Entrevista com Marcos Costa

Cinco meses depois de montado o frigorífico Sudoeste, o setor de abate foi desativado e 80 funcionários estão sem emprego. A notícia trouxe mais intranqüilidade para a cidade, depois que se registrou baixas nos postos de serviços de outras indústrias importantes como Vulcabras|azaleia, Fosfocal, entre outras. Mantendo ainda a graxaria do frigorífico funcionando, os sócios do empreendimento buscam apoio da sociedade organizada e órgãos públicos, para buscar ativar novamente o setor de abate, prejudicado com a pouca fiscalização dos abates clandestinos na região. O empresário Marcos Ribeiro Costa falou sobre o assunto com a repórter Eliene Portella.

 

Jornal Dimensão – Como surgiu a idéia de vocês montarem o Frigorífico Sudoeste e qual era a intenção de funcionamento?

Marcos Ribeiro Costa – O Frigorífico Sudoeste nasceu pela oportunidade a princípio de um negócio. Com o fechamento do Figorífico Itapetinga, que era de abate de eqüídeos, compramos ele e o ampliamos. Nos pareceu uma boa oportunidade, uma vez que estávamos ainda construindo o Frigosol de Itororó e o novo negócio daqui adiantaria o processo de instalarmos um frigorífico na região. Também estudamos a possibilidade de em Itororó instalar o processamento de carne do sol no Frigosol, achamos que ficaria mais completo unirmos as duas coisas, lá ainda faltava toda a parte de montagem e decidimos então procurar a prefeitura de Itororó porque tínhamos o acordo de construir o frigorífico de lá, conseguimos convencer o prefeito e a administração daquele município a mudar em um primeiro plano o nosso investimento para o de um processamento de carne de sol, fizemos um novo protocolo de intenções para isto e a partir daí fechamos o negócio e montamos então o frigorífico daqui para atender o abate regional.

 

J.D. – Então a primeira intenção de vocês foi a de atender o abate regional?

M.R.C. – Sim, a concepção da montagem do Frigorífico Sudoeste foi para atender abate regional com um modelo de prestação de serviços, nos valendo como a própria Adab declarou em nota aqui no Dimensão, da proposta de regionalização de abate – e nós estávamos inseridos nessa proposta, tanto que o Frigorífico de Vitória da Conquista trabalha assim há cinco anos, como prestador de serviços para atender justamente à política que o governo colocou que é salutar e favorece o pequeno abatedor. Nós entramos no mercado regional certos de que estávamos apoiados em um programa fomentado pelo governo do Estado através de seus órgãos da área. Porém, infelizmente até agora não conseguimos ter o sucesso esperado.

 

J.D. – E durante quanto tempo vocês abateram animais e o que os levou a desistir?

M.R.C. – Funcionamos durante cinco meses e sete dias e a primeira surpresa nossa foi o recuo do município de Itororó, pois estava acertado que na abertura do frigorífico daqui, eles fechariam o abate do matadouro irregular que existe lá na cidade. Explicamos a eles que não conseguiríamos abrir o frigorífico se não existisse esse acordo, não valeria à pena economicamente, uma vez que necessitaríamos de um abate mínimo em torno de 2.500 animais/mês só para o ponto de equilíbrio da unidade. Um número inferior a isso teríamos que tirar dinheiro do bolso para bancar o projeto e foi o que aconteceu conosco ao longo desses 5 meses. Então a nossa primeira surpresa foi a negativa do município de Itororó em cumprir o acordo de fechar o matadouro de lá…

 

J.D. – E qual foi a alegação deles?

M.R.C. – Prefiro não entrar no mérito desta questão porque acho que é política. Mas basta dizer que houve um recuo do município de Itororó, nós iniciamos no dia 3 de outubro, aguardamos uns 15 dias e inclusive antes de funcionar, trouxemos os açougueiros de Itororó para visitar a unidade, esclarecemos como seria o processo e isso tudo acompanhado pela prefeitura, por secretários de lá, colocamos ônibus à disposição para trazer o pessoal, enfim, isso tudo na nossa cabeça estava caminhando conforme o acordo, pois a soma do abate de Itapetinga e de Itororó, daria para chegar muito próximo da viabilidade e aí teríamos tempo para buscar outros abates como até conseguimos nesse período, trazendo um abatedor de Salvador, gerando benefícios também para os fazendeiros de Itapetinga; trouxemos um outro de Barra da Estiva e fomos tocando o projeto de conquista de forma bem lenta…

 

J.D. – E quanto a Itapetinga, como foi a receptividade ao projeto do Frigorífico Sudoeste?

