Falta uma política de esporte séria

artuArthur Zanetti ganhou medalha de ouro em Ginástica Olímpica nos Jogos de Londres do ano passado. Oito meses depois, o Brasil parecia ignorar sua conquista, até que no último domingo, Zanetti foi à Globo falar sobre o descaso e as más condições de treinamento e afirmou que cogita a possibilidade de defender outro país. A notícia repercutiu e, em menos de 48 horas, o COB – Comitê Olímpico Brasileiro – se manifestou e apareceram – como num passe de mágica – novos aparelhos e um montante considerável de dinheiro a ser investido em nossos atletas. A notícia seria ótima se não representasse a incompetência, a inércia e a falta de interesse do nosso governo.

A três anos dos Jogos do Rio 2016, o país correu o risco de perder um dos seus poucos campeões olímpicos, o que aumentaria ainda mais a possibilidade de fiasco do país sede das Olimpíadas. Isso mesmo, ao contrário do que a propaganda tenta nos fazer acreditar, as estatísticas indicam um desempenho vergonhoso. À exceção dos esportes coletivos como futebol e vôlei, o Brasil não se destaca em nada. Não há política profissional em nenhum esporte individual. O que temos são casos isolados de sucesso como os irmãos Hypólito, Jade Barbosa e o próprio Arthur Zanetti. Em Londres, por exemplo, o desempenho do país foi pífio e o Brasil ficou atrás de países pequenos e sem tradição esportiva em Olimpíadas como: Irã, Coréia do Norte e Jamaica. Certa vez, em entrevista, Joaquim Cruz, medalhista de ouro nos 800 metros, disse que, em relação a investimento no esporte, o Brasil vem fazendo tudo de maneira equivocada. Todo o erro começa da falta de jogos escolares e universitários, que seriam a forma correta de captação de talentos. Não se pode descobrir alguém do nada. Joaquim afirma que será inevitável o fiasco no Rio de Janeiro em 2016, já que não há tempo para descobrir novos atletas.

Assim como o medalhista, acredito que não há mais tempo para transformar o Brasil em celeiro de atletas para todas as modalidades esportivas, pois um país, segundo os especialistas, precisa de no mínimo 10 anos para preparar seus atletas de base e para que eles consigam ter alto rendimento no esporte. E isto não aconteceu no Brasil. Se, em 2002, quando o Brasil ganhou o direito de sediar os Jogos Panamericanos do Rio e já sonhava em sediar as Olimpíadas, tivéssemos preparado um projeto olímpico de formação de atletas, poderíamos ter a meta de ficar entre os 10 países no ranking dos Jogos em 2016, como aconteceu com os que já sediaram as edições passadas. Mas como nada foi feito, então fica a dúvida do resultado brasileiro, principalmente nos esportes individuais.

O Governo Federal, em parceria com o COB, Ministério do Esporte, governos estaduais e municipais, confederações, federações, deveria ter investido na base e massificando o esporte nas escolas e clubes para o surgimento de novos atletas, construído quadras esportivas nas escolas públicas, piscinas, pistas de atletismo, ginásios esportivos e centros de treinamento para os esportes individuais. O Brasil não tem planejamento integrado, e se tiver no futuro, não dará tempo para Rio 2016, será para resultados a longo prazo.

O Brasil ainda está longe de ser uma potência olímpica, falta muito, principalmente na valorização do esporte na escola, instalações esportivas adequadas, atualização dos técnicos, renovação nas equipes e patrocínio aos atletas individualmente. O Brasil tem recursos humanos suficiente para se transformar num país olímpico, mas falta oferecer oportunidades às crianças e aos jovens para a prática esportiva.

E como fazer esporte de alto nível se não temos uma política de esporte séria no País? Como fazer esporte de alto nível se não massificamos e qualificamos atletas, professores de educação física, treinadores e comissão técnica multidisciplinar envolvida no esporte? Como competir em alto nível se não nos importamos em aperfeiçoar nossos talentos? Como sediar de forma honrosa uma Olimpíada se só enxergamos os nossos atletas enquanto eles estão sob os holofotes em cima do pódio ou se expondo na mídia?

Sediar uma Olimpíada é uma oportunidade ímpar para o desenvolvimento do Brasil. Afinal, por meio destes teremos uma maior visibilidade, através da exposição e repercussão destes nos veículos de mídia, de nossa imagem enquanto destinação turística. Tais eventos poderão ser encarados como elementos motivadores e dinamizadores de transformações que implicarão e incitarão uma completa modificação da infraestrutura do país como um todo, desde a hotelaria, passando pelos modais de transporte, e melhoria da qualidade de serviços (incluindo transporte, saneamento, comunicação, educação, segurança), envolvendo toda a superestrutura brasileira com implicações em políticas públicas, instituições regulamentadoras, etc.. Mas, antes de tudo, a base precisa ser melhor trabalhada.

Com mais investimento e foco, a educação física escolar ajuda crianças de todas as idades a adotar um esporte, que, se não se tornar um meio de vida, pelo menos se tornará um estilo de vida mais saudável. Por isso creio que, antes de qualquer coisa, é essencial fomentar o esporte nas escolas, prefeituras e outros órgãos públicos. Assim, aumentando o número de praticantes, aumentamos a chance de termos um país campeão de verdade.

Isabela Scaldaferri

belscaldaferri@hotmail.com

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