Falta prioridade para a saúde

Depois que acabam os confetes e as serpentinas, que passam os blocos e as escolas carnavalescas, que a festa do Rei Momo se dá por encerrada e a euforia da bebedeira passa, as verdades e mazelas do nosso país voltam a aparecer de maneira bem clara e desanimadora.

A saúde pública no Brasil é uma questão que necessita de mais atenção dos órgãos competentes. Não a toa, este foi o tema escolhida para a Campanha da Fraternidade de 2012. A realidade nos mostra um país desestabilizado onde as políticas públicas são incoerentes e desrespeitam a sociedade. É vergonhoso ver tanta gente morrendo em corredores dos hospitais públicos; ora por falta de atendimento, ora por falta de remédios.

A falta de prioridade para a saúde pública vem de longe. A Constituição de 1988 vinculou recursos ao setor de educação, mas não teve a mesma preocupação com a saúde. O erro só foi reparado em setembro de 2000, com a aprovação da emenda constitucional 29, que criou piso para aplicação de recursos na saúde pública por parte de União, Estados e municípios. Mesmo assim, das 27 unidades da Federação, 17 não vêm cumprindo a exigência constitucional; mas nada acontece, apesar das punições previstas na Lei de Responsabilidade Fiscal.

Nas duas maiores Casa de debates do País a Câmara dos Deputados e o Senado que formam o Congresso Nacional, deveriam tramitar projetos solucionáveis para a Saúde Pública, mas, no entanto, sempre o que é divulgado são formações de Comissões Parlamentares de Inquéritos para serem discutidos casos de condutas irregulares de quem administra o dinheiro público.

Nossa região não é exceção à regra e nossa população também sofre com condições precárias e pouco investimento no setor. O carnaval certamente não chegou com alegria, para uma série de famílias que precisou de assistência médica. No domingo, 12, por exemplo, antes mesmo que os sons da bateria ecoassem, o jovem Jilmar Almeida Santos, pastor da Igreja Nova Betel no Quintas do Sul, foi mais uma vítima do descaso e do despreparo na saúde pública. Jilmar foi atropelado quando ajudava a trocar o pneu de um carro próximo à rodoviária de Itororó. Socorrido e levado ao hospital da cidade pelo Samu, mas não teve atendimento, precisando ser transferido, dentro de um táxi, para o Hospital Cristo Redentor de Itapetinga, onde só ali recebeu os primeiros socorros. Mas o HCR não tinha sequer material para raio X e limitou-se a receber o paciente e tentar uma posterior transferência para tratar a fratura exposta no tornozelo e a bacia quebrada. Apenas por volta das 3h da madrugada da segunda-feira o pastor de 32 anos conseguiu uma vaga no Hospital de Base de Itabuna, onde ainda sofre em silêncio sem atendimento adequado. Jilmar Santos ainda espera ser transferido para Salvador, a fim de se submeter a uma delicada cirurgia da bacia e na coluna.

A família está contando com a ajuda de médicos amigos em Salvador e também de políticos e funcionários da Sesab, para tentar conseguir uma vaga no Hospital Manoel Vitorino, especializado no tipo de procedimento indicado para as lesões do paciente. Mesmo assim, até as 17h desta sexta-feira, ainda não tinha sido possível transferir o acidentado.

As negligências no atendimento à Saúde Pública no Brasil continuam amedrontando a população que esperneia de todas as formas e cobra melhorias. Até quando o povo vai continuar sofrendo e sem receber o tratamento adequado no setor Saúde Pública? Até quando vamos sofrer calados esperando que sejam cumpridas as promessas de mudanças dos nossos políticos? A saúde é o primeiro bem universal, sem ela nada produzimos, nada somos capazes de fazer. Como estudar, trabalhar, gerar riquezas ou conhecimento sem saúde?

Quantos mais precisarão engolir a dor e esperar a sorte nos corredores de hospitais sem serem atendidos? Quantos terão que perder a vida para que essa situação se transforme? Somos tratados como um país de terceiro mundo, mas o povo humilde que sofre com tantas filas, greves e falta de remédios, merece ser tratado como prioridade. Nosso país merece uma saúde de primeira, digna de alimentar as esperanças de um povo sofredor que luta dia-a-dia para conseguir ao menos uma consulta através do SUS.

O Sistema Único precisa urgentemente ser reformulado. A sociedade clama por urgência. O som dos trios elétricos já foram desligados. Não dá mais para fingirmos não ouvir os gritos de socorro emitidos há tanto tempo pela saúde do nosso país.

 

Isabela Scaldaferri

belscaldaferri@hotmail.com

 

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