M.R.C. – Aqui, para nossa surpresa também, que é a cidade sede do frigorífico, não houve nenhuma ação concreta, tirando uma reunião com a ADAB, Vigilância Sanitária e prefeitura, na sede da ADAB, quando pedimos socorro. Logicamente nos ouviram mas demonstraram grandes dificuldades em atuar, mas que iriam buscar melhorar a fiscalização e ver o que poderia ser feito. O Ministério Público não esteve nesta reunião, pois na época estava em fase de transição, o promotor Junseira mudou de pasta e só retornou em dezembro, quando a gente já estava com três meses de funcionamento.

E aqui eu gostaria até de fazer uma ressalva, pois Junseira é um promotor muito atuante nessa área. Quando ele voltou para a pasta foi o único momento que nós tivemos alguma fiscalização durante esses cinco meses. Inclusive ele próprio e a Polícia Civil foram apreender carne, papel que deveria ter sido feito pelos órgãos de Vigilância Sanitária e a ADAB. O promotor e os policiais fizeram apreensão de carne clandestina à noite, e essa foi a única apreensão que houve durante esses cinco meses.

 

J.D. – Na sua opinião, Itapetinga não avançou em nada no que diz respeito ao cumprimento da Portaria 304?

M.R.C. – Pode-se dizer que foi uma evolução insignificante. Há sete anos, quando o abate ainda era no Mafrip, nós já abatíamos em torno de 1.300 animais. Então imaginem a evolução de sete anos no consumo de uma cidade que mudou completamente a renda per capita e aumentou o número de habitantes. Estimar 1.600 animais abatidos atualmente é ser bem razoável, pois desses, de Itapetinga foram apenas 700 animais por mês nesse período em que funcionamos. Sobra aí 900 animais que parte é distribuída pela JBS e a outra parte, cerca de 500 a 600 animais, estaria sendo vendida clandestinamente em Itapetinga nesse período em que o Frigorífico funcionou e não houve fiscalização.

 

J.D. – Como ficam vocês e este projeto agora?

M.R.C. – A palavra que eu gostaria de usar neste momento é que nos sentimos verdadeiramente ao longo desses cinco meses órfãos no que diz respeito ao apoio dos órgãos tanto de Vigilância Sanitária quanto da ADAB. Não sei te dizer o porque. Nós sabemos das dificuldades das agências locais, elas têm um plano de trabalho, não são elas que definem esse plano, mas sim a diretoria estadual, enfocando os recursos, onde serão alocados, quais são as prioridades, de que forma vai ser feito, enfim, acredito que não seja por culpa da ADAB, da agência daqui, ou mesmo das pessoas da Vigilância Sanitária, acho que isso é muito mais uma questão estrutural de direção do que na verdade de vontade de ter ação. Sabemos que os recursos são limitados, viaturas e número de pessoas também, mas não justifica, pois são a eles que temos que recorrer. Não posso recorrer à polícia diretamente para ir combater o abate clandestino, pois não é caso de polícia. A pergunta que eu deixo é a quem o frigorífico – não sou eu ou meus sócios Éder, Kléber e Alber – teríamos que recorrer?

 

J.D. – Vocês fecharam as portas totalmente? demitiram todos os funcionários?

M.R.C. – A princípio fechamos a atividade de abate, a graxaria continua funcionando. Como esta última está credenciada a receber produtos externos, temos o material de três outros frigoríficos, que é o de Vitória da Conquista, Ilhéus e de Eunápolis, todos inspecionados. A graxaria nos ajudou a bancar o frigorífico ao longo desse período e continuamos a contar com os 20 e poucos funcionários do setor e os 80 que eram responsáveis pelo abate tiveram que ser dispensados, com muito pesar, pois já tínhamos passado uma primeira fase que é a do treinamento, enfim, um período muito desgastante.

 

J.D. – As demais cidades da região também não se interessaram pela utilização do frigorífico?

