Encarando nosso maior problema

No Brasil nasce, a cada ano, cerca de três milhões de novos brasileirinhos e brasileirinhas. Junto a cada um deles nasce, também, uma série de desafios para o país. “É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária”, dita do Estatuto da Criança e do Adolescente. Por isso, é preciso ter uma sociedade pronta para receber esses futuros cidadãos. O ambiente familiar e social que lhes será oferecido e as ações e os cuidados a que serão submetidos definirão suas atitudes, seus hábitos, seu caráter e seu destino.

Esta semana, as crianças protagonizaram boa parte dos noticiários. Na segunda, um grupo de crianças entrou em um hotel da zona sul de São Paulo e tentou furtar um celular. Ao sair, elas foram apreendidas pela Polícia Militar. Agressiva, baderneira e violenta, a ação do grupo – com média de 11 anos de idade – chamou a atenção. Na sexta, mais problemas envolvendo crianças e adolescentes: um rapaz de 15 anos agride uma diretora e ameaça matá-la e um menino de cinco anos foi convocado a depor por ter mordido o braço da professora – isso mesmo, cinco anos e convocado a depor, mas esse assunto daria mais uns dois outros textos e não vou me prolongar nele agora. O fato é que um sinal de alerta foi ligado: estamos cuidando muito mal das nossos pequenos. Fica difícil pensar em país do futuro quando o futuro do país não está bem cuidado.

Uma pesquisa feita com seis mil estudantes das redes públicas e privadas revelou que mais da metade dos alunos sai da 3ª série do ensino fundamental sem saber o que deveria de matemática. É o retrato de um Brasil que vai ter ainda mais dificuldades para crescer no futuro. Não custa repetir que, sem educação, não há salvação. A prova da “Avaliação Brasileira do Final do Ciclo de Alfabetização” foi aplicada neste ano para aqueles que haviam concluído o 3º ano do Fundamental. As privadas, tiveram resultado bem acima das escolas públicas.

No total, descobriu-se que 44% dos alunos não aprenderam a ler e 57% não sabem fazer operações aritméticas básicas, como somar e diminuir. Aí, eu pergunto: Que escola é essa, onde o aluno chega ao 3º ano e não sabe ler? Não sabe somar e diminuir? Será a escola em que se passa de ano sem o saudável desafio de uma prova?

O resultado obtido pelas crianças das escolas públicas chega a ser vergonhoso, uma prova cabal de que nosso governo tem se dedicado pouco ou quase nada àquilo que deveria ser visto com absoluta prioridade: a educação. Alguns estudiosos chegaram a buscar justificativas para o baixíssimo desempenho das nossas escolas. Há os que acreditam que, para o aluno pobre, o objetivo principal é estar na escola e aprender é bonus. Outros afirmam que é impossível esperar que o aluno pobre, que mora na periferia e vem de família desestruturada, aprenda o mesmo que o de classe média ou alta, por isso, as pontuações de escolas particulares e públicas não poderiam ser comparadas.

Chego até a acreditar, com uma certa resistência, que não se pode cobrar que alunos de escola pública aprendam o mesmo que os de escolas particulares por causa da influência do meio sobre o aprendizado. Mas o que precisamos fazer é encarar o problema e encontrar maneiras de resolvê-lo. A China mostra que a ideia de que não pode haver educação de alto nível em cenário de pobreza é balela: no último Pisa, o teste de educação mais conceituado do mundo, sua província de Xangai, que tem nível de renda per capita muito parecido com o brasileiro, apareceu em primeiro lugar em todas as disciplinas estudadas, enquanto o Brasil não ficou nem entre os cinquenta melhores. Nosso problema não é termos alunos pobres: é que nosso sistema educacional não sabe como ensiná-los, e está mais preocupado em encontrar meios de encobrir essa deficiência do que em solucioná-la. Precisamos, sim, de ensino e padrões diferentes para ricos e pobres. Mas é o contrário do preconizado pela maioria, acredito que precisamos que a escola dos pobres ensine mais do que a dos ricos. É difícil? Muito. Mas deve ser a nossa meta. Porque, se não for, não estaremos dando igualdade de oportunidades a pessoas que já nascem com tantos déficits em sua vida.

Para muitos, seria necessário nos tornarmos um país de gente rica para que pudéssemos dar educação de qualidade a todos. Mas a verdade é que o salto da educação precisa vir antes: sem educação de qualidade, não teremos desenvolvimento sustentado. Podemos nos enganar com um crescimento econômico puxado pela alta de valor das commodities, mas em algum momento teremos de encarar a realidade: um país não pode ser melhor, mais rico e mais bem preparado do que as pessoas que o compõem.

 

 

Isabela Scaldaferri

belscaldaferri@hotmail.com

 

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