Em palanques improvisados

modelo 1Em Salvador começou oficialmente na quinta-feira, mas, na verdade, desde a segunda metade do mês, o clima de carnaval tomou conta do país; em algumas cidades com os blocos nas ruas e noutras as ruas e avenidas inteiramente tomadas pela antecipação dos festejos de momo. A partir de hoje, a animação é geral, contaminado gente de todas as idades e classes sociais. Coitado de quem, nesse período, precisou, ou venha a precisar, dos chamados serviços essenciais, porque passou maus momentos ou vai ficar a ver navios. Assim, querendo ou não, do carnaval todos somos envolvidos; uns são contaminados porque participando ativamente da folia, pulando e cantando atrás dos trios, porque estão vivos e bem vivos, e só não vai atrás do trio quem já morreu; outros são diretamente envolvidos por sofrerem as consequências da precariedade dos serviços públicos, nesta época.

Como a nossa capital ostenta a condição de patrocinar um dos carnavais mais animados do país, atraindo uma imensa multidão de turistas, justo que o Governo se preocupe com a segurança pública e pessoal desses foliões, reforçando o aparato policial nas ruas da cidade, procurando garantir um ambiente de tranquilidade para todos que buscam as alegrias do carnaval baiano, não falando, obviamente, da qualidade dos serviços postos à disposição dos foliões. E, como nos anos anteriores, faz deslocar para a capital do Estado grande parte do efetivo da Polícia Militar, desfalcando seriamente a segurança das cidades do interior. Isto é, o governo pratica o surrado expediente de cobrir a cabeça e descobrir os pés. E, assim, nós, que admiramos o carnaval de Salvador, mas que dele não participamos, somos incluídos, por força das circunstâncias, no bloco daqueles que sofrem as consequências da precariedade dos serviços públicos, especialmente na área de segurança pública.

Confesso que dentre os meios de comunicação social, reservo maior espaço de tempo à imprensa escrita e a TV, com exceção daqueles programas que, apesar de todos os avanços tecnológicos, ainda não conseguiram fazer a tela verter sangue. Raramente ouço rádio, mas, mesmo assim, do pouco que ouço, é de estarrecer o noticiário pelo volume diário de ocorrências policiais, especialmente pelo número de assaltos, muitos deles praticados à luz do dia, com desmedida violência contra as pessoas, e nos mais diferentes pontos da cidade, sem que os assaltantes, sequer, tenham a preocupação de esconder o rosto, ostentando, contudo, possantes armas para inibir a reação das vítimas.

Evidentemente que a segurança pública, na sua ampla concepção, está na esfera de competência dos Estados e da União. Mas, o Município pode, desde que o seu Prefeito esteja imbuído do necessário espírito público de defender os seus munícipes, contribuir, e muito, e de diversas maneiras, para que a segurança dos cidadãos se faça com maior eficiência e prontidão. Mas é preciso manifestar vontade politica. Em nosso caso, a tomar como regra a omissão do Senhor Prefeito, talvez seria esperar muito. Sabemos dos esforços e empenhos dos Comandantes da Polícia Civil e da Polícia Militar, mas vale o alerta para o momento e a expectativa de seja posto em execução um esquema que dê tranquilidade aos componentes dos blocos “eu fico” e “daqui não saio”, que formam a imensa maioria da população.

Lá pelas bandas dos circuitos carnavalescos, em Salvador, é fácil imaginar a alegria dos foliões e a desenvoltura dos políticos em plena fase de articulação para montar alianças com vistas às próximas eleições, distribuindo largos sorrisos e muitos tapinhas nas costas. Na face de alguns, a expressão sincera da animação de quem realmente gosta da festa e dos desfiles dos blocos e das escolas, na de outros a mal oculta hipocrisia de quem busca apenas aparecer e ser visto, exibindo o sorriso amarelo de oportunista disfarçado, na esperança de que o seu rosto seja reconhecido na hora de depositar o voto. Em regra são os de sorrisos mais largos e também os que distribuem mais abraços e tapinhas nas costas.

O momento festivo é especialmente propício aos candidatos a Governador de Estado e a Presidente da República, porque são em número reduzido e, deste modo, facilmente identificados no meio da multidão. Estes aproveitam mais os espaços nos palanques carnavalescos, naturalmente são destaques; os candidatos a deputado federal ou estadual não aproveitam tanto, mesmo porque, se fosse considerado o seu número, bem dariam eles para formar um bloco e, por certo, por sambarem fora de ritmo das aspirações populares, perderiam muito mais votos do que ganhariam no dia da votação. Salvo um ou outro são identificados, mas, neste caso, nem precisariam do evento, porque são reconhecidos por sua eficiência no desempenho do mandato. O grosso da galera, entretanto, se situa no meio do anonimato, no bloco dos desconhecidos, outros tentando uma garupa no ombro de alguém poderoso, no conhecido papel de papagaio de pirata.

Enquanto outros candidatos procuram mostrar a sua cara ao eleitorado nas ruas e avenidas, ora fazendo dos camarotes um improvisado palanque, ainda bem que sem direito a discurso, mas com a permissão de proveitosa conversa política de pé do ouvido,anuncia a imprensa que a nossa Presidente, em ostensiva campanha por sua reeleição custeada com o dinheiro arrecadado dos impostos que pagamos, vem descansar, nestes dias de carnaval, na tranquila e acolhedora praia de INEMA, na Base Naval de Aratu, sob a proteção e guarda da Marinha, como tem feito nos últimos anos. Se o descanso é de trabalho, tudo bem, e justa a proteção dispensada, porque a Presidência tem bônus e ônus e a garantia é inerente ao cargo; mas o mais provável é que o seu cansaço seja decorrente dos atos da campanha à suja reeleição, desenvolvida no dia a dia, mal acobertadas pelo manto pálido das atividades de governo, em clara burla à lei eleitoral. Descansando, e isolada na paradisíaca praia, a candidata à reeleição está dispensada da distribuição dos sorrisos forçados e das frequentes reprimendas aos seus auxiliares diretos.

 

* Laécio Sobrinho é advogado

laolsadv@hotmail.com

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