Flores, bombons e respeito

Sem título-1Há algum tempo eu estava conversando com um amigo quando um conhecido, ao ouvir um comentário meu, exclamou: “Uma mulher inteligente!” Como se mulher fosse um ser desprovido de qualquer nível de raciocínio, ele se espantou por eu ser capaz de opinar, de uma forma que foge do lugar comum, sobre a política nacional. Tentando minimizar a sua surpresa, meu amigo explicou que eu era jornalista, editora do Jornal Dimensão. Insatisfeito com a intromissão desastrosa em nossa conversa, o desavisado continuou: “Você trabalha no Dimensão? Faz o que lá? É secretária? O jornal é do seu esposo, é?”. Ele não se convencera ainda, em pleno século XXI, que mulheres são seres pensantes e capazes de desenvolver todo e qualquer tipo de trabalho tão bem quanto aos homens e que já ocupam cargos de chefia em empresas. Não, elas não precisam mais que os maridos as banquem ou imponham as suas presenças. Elas simplesmente conquistam seu espaço. E seu espaço não se restringe à cozinha.
Já se passaram quase 50 anos, que as mulheres queimaram os sutiãs em busca de direitos iguais e lutaram para provar sua real capacidade de executar qualquer tarefa com grande desenvoltura. E eu, que pensava já estar fora de moda esse pensamento tacanho e machista, deparo-me com esse tipo de interferência preconceituosa. Irmã caçula de dois homens, eu sempre me dei bem no mundo masculino. Nunca me senti muito discriminada ou encontrei grandes barreiras por ser mulher. Talvez por isso nunca dei muita atenção ao nosso dia internacional e a todos os clichês repetidos em todos os “8 de março”. O problema dos clichês é que, com o passar do tempo, eles vão se tornando previsíveis e pouco eficientes: chega o dia da mulher, todo mundo nos enche de mimos e cuidados, fala que mulher é importante, que “não haveria homem se não fossem as mulheres” e todas essas frases já sem muito efeito. O dia acaba e as coisas voltam para sua habitual rotina.
O Dia Internacional da Mulher foi estabelecido pela ONU em 1977. As suas origens remontam a meados do século XIX, quando trabalhadoras começaram a ir às ruas pelo direito ao voto, pela melhoria nas condições de trabalho e pela igualdade de gênero. De lá para cá, muita coisa mudou. Hoje em dia a mulher vota, trabalha fora, casa e se separa sem precisar de autorização masculina, desempenha funções e ocupa cargos que antes eram exclusividade dos homens. Mas a gente ainda não alcançou a igualdade efetiva entre os gêneros. Ainda precisamos ter datas para lembrar que é um problema que persiste. E eu tenho a impressão que a luta por respeito e igualdade tende até a aumentar nos próximos anos, tendo em vista que nas últimas eleições o povo brasileiro elegeu o congresso mais conservador da sua curta história democrática. Atualmente, somos “representados” por parlamentares que se sentem capazes de definir a mulher que merece ou não ser estuprada, por exemplo.
Em relação ao mercado de trabalho, tudo continua notoriamente sem qualquer mudança. A mulher permanece ganhando um salário menor que o homem,“continua sendo uma mão de obra barata e instruída (já que, conforme pesquisas, mulheres têm mais anos de estudos que os homens).
A ideia de aborto é uma outra questão ainda está pouco explorada na nossa sociedade. Comprovadamente, o aborto coloca em risco a vida de muitas mulheres que tentam acabar com uma gravidez indesejada através de formas ilegais. No século XXI ainda não conseguimos manter um diálogo vivo para que toda mulher se sinta no livre direito de escolher os rumos da sua própria vida. Quero deixar claro que eu sou contra o aborto, mas a favor da sua legalização. Ser contra o aborto significa que eu decidi não fazer isso ao meu corpo à minha vida, mas quero que outras mulheres sintam-se livres para decidir o que é melhor para elas. Legalizar a prática não é incitá-la. Mas isso é assunto para um outro texto. O que quero aqui afirmar é que as mulheres não têm o direito de decidir o que fazer do seu próprio corpo e isso é, sim, uma forma de repressão contra a qual é preciso lutar. Se formos falar ainda da violência, do assédio, da pouco participação política, da discriminação, da ditadura da beleza que impõe padrões impossíveis de serem alcançados e de todas as dificuldades que as mulheres encontram diariamente, perceberemos que ainda há pouco a comemorar e que facilmente trocaríamos as flores e bombons distribuídos neste dia – que adoramos, claro – por respeito.
O dia da mulher é todo e qualquer dia no qual uma única mulher vence suas próprias barreiras, vence seus próprios medos, dá um passo ao desconhecido e arrisca fazer o que ela quiser. O meu dia da mulher, por exemplo, foi aquele no qual eu consegui mostrar ao machista que se intrometeu na minha conversa que as mulheres estão, sim, ocupando cargos de chefia com muita competência. Deverá ser um dia muito comemorado todo aquele que cada uma, individualmente, conseguir sobreviver com dignidade a este mundo tacanho, reacionário e extremamente machista.

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