Exigindo respeito

Por volta do ano 60 antes de Cristo, Júlio César já ocupava postos de destaque na República romana e logo, com o seu prestígio e a sua popularidade sagrou-se imperador. Quando Pompéia Sula, sua segunda esposa, se envolveu em um escândalo que questionava sua fidelidade, Júlio imediatamente divorciou-se dela. Ao perguntarem o porquê de tão drástica atitude, uma vez que não havia provas concretas contra Pompéia, ele respondeu: “A esposa de César tem de estar acima de suspeitas”. Nasceu aí o famoso dito popular que meu sempre lembrado pai costumava repetir em determinadas ocasiões: “À mulher de César não basta ser séria, tem que parecer séria”. Segundo ele, certas posições sociais ou profissionais requerem muito mais do que um comportamento digno, mas tambem uma imagem inquestionável.

Mais de dois milênios depois da suposta traição de Pompéia, aqui, nos nossos trópicos, o povo parece esquecer do ensinamento do imperador romano. Depois de eleger um palhaço para ocupar um importante cargo na Câmara de Deputados, agora a populaçao brasileira assiste pacificamente esse “engraçadinho” fazer do Congresso Nacional um palco para stand up comedy.

Nove meses depois de chegar à Câmara como o deputado mais votado do País, Francisco Everardo Oliveira e Silva (PR-SP), o palhaço Tiririca, fez esta semana sua estréia no Congresso. Alternando expressões como “beleza pura”, “maravilha, garoto” e “legal”, Tiririca presidiu por quase três horas uma audiência pública na Comissão de Educação e Cultura para discutir a concessão de alvarás para instalação de circos nas cidades. E não perdeu as chances que teve para fazer piada, como ao ler o nome de um dos convidados da reunião. Ignácio Kornowski é coordenador da área técnica de desenvolvimento da cultura da Confederação Nacional dos Municípios e foi alvo de risos e gracinhas do presidente da comissão por causa do seu sobrenome. O palhaço/deputado brincou frisando a pronúncia “cornóvisque”. A partir de então, seguiu-se a sessão baboseiras.

Por meia hora, Tiririca contou passagens de sua vida, como na época em que fazia animação na casa de meninos ricos e aproveitava para dar uns cascudos na criançada. “Eu era conhecido na minha rua como ‘rasga mãe'”, brincou, sobre o tamanho de sua cabeça. Mais adiante, Tiririca contou a história de seu sucesso e lembrou a música “Florentina”, que virou nome de uma de suas filhas. “Quando falam Florentina, é uma gozação total com ela, porque, oh, nome feio”.

Como se não bastasse, beirando a falta de decoro parlamentar, Tiririca chamou o amigo deputado Chiquinho Escórcio (PMDB-MA) de “cara de joelho” e ironizou um convidado de sobrenome Kornowski. Fez algumas piadinhas sobre a mãe que tocava fole e que era conhecida como a maior “fulera” do lugar. As brincadeiras com a família continuaram: “minha mulher é conhecida como perna de jogador. Não porque é grossa, mas por ser cabeluda”, afirmou, em outra passagem.

No discurso, o deputado não comentou sua atuação parlamentar e justificou as piadas como uma ação para “dar um descontraída”. Exagerou na “descontração” e brincou demais na hora de discutir um assunto tão sério quanto cultura.

Certa vez, escrevi sobre o absurdo de ter o palhaço Tiririca liderando a Comissão de Educação e Cultura. Em discordância aos meus argumentos daquele texto, recebi vários e-mails falando sobre a história de vida de Francisco Everardo e algumas posturas positivas tomadas nos primeiros dias de seu mandato. Muitos acusaram-me de preconceituosa e aconselharam-me a usar meus textos para denúncias sobre os políticos letrados mas corruptos. Volto a afirmar que meus textos em nada têm a pretensão de agredir ou desferir acusações preconceituosas. Em momento nenhum questiono a importância do circo ou a possibilidades deste ou daquele de assumir um papel no Congresso Nacional. Mas, acredito, assim como afirmara Júlio César há milênios, que a posição social ou o exercício de certas profissões têm de ser, por natureza, exemplar. A idoneidade moral, a reputação ilibada e a postura digna devem ser condição sine qua non para que alguém se candidate a um cargo público. Julgar correta a postura brincalhona e, até certo ponto irônica, de Tiririca no Congresso é afirmar, em última análise, que a democracia também é uma piada. E o nosso regime governamental é importante demais para ser encarado como uma apresentação de picadeiro.

Isabela Scaldaferri

belscaldaferri@hotmail.com

 

Tags: , ,

Sem comentários ainda.

Deixe um comentário