Fernando Dias Cardoso.

Sem título-1Mais uma vez a belíssima cidade de Boa Vista do Nordeste, Região do Médio Sudoeste do Estado Bahia, se transforma em palco para enredar uma dramática história de amor que se transforma, inesperadamente, em um crime passional que poderia ter sido evitado, mas não foi.

Tendo chegado ao mundo em dia de festa de natal, sob o barulho de sons inerentes, executados pelos foliões que comemoravam com entusiasmo a data que marca o nascimento do menino Jesus, Nando Cardoso se comportou durante toda a sua trajetória de vida como um eterno folião, onde quer que ele se encontre tem que ter todo tipo de festa por ali.

Como toda criança peralta, Nando brincou pelas ruas de Boa Vista do Nordeste, atuando de mocinho ou de bandido. Tudo que ele fazia era elevado à décima potência, por isso, era comum os pirralhos contra ou favor da sua turma, chegar em casa queixando aos pais que Nando lhe quebrou a cabeça, lhe bateu com um pedaço de pau, lhe deu uma pedrada ou mordeu sua orelha. E lá vão Seu Fernando e Dona Julieta arcarem com as despesas de curativos ou ambulatoriais procedidas pelo Dr. Nelson Togo Guerreiro ou pelo Dr. Felomeno Noronha, os primeiros médicos, instalados em Boa Vista do Nordeste.

Nascido em Boa Vista do Nordeste, a 25 de dezembro de 1935, Fernando Dias Cardoso, filho de Fernando Lopes Cardoso e Julieta Dias Cardoso, enrolou mais do que estudou com as professoras: Florildes Valadares, Carmelita, Ruth Almeida, Letícia de Oliveira e com o professor Astor Brasileiro até se matricular, a contragosto, no Colégio Taylor Egídio de Jaguaquara, de onde se evadiu para se abrigar com o amigo Dadá da Luz, no Jockey Clube de São Paulo onde teve seu primeiro registo de trabalho na CTPS. Seu Fernando, ao tomar conhecimento de suas peripécias e do local onde o moleque se escondia, foi a São Paulo para trazê-lo e obrigá-lo a estudar, mas como o danado estava, de fato, trabalhando ao lado do colega Dadá da Luz, no clube de equino mais famoso de São Paulo, Seu Fernando o deixou por lá para ver se ele tomava juízo. Pouco tempo depois, Nando Cardoso estava de volta a Boa Vista com mais experiência no campo profissional, evidentemente, mas o mesmo Nando no campo da baderna e da boemia. Mesmo assim, se entrosa com os funcionários do Banco de Crédito Rural e é contratado pelo gerente local para fazer parte do quadro funcional da empresa de recursos financeiros destinados ao homem do campo. Bancários eram, naquele tempo, a classe trabalhadora mais destacada de uma cidade. Nando Cardoso estava então, como queria. Quando chegava sexta feira à noite e até domingo as mesmas horas os bancários dominavam os bares da cidade tomando cerveja e whisky, jogando pôquer e comendo tira-gosto o tempo todo em verdadeiro frenesi.

A essa altura, Nando Cardoso já havia se tornado num Dom Juan, um boêmio sonhador. Um cara boa pinta, olhos claros, cabelos a lá maracanã, lia muito, falava muito bem, namorou a maioria das meninas da sua época em toda a vizinhança. E aí veio o seu primeiro casamento com a encantadora Normélia Azevedo Bispo, filha do famoso fazendeiro de milhares de cabeças de gado, Frederico Antunes Bispo, mas conhecido por Fred Bispo. Nando,decide não querer mais viver empregado e sai do salutar serviço de bancário para fazer entrega total ao grupo da burguesia. Nessas idas e vindas conhece o advogado, empresário intelectual e comunista Durval Palmas que o acata como seu melhor amigo e por meio deste chega ao raio das grandes personalidades do país e até do exterior: humorista Chico Anísio, cineastas famosos como: Hugo Cavana, Juan Manzon e Glauber Rocha de quem Nando passou a ser, inclusive, seu assistente de direção nas suas grandes produções cinematográficas como: “Deus e o diabo na Terra do Sol”, “Seara Vermelha”, enfocando a seca do cerrado sertão nordestino que alcançaram fama internacional.

Nando Cardoso que já havia deixado seu nome na política local quando concorreu uma cadeira no Parlamento Municipal, não foi eleito, mas como suplente assumiu a vaga algumas vezes, deixou seu nome também no esporte de Boa Vista do Nordeste e da Bahia, pois foi durante muitos anos titular absoluto dos selecionados local e regional, jogou ainda no Ypiranga de Salvador, mas achou que ainda não era essa a sua praia e abdicou da carreira esportiva. Agora era um autêntico cidadão do mundo, a curtir as macias poltronas dos aviões pelos voos nacionais e internacionais, sendo, a partir dali, apenas um jovem latino americano com dinheiro no bolso, que só frequentava o seu lar, de quando em vez, e muito mais como um ilustre visitante do que como o “ás” daquele lar.

