Feitocal: dança, memória e itinerância durante três dias em Itapetinga

modelo 1Como registramos, apagamos e borramos a memória? Memórias são verdades ou invenções narrativas? Na direção de perguntas como estas, o projeto Feitocal utiliza a dança como procedimento para investigar a condição humana de memorar os fatos. De caráter itinerante, o projeto circula por oito cidades baianas e chegou a Itapetinga ontem e se encerra no domingo.
A circulação começou em Morro do Chapéu, em junho, e finaliza em Salvador, em dezembro. No conjunto de ações, estão apresentações do espetáculo em espaços públicos, oficina, bate-papo e vivência criativa. Todas as atividades são gratuitas. Em Itapetinga, as apresentações acontecem na Parque Poliesportivo da Lagoa, sempre às 19h00.
Uma singularidade de Feitocal é que a experiência em cada município contribui diretamente também para a realização do espetáculo, através da inserção de um participante da oficina na encenação. Na etapa final da itinerância, na capital baiana, o projeto reunirá integrantes de todas as cidades pelas quais passou (Monte Santo, Euclides da Cunha, Itapetinga, Ituaçu e Tanhaçu estão no circuito). Todos estarão no espetáculo, somando-se ao “elenco fixo”, formado pelas intérpretes Rita Aquino e Daniela Guimarães e pelo diretor Felipe de Assis, que também está em cena.

Territórios
Felipe de Assis e Rita Aquino assinam a concepção e criação do espetáculo, que acontece em espaços públicos, explorando os territórios da memória que constituem ligações entre a experiência individual e pública. “Um traço distintivo deste projeto é que ele alia criação e formação de uma maneira própria. Nós fazemos uma apresentação na cidade, realizamos um bate-papo e uma oficina com os artistas do local, da qual vai sair um participante da segunda apresentação do espetáculo”, explica Rita.
Este quarto integrante vai estar em cena, participando, interferindo e modificando a obra. “Ele vai trazer um conteúdo que é pessoal, articulando as suas referências e memórias, que podem ser pessoais ou coletivas, como um personagem da cidade, e que vai estabelecer diálogos com as nossas referências. A sua presença intensifica a encenação como processo e a atualiza no tempo e no espaço”, reflete a coreógrafa e dançarina.
Já a última etapa do circuito, em Salvador, com todos os participantes, justapõe, contrapõe e redimensiona as experiências vividas na itinerância. “Será uma forma de revivê-las. De maneira diferente, claro, por que a memória já traz em si a potência da renovação”, diz Rita. “Geralmente, fala-se de memória como um fato preso no passado. Não queremos escavar coisa alguma. Estamos interessados em procedimentos que permitam inventar, adquirir, citar memórias, roubá-las, embaralhá-las”, propõe sua parceira em cena, a dançarina, coreógrafa e pesquisadora Daniela Guimarães. Este formato de adicionar integrantes é novo para o espetáculo Feitocal, que já realizou apresentações em Salvador.

Bate-papo e oficinas
Nesta itinerância, serão 16 apresentações seguidas de bate-papo. Já as oficinas e vivências somarão mais de 140 horas de atividades formativas e deverão envolver até 160 integrantes (20 por cidade), desenvolvendo processos artístico-pedagógicos. A realização é da Realejo Projetos e 7Oito Projetos & Produções, com apoio financeiro do Fundo de Cultura da Bahia, Fundação Cultural do Estado da Bahia, Secretaria de Cultura e Secretaria da Fazenda do Governo do Estado da Bahia. “Mais do que sua proposta de descentralização, o interessante é que passamos por cidades de portes e contextos geográfico-culturais diversos. Isso torna o processo ainda mais enriquecedor”, entusiasma-se Felipe de Assis.

Construção
Rita e Daniela são artistas da dança; Felipe, do teatro. Juntos e com referências de cada intérprete-criador, realizam um espetáculo de dança que investe no diálogo com o espaço urbano. Na encenação, a metáfora da passagem de tempo é apresentada através de uma espécie de parede ou muro composto de seis chapas de ferro galvanizado e que sofre uma série de ações: montagem, desmontagem e remontagem. “Em partes ou como um todo, esta parede pode ser erguida, rabiscada, apagada, projetada, pintada, descascada e derrubada. É também uma forma de expor as falhas e inacabamentos da memória”, diz Felipe.
A estética da “construção civil”, com objetos brutos e concretos, reforça o conceito de processo – tanto da obra quanto do seu tema, a memória. A encenação também conta com elementos como pá, gesso, baldes e água. Além disso, toda a estrutura técnica de iluminação, sonorização e projeção de imagens é aparente e operada pelos próprios intérpretes. Em Feitocal, confundem-se os acessos, as fronteiras, as ações, numa justaposição não hierarquizada de imagem, texto, luz, música e movimento.
Programação
A programação começou na Biblioteca Municipal das 15h às 18h na sexta-feira; Hoje, 18, a oficina será novamente na Biblioteca Municipal, das 10h às 13h e agendada está uma apresentação no Parque Poliesportivo da Lagoa, às 19h. No domingo, 19, vivência e criação também na Biblioteca Municipal das 16h às 18h e se encerra com apresentação na Lagoa, às 19h.

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