre a cabeça, um guarda chuva e da sua “sanfoninha pé de bode”, pois, muito cedo ele aprendeu, de ouvido, tocar sanfona e violão. Influenciado, talvez, pelos costumes do rei do cangaço Lampião e seu bando de fora da lei a quem Francolino dizia que conheceu e até fez amizade com alguns “cabras”, lá em Angico perto da divisa da Bahia com Pernambuco.

Aqui chegando, Francolino lembrava de sua terra e para matar saudade, tocava as canções que o bando de Lampião costumava tocar nas festas do cangaço: “Acorda Maria Bonita, Mulher Rendeira” e um xaxadozinho que ele mesmo compôs. Estas eram as primeiras músicas por ele tocadas nas farras que fazia em toda redondeza.

O nome do nortista Francolino, naquela região, já ressoava frêmitos de forrozada rasgando o véu da noite, vozeando a madrugada até o romper da aurora.

Descoberto por Adylson Machado e Genira Ramos, pessoas oriundas do sertão de Mairi e Mundo Novo, respectivamente, acostumadas ao folclore nordestino, Francolino participou com destaque dos Cursos de Igreja, realizados pela Igreja de Santo Antonio, na bela administração espiritual do Padre Simeon Ibarra Torres,colombiano de Elias-Uilla, que por ali passou mais de 9 anos apascentando o rebanho católico.

O padre Simeon adquiriu uma enorme área de terras com a Fazenda Cabana da Ponte e implantou o Abrigo dos Velhos, escola agrícola, creche e uma horta comunitária que foi entregue aos cuidados lavoureiros de Francolino do Nordeste. Ali ele cultivava hortaliças, frutas, legumes e tubérculos para o consumo interno do CENPRO – Centro de Promoção Humana – órgão mantendedor do Sítio São José e vendia uma boa parte desses produtos na feira livre para tirar seu sustento, uma vez que não tinha salário fixo.

No movimento de Curso de Igreja, Francolino criou seu próprio grupo para alegrar os cursistas nos momentos de descontração. O grupo comandado por Francolino se chamava: “Francolino do Nordeste e Seus Cabras da Peste”. Toninho Braga ao triângulo, Luciano Calazans no violão, Miro Marques no pandeiro e o velho Franco na “sanfoninha pé de bode” formavam o quarteto que fazia sucesso nos intervalos pós almoço dos Cursos de Igreja.

Francolino José dos Santos, teve uma única herdeira que está casada e ainda vive em Itororó. Em 16 de maio de 2005, aos 98 anos, ele atendeu o chamamento Divino e foi morar com Deus. Sua companheira, Martinha Rosa da Silva, não demorou muito e também foi ao encontro do Senhor, onde, certamente, os dois, estão vivendo uma vida de glória junto a Deus.

Francolino deixou grande saudade aos seus amigos, mas entrou para a história dos vultos indeléveis de Itororó, pelas suas muitas habilidades no meio rural e no campo da musicalidade…

 

 

* Miro Marques é escritor, historiador e radialista

jornaldimensao@yahoo.com.br

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