E não era por aí que a banda deveria tocar; e a responsabilidade de chefe da unidade familiar, na sua verdadeira expressão da palavra, onde ficaria? – Comentavam! – Toda responsabilidade de um chefe de família estava indo por água a baixo.

Aquela que teria sido, no começo, a sua musa xodó, parecia não mais despertar atrações sexuais diante de abundantes ofertas surgidas em suas andanças, daí, e ao que parece, não ter sido por ato impudico, mas por necessidade de se relacionar com alguém que compartilhasse seus sentimentos, a companheira experimentou do fruto proibido e gostou, causando pesadelo à vida daquele boêmio que não admitia um sócio no seu capital do amor. Tinha aparecido um corpo estranho compondo um triângulo amoroso que feria, sensivelmente, os brios do jovem Nando Cardoso, cidadão bastante conceituado junto a critica nacional e ate internacional.

O amigo Durval Palmas, a fim de provar a sua admiração pelo amigo Nando Cardoso mandou que o mesmo fosse procurar uma fazenda de 20 alqueires, mais ou menos, para criatório bovino, numa região bastante produtiva de leite e corte no Estado de Minas Gerais e se a ele agradasse, fechasse negócio que o dinheiro para o pagamento entraria imediatamente em sua conta bancária. Nando encontrou no município de Nanuque – Minas Gerais a terra procurada. Fechou negócio e pagou a vista. Porém, o fisco leonino quis saber, por meio da sua declaração de renda, de onde veio tanto dinheiro que possibilitou o pagamento a vista de uma quantia tão avultada? Nando explicou que fora um presente do seu amigo Dr. Durval Palmas e aí as coisas se complicaram ainda mais porque o Dr. Durval Palmas era homem reconhecidamente defensor do Partido Comunista do Brasil e esse fato estava se passando em pleno Regime Ditatorial Militar!

Nando Cardoso é preso em Nanuque e recambiado a Juiz de Fora – Minas Gerais, para se explicar com a Polícia Federal. Seu Fernando, seu pai, e um irmão mais moço, Natanael Dias Cardoso, vão a Juiz de Fora tentar relaxar a prisão de Nando, mas não conseguem. Entretanto, Nando Cardoso tinha uma grande amizade, também, com o ex-prefeito de Vitória da Conquista e deputado federal Dr. Edvaldo Flores que ao saber deste episódio foi a Juiz de Fora e depois de depor a favor de Nando, conseguiu a sua soltura.

Em Boa Vista do Nordeste as conversações de rua, àquela altura dos acontecimentos, eram as mais infamantes e inflamantes possíveis. Para todos da cidade, Nando estava sendo traído desenganadamente e ainda mais um agravante, os jocosos comentários do seu desafeto, pelas esquinas da cidade. A família de Nando se interveio buscando paz para o caso, mas não foi possível encontrá-la. Então o destemido Nando Cardoso que já tinha superado vários episódios na sua vida boêmia, inclusive aquele fato bastante comentado até hoje em Boa Vista que envolveu o comerciante Manecão Açougueiro, quando este se desentendeu com Nando porque lembrou a piada de um elevador para o primeiro prédio de dois andares construído na cidade, que Manecão pediu ao deputado federal Manoel Novaes e lhe foi negado com sobeja gozação, Manecão, tomado por enorme cólera, mandou Nando sair do Bar de Duca para morrer na rua e Nando saiu mesmo. Manecão apertou o dedo no gatilho acertando a coxa esquerda de Nando, e ao som do estampido do segundo disparo, Nando já estava com o açougueiro seguro pelo gargalo, ou melhor, pelo pescoço, acertando lhe uma coronhada do seu próprio revolver na cabeça, esmurrando a cara ensanguentada, sentado na sua volumosa barriga até o açougueiro fazer cocô na roupa e os amigos se intervirem evitando que acontecesse o pior.

A fim de se preparar para o maior desafio de sua vida, Nando Cardoso se confinou na sua fazenda mineira por um período de quatro meses, treinando tiro ao alvo com todo tipo de armas, desde o Winchester do western italiano, revólveres de calibres diferentes, parabelos e pistolas ponto isso, ponto aquilo até que teve a certeza que o seu sócio no capital do amor, por mais que fosse bom no tiro, como na verdade era, não lhe ofereceria mais risco de morte. E veja que o Coletor Federal, Ernesto Ramos Master, talhado para morrer por Nando Cardoso, acertava um tiro numa perdiz voando, com apenas u’a mãe. O atirador era tão técnico na arte de disparar com arma de fogo, que ficava dentro de uma sala e pedia para alguém jogar um limão Mirim na horizontal de uma janela para ele furar a fruta em qualquer velocidade que fosse jogada e nunca errou um lance.

(Continua)

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