Entre os felizes e insatisfeitos

Esta semana, li em um dos blogs da cidade uma matéria sobre a mudança da direção da Associação dos Moradores da Vila. Segundo a matéria, “a voz do povo das vilas – Rosa, Riachão, Suzana e Aurora – agora era o prefeito municipal”, já que sua nova líder se diz “gente do prefeito”. A reportagem constava, ainda, de vídeos da reunião dos moradores das Vilas, com a sua nova líder declarando apoiar a administração e, logo em seguida, os protestos ocorridos há alguns meses na Câmara de Vereadores e a queima de pneus que interditou a ponte de acesso aos bairros, em repúdio ao descaso do governo.Os responsáveis pelo site indagavam-se sobre a mudança de postura do grupo que, há não muito tempo, liderava protestos e manifestos contra o atual governo do nosso município, reivindicando maior atenção ao bairro, cobrando as promessas não cumpridas de campanha e pedindo respeito.

Flávio Scaldaferri, nosso eterno editor, costumava dizer que nada era mais volúvel que a opinião pública, nem a mais namoradeira das mulheres. “É incrível como o ídolo de hoje pode ser – e quase sempre é – o execrado vilão de amanhã. Mudando ao sabor das circunstâncias, oscilando de acordo com os acontecimentos de momento ou embarcando no que alardeia a mídia, a comunis opinio muda mais que desenho traçado por nuvens”, escreveu ele ainda em 1997.

Não é de hoje que a opinião pública vem sendo alvo de análise e polêmica, especialmente no que diz respeito à política. Há dois ou três anos, o senador Paulo Duque, presidente da Comissão de Ética do Senado Federal, disse não temer as cobranças da população sobre o julgamento das denúncias que envolviam José Sarney, entao Presidente do Senado. Na época, Duque afirmou: “Não estou preocupado com isso. A opinião pública é muito volúvel. Ela flutua. Não temo ser cobrado por nada. Quem faz a opinião pública são os jornais, tanto que eles estão acabando”.

A declaração de Paulo Duque foi uma ironia que não cabia a um presidente do conselho de ética – e por isso conseguiu uma grande repercussão, mas ela veio carregada de verdades. Verdades, estas que podem muito bem ser aplicadas ao caso de oscilaçao de opinião dos moradores da Vila. Com certeza a opinião pública é incrivelmente volúvel. Ela realmente flutua, seguindo a onda. Um ciclo imutável. O próximo acontecimento, o mais novo escândalo, o último crime bárbaro… para depois serem esquecidos. Sempre o último, o novíssimo, o factual. Como se fosse a última moda. E, é claro que os jornais acabam influindo na construção dessa moda, já que sua função é dizer o que pretensamente deve merecer mais atenção.

Muitas vezes, divulgamos tanto alguns acontecimentos, com tanta intensidade, que parecemos um spammer, bombardeando mensagens de forma quase indiscriminada. Incomodamos, criamos caso, fazemos pessoas refletirem nem sempre pelo que é importante. Tentamos mostrar caminhos, desenterramos, contamos e recontamos histórias, revelamos verdades e versões nem sempre ouvidas. Erramos, acertamos, influenciamos. Fazemos tudo isso, sem dúvidas. E, certamente, foi o que vinha tentando fazer o site que, por tantas vezes publicou protestos dos moradores da Vila e agora se vê na contraditória obrigação de publicar aplausos.

O jornalista tenta lidar com uma população ávida por comida, diversão, arte e escândalos. Tentamos oferecer um pouco de consciência e reflexão, mas nem sempre conseguimos. Começamos, então, a ouvir muitos desaforos e ficamos conhecidos, na maioria dos casos, como manipuladores.

O problema é que, apesar de toda essa influência do dito quarto poder, são sempre os políticos, aqueles denunciados e investigados pelo jornalismo que – usando cestas básicas, propinas e alguma influência – vencem as guerras, e, no final, trazem um sorriso de deboche. Eles debocham do esforço dos jornalistas, da opinião pública falida, ou da sociedade ingênua. Debocham de nós todos. No final das contas, o prejuízo é só nosso e ninguém se importa.

Talvez não seja apenas um dito popular a frase: cada sociedade tem o governo que merece. Merecemos o deboche público daqueles que foram eleitos para trabalhar por nós. E o pior é que nem com escárnio somos capazes de acordar. Até as próximas eleições, muitos se revesarão entre os felizes e insatisfeitos, deixando a importantíssima opinião pública sem a força que ela deveria ter. A força capaz de transformar essa cidade e trazer as verdadeiras e positivas mudanças para o nosso país.

 

Isabela Scaldaferri

belscaldaferri@hotmail.com

 

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