Em campo inseguro e pouco confiável

padrão destaqueNos últimos dias muito se falou sobre o acidente do ex-piloto de Fórmula 1 Michael Schumacher. As versões sobre a causa do acidente e o que levou Schumacher a mudar de pista enquanto esquiava preencheram páginas e mais páginas de jornais. Ele se encontra hospitalizado em estado grave, após sofrer um acidente na estância de esqui de Méribel, nos Alpes Franceses, porque resolveu sair da pista regular e descer por uma área não delimitada, acabando por cair e bater a cabeça em uma pedra. De repente, a notícia de que o piloto havia saído da pista para tentar socorrer a filha de um amigo que teria sofrido uma queda ganhou status de verdade absoluta e transformou o ex-campeão de automobilismo em herói.

Nesta quinta-feira, os jornais brasileiros reproduzem informações de autoridades francesas que investigam o acidente e contam outra versão, com base nas imagens gravadas por uma câmera acoplada ao capacete de Schumaker: ele saiu da pista oficial porque quis, e não há registro de nenhuma outra pessoa na área onde se acidentou.

O episódio mostra o sempre crescente processo de espetacularização da notícia no qual a verdade perde espaço para a versão mais emocionante e que, consequentemente, atrai mais audiência. Isso coloca a mídia em um campo inseguro e pouco confiável.

Não há como ignorar que o episódio revela mais uma vez a fragilidade do sistema da imprensa. A imprensa é refém de suas fontes, em parte porque não tem mais capacidade de investigar fonte por fonte – com suas redações encolhidas e pressionadas pelo tempo de produção ditadas pelas mídias digitais – e em parte, porque também aderiu ao espetáculo midiático. O problema fica ainda mais grave quando pensamos em noticiários políticos. Como acreditar em critérios objetivos da imprensa ao processar os produtos dos marqueteiros? As disputas eleitorais invadiram o cotidiano do jornalismo e se transformaram em pauta permanente.

Estamos em ano eleitoral. Candidatos a presidente, governador, deputado e senador expõem-se na televisão, nos jornais e nas rádios. Seus acertos e erros repercutem intensamente no cotidiano da cidadania. Assistiremos, diariamente, a um show de efeitos especiais produzido para seduzir o grande público. O marketing pode ser transformado em instrumento de mistificação. Os programas eleitorais gratuitos vendem uma bela embalagem, mas, em sua maioria, com conteúdo vazio e pouco confiável. O jornalismo precisa ser o contraponto a essa tendência. Cabe-nos a missão de rasgar a embalagem e desnudar os candidatos. Só o jornalismo sério e responsável é capaz de minorar os efeitos perniciosos de um espetáculo audiovisual que, certamente, não contribui para o fortalecimento de uma democracia verdadeira e amadurecida. Só o jornalismo sério e responsável é capaz de minorar os efeitos perniciosos de um espetáculo audiovisual que, certamente, não contribui para o fortalecimento de uma democracia verdadeira e amadurecida.

Por isso, uma cobertura de qualidade será, antes de mais nada, uma questão de foco. É preciso declarar guerra ao jornalismo declaratório e assumir, efetivamente, a agenda do cidadão. Os jornais podem – e devem – contribuir para o estabelecimento do debate cívico.

O principal papel do jornalista é ouvir a população, conhecer suas queixas, identificar suas carências e cobrar soluções dos candidatos. Não se pode permitir que as assessorias de comunicação dos políticos definam o que deve ou não ser coberto. O centro do debate tem de ser o cidadão, as políticas públicas, não mais o político, tampouco a própria imprensa.

O drama do nosso país não pode ficar refém de slogans populistas e de receitas irrealizáveis. Os candidatos deverão mostrar capacidade de gestão, experiência, ousadia e criatividade. O leitor/eleitor espera uma imprensa combativa, disposta a exercer o seu intransferível dever de denúncia.

Não pode existir democracia vigorosa sem jornalismo independente, plural e diversificado. E o traço comum de todas as sociedades que têm sistemas democráticos consolidados é a existência de uma imprensa local ativa e economicamente saudável. Nós, aqui do nosso canto, vamos tentando fazer a nossa parte.

 

 

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