M.R.C. – Quero registrar que durante esses 5 meses em que estivemos funcionando, abatemos animais vindos de outros frigoríficos. Não houve nenhuma ação no sentido de ter novos abates partindo de um abate clandestino, sendo que em nossa região 80% do abate é clandestino. Ou seja, a região tem a oportunidade de ter uma unidade frigorífico muito bem montada, capaz de atender a região, pronta, sem custo para o estado e infelizmente não vimos nenhuma ação para coibir o abate clandestino. Nenhum outro município foi integrado e nos municípios onde a Portaria 304 já está implantada – que na região aqui é Itapetinga, Macarani e Maiquinique – houve um grande retrocesso no retorno ao abate clandestino. E eu me pergunto, quantas regiões do estado gostariam que um grupo de empresários implantasse um frigorífico na região para que o cumprimento da Portaria 304 resolvesse um problema que é de saúde pública, sem custos para os municípios e para a região, pelo contrário, com ganho, com receita em tributos, renda, resultado em postos de trabalho, com solução ambiental, enfim. Itapetinga e região perdem a oportunidade de resolver o problema, jogando fora esta oportunidade.

 

J.D. – E o que pensam você e seus sócios em fazer agora?

M.R.C. – Bom, o frigorífico só poderá passar a funcionar se tivermos a certeza de um volume mínimo de abate. Tivemos a idéia de começarmos junto com as entidades de classe organizada como Sindicato Rural, Rotary Club, Maçonaria, Associação das Indústrias, enfim, queremos envolver a sociedade, para que não se torne uma ação só do frigorífico, para não ficar parecendo que estamos legislando em causa própria e não existiria benefício para os outros. Nossa indústria quer ter resultados sim, mas é preciso que o estado observe que ela também ajuda a resolver problemas que diz respeito também a ele. Teremos uma primeira reunião em forma de fórum, em data a ser agendada, quando extrairemos um documento para ser levado à Promotoria e de lá, ela chamar para este grande movimento os órgãos competentes como ADAB, Vigilância Sanitária dos municípios que fazem parte da microrregião, bem como os representantes de prefeituras, para que cheguemos a uma conclusão que possa beneficiar a todos. Querem ou não o frigorífico funcionando? acham ele importante para a região como um todo? Então marcaremos uma data para voltarmos a funcionar e ela seria aquela em que todos os municípios também implantariam a Portaria 304 pelo menos no que tange ao abate. O que estamos buscando agora é um comprometimento da comunidade e de todos os órgãos de maneira formal e não mais de forma política. E a grande importância disto tudo será o envolvimento do Ministério Público, pois será ele que dará o selo legal a este processo. Se esse não for o caminho que dará resultado, buscaremos outros, pois temos um frigorífico apto a exportar e qualquer grande indústria tem interesse em um modelo como o nosso.

 

J.D. – Mais algo a acrescentar, Marcos?

M.R.C. – Investimos nesse empreendimento sonhos, tempo, desgastes, participamos de diversas reuniões onde acreditávamos que a Portaria 304 seria mesmo levada a sério, mas no momento em que estávamos com tudo pronto, o outro lado não aconteceu. E é preciso que as leis criadas sejam cumpridas. A comunidade precisa também se alertar para isto e entender que é um empreendimento que favorece a ela. Eu queria deixa registrado que nós temos nesses órgãos pessoas comprometidas, tanto na Adab quando na Vigilância, não estou aqui fazendo críticas às pessoas da ADAB, e quero registrar inclusive um grande comprometido, dr. Paulo Emílio, da direção do órgão. Ele é um dos homens que tem apoiado os frigoríficos na Bahia e a expansão no estado. Mas ele é sozinho nessa missão e precisamos que a corporação, o conjunto da ADAB resolva agir e as Vigilâncias Sanitárias também. E aqui cito como grande exemplo de Vigilância Sanitária na Bahia, a de Vitória da Conquista, que é bem equipada, atuante e posso dizer que lá o abate clandestino é insignificante, não apenas o de bovinos, mas agora também o de suínos, que se adequou em uma semana. É uma prova que é possível e existem exemplos a serem seguidos, funcionando e bem; Deixo aqui mais uma vez um agradecimento aos funcionários por esse período que trabalharam conosco e assim que conseguirmos viabilizar para retornar os abates todos eles estarão no topo da lista pare serem readmitidos. Agradecer a dr. Raimundo, veterinário do Ministério da Agricultura que nos apoiou e incentivou nesses 5 meses e agradecer a Deus ter nos permitido vir até aqui e entregar a Ele o nosso futuro, pois é dele o controle.

 

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