Eleição baseada no descontentamento

padrão destaqueEncontrei esta semana uma pesquisa que afirmava que, se a Constituição não determinasse a obrigatoriedade do voto, 49% dos eleitores dizem que não teriam comparecido às urnas em 4 de outubro. Como muitos sabem, o percentual de desinteressados em participar da escolha do destino do nosso país é bem alto há muitos anos. Isso não é novidade. No entanto, isso parece cada vez mais claro nesta última eleição. No mês passado, divulgou-se, também, a diminuição do número de pedidos para títulos eleitorais daqueles jovens que poderiam votar mesmo sem ter chegado à maioridade. Se no período pós ditadura, a eleição era motivo de orgulho para meninos e meninas que lutaram pelo direito de eleições diretas, o movimento que os levava a esperar ansiosamente o momento de opinar sobre os destinos da vida pública, parece ter desaparecido. Dados divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral mostram que o total de eleitores entre 16 e 17 anos sofreu redução de mais de 30% em relação ao eleitorado de 2010, última eleição na qual foram escolhidos deputados estaduais, distritais e federais; senadores, governadores, e presidente da República. Em 2010, o número de eleitores jovens que optaram por tirar o título já havia caído em relação a 2006. Só para se ter uma ideia, em 2010 eram 900 mil os jovens com 16 anos aptos a votar e agora, nesta eleição, são 480 mil – 47% menos. O mesmo acontece com os potenciais eleitores de 17 anos: somavam 1,49 milhão em 2010 e, para a eleição deste ano, são 1,15 milhão inscritos – redução de 22%.

Nesta semana comentei aqui na gráfica que esta era uma eleição baseada no descontentamento. Pelas redes sociais e nas conversas com amigos, o que se vê é uma desilusão enorme a tudo que diz respeito à política. Pode ser apenas uma percepção pessoal, mas sinto que seja qual for o resultado divulgado neste domingo, a sensação de desencanto dos eleitores supera os percentuais dos candidatos. A descaracterização ideológica dos partidos, as alianças eleitorais oportunistas e a generalização do marketing político transformaram as eleições num jogo dominado por aqueles que desejam controlar o poder. A representatividade popular foi perdendo densidade com o passar dos anos e hoje transformou-se num slogan vazio.

No caso especifico deste segundo turno, a candidata Dilma Rousseff prometeu continuar o projeto petista, mas esquece-se que isso depende do apoio de uma eclética base aliada de partidos – muitos envolvidos em escândalos de corrupção – interessada apenas em cargos públicos bem remunerados. Aécio Neves prometeu mudança, tentando reviver a mística de Lula em 2002, mas não conseguiu ocultar o fato de que o antipetismo sempre foi a principal mola propulsora de sua candidatura. Para o eleitor, mudança significa novos tempos, novas propostas, novas esperanças. Votar em Aécio, no entanto, para muitos se limita em acabar com a hegemonia do Partido dos Trabalhadores.

A soma destes fatores particulares com o simples e puro desinteresse nas coisas da política resulta em manifestações que levam a uma descrença na figura dos políticos e, portanto, na credibilidade dos candidatos como um todo. Acompanho as manifestações na mídia e de grupos sociais. A maioria se mostra desiludida. Alega a má qualidade e formação dos candidatos (ressalvadas raras exceções), o processo político-partidário brasileiro sem as necessárias reformas, os procedimentos de fraudes e ousada corrupção em governos e no Legislativo. As CPIs, algumas nem se concluem e as que chegam ao término não são executadas.

Assim, burocracia, impunidade, corrupção e até a mais pura incompetência podem somar-se para diminuir o ânimo de insistir no processo de democracia formal. Os cidadãos começam a adotar novas formas de participação que, para eles, podem configurar-se como mais eficientes: em vez de votar, apelam para manifestações e depredações.

É preciso apontar, imediatamente, os problemas que causam esse desânimo e propor uma mudança capaz de salvar a democracia sem adentrar a períodos de radicalismo. A desilusão e o desligamento do eleitor do processo eleitoral são nocivos à solidificação da democracia representativa em nosso país. Democracia, para funcionar, demanda participação de toda a sociedade. E, se as minorias não encontram uma saída nas urnas, podem acabar procurando outra alternativa à margem das instituições, como saques, invasões. Torçamos para que amanhã, seja qual for o resultado nas urnas, o vencedor possa fazer um mandato diferente capaz de fazer os brasileiros acreditarem mais no Brasil e sentirem a necessidade de participar do futuro do seu país.

Isabela Scaldaferri
belscaldaferri@hotmail.com

 

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