Encontro de coronéis

Lendo “A Imprensa e o Coronelismo no Sertão do Sudoeste”, obra marcante do jornalista, historiador e escritor Jeremias Macário, de Vitória da Conquista, me dei conta da importância da imprensa como órgão de informação e do jornalismo no que concerne o registro dos fatos para a posteridade.

Seria, verdadeiramente, um fracasso para o escritor, o historiador ou simplesmente para o contador de casos e causos, se nada encontrasse escrito para servir de embasamento dentro da sua linha de raciocínio que determinasse o princípio do jornalismo, numa reportagem, que tem como meta fundamental as expressões: “onde, como, quando e por quê”? Nesta obra o autor se preocupou com o registro do passado e as logomarcas de todos os mensários, semanários e diários de notícias que circularam nesta região desde os primórdios da história, inclusive com os fatos que marcaram época. É através desses fatos documentados por tão significativos periódicos, que se podem estabelecer parâmetros dentro de uma linha de raciocínio que a violência foi sempre uma constante na vida das pessoas que habitavam essa região.

Se hoje os jovens estão se exterminando violentamente, ainda menor de idade, pelo vício das drogas, no tempo passado o homem se extinguia pela empáfia do poder, pelo egoísmo do eu sou o que sou, ou simplesmente pela ignorância de não saber viver em paz com a sociedade do seu tempo.

Às páginas 89 e 90 da obra em epígrafe, o autor traz à luz da atualidade um episódio ocorrido nesta região, que os mais jovens também têm o dever de tomar conhecimento através da aquisição do livro que deve ser encontrado nas livrarias regionais, ou, agora, por meio desta coluna Dimensão. Trata-se da luta armada entre o Cel. Olímpio e Dino Correia que começa aqui e agora segundo Jeremias Macário.

O fato ocorreu no distrito de Verruga que hoje é a belíssima cidade de Itambé, em março de 1925 e que foi noticiado pelos periódicos da época: A Semana e A Notícia.

Um tiroteio chamou a atenção da pequena população do distrito de Verruga e da região por uma demonstração de poderio, exibida em público, pelos dois coronéis que dominavam a área. Este acontecimento manteve um fogo cerrado por dois dias e duas noites entre os jagunços do Cel. Olímpio Pereira de Carvalho e de Ascendino Melo (Dino Correia) resultando em várias mortes e execuções numa tragédia sangrenta que marcou o município de Vitória da Conquista.

O Cel. Olímpio veio das Lavras Diamantinas e se estabeleceu no distrito de Mata de São Paulo que se chamou São Paulinho e hoje Caatiba, onde foi dono da Fazenda Catolezinho. Amigo do Cel. Agripino Borges, que aqui chegou por volta dos anos dez e logo foi nomeado subdelegado do distrito em data de 11 de setembro de 1911. Sobre este fato tão marcante, a época, o jornal A Conquista, o primeiro periódico da cidade, fez referência em sua edição do dia 30 de setembro de 1911, falando da nomeação do coronel, que se tornou chefe absoluto naquela área. Valente e autoritário, o coronel gostava muito de fazer farras no vizinho distrito de Verruga e sempre provocava brigas e arruaças. E seus homens andavam armados de pistolas, parabelos e até fuzis mauser. Elogiado e cercado de atenções, sua fama logo cresceu pelas redondezas. O Cel. Olimpio costumava fazer farras em Verruga, sempre regadas com conhaque Macieira e vinho Constantin, além de muitas mulheres.

Em 1923, ele se desentendeu com um elemento do seu grupo chamado de Manoel de Adelina, mataram o pobre coitado e o bando de Olimpio mandou um recado para que ninguém o enterrasse e seria morto quem se atravesse fazer isso. O homem foi devorado pelos urubus. Mais tarde, a mando do coronel, seus jagunços foram matar um indivíduo pelas bandas de Macarani e lá praticaram atos extorsivos e uma série de bagunças. Ascendino Melo, que tinha fazenda em Macarani, não gostou do que aconteceu e expulsou os arruaceiros que levaram o fato ao conhecimento do Cel. Olímpio.

Por sua vez, Olimpio mandou um recado desaforado para Ascendino ir até Verruga levando o café que ele levaria os biscoitos. Para um bom entendedor meia palavra basta. Os biscoitos eram as balas. Portanto, ele estava lhe convidando para uma guerra. Ascendino, ou Dino Correia, reuniu seus homens, cerca de 60 indivíduos, e partiu para a contenda. Neste tiroteio morreu o seu sogro João Santos. Um dos amigos de Olímpio, Braulino José dos Santos, foi morto na rua e seu corpo ficou por 40 horas estendido no chão, sendo devorado pelos porcos. Depois de três dias de luta, oito capangas de Olímpio foram presos e executados. Mas, mesmo cercado, Olímpio conseguiu furar o cerco e fugir com seus companheiros para sua fazenda, levando um morto de nome Antonio Pretinho. Perseguido, o tiroteio continuou em sua casa e, mais uma vez, o coronel se livrou do cerco com sua família, indo se refugiar na casa de Agripino Borges, em Guigó que agora se chama José Gonçalves. Cercado pela terceira vez, ele fugiu e um novo tiroteio aconteceu no lugar de nome Gravatá (Ituaçu). Somente o exército conseguiu prendê-lo nas Lavras Diamantinas e, trazido para Conquista, foi acusado de ter praticado 32 homicídios. Depois de solto, passou a residir em Conquista, na Rua dos Campinhos e se dedicou ao ofício de consertador de armas e ali viveu até a morte.

Depois de tanta bestialidade demonstrando forças no passado, fazendo vítima tantos inocentes a serviço de outrem, podem se concluir que a violência sempre existiu e continua, agora não mais pela arrogância na conquista de terras, até porque não existem mais terras a se conquistar, ou ainda pela brutal vontade de mandar em tudo ou em todos. Mas, agora, a violência existe pelo “mando de campo” escondido detrás das sórdidas capas do sádico mundo das drogas…

 

* Miro Marques é escritor, historiador e radialista

jornaldimensao@yahoo.com.br

 

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