Educação se faz com amor e respeito

Sem título-1No último domingo, o Fantástico trouxe uma matéria, no mínimo, polêmica. A reportagem mostrava acampamentos que usavam uma espécie de regime militar para dar um tratamento de choque para crianças indisciplinadas. Na teoria, os dois acampamentos mostrados no programa da Rede Globo, buscam disciplinar crianças que os pais acreditam estarem fora de controle. Na prática, o que vi foi uma série de absurdos: exercícios dolorosos, gritos, ofensas e uma tortura psicológica pesada demais para a estrutura emocional de qualquer criança. A primeira atividade foi nomeada de “choque e pavor”. As crianças choravam de dor enquanto o “sargento” lhes gritava ao pé do ouvido lições de moral vazias. Não, ele não conhecia individualmente o problema das famílias o procuraram. Ele tratava toda e qualquer criança – até mesmo a que chegou lá apenas por “medida preventiva”, segundo a mãe – com muito choque e ainda mais pavor.

Quando eu pensei que o show de bizarrices havia acabado, o programa abriu uma enquete perguntando, entre os telespectadores, quem colocaria o filho em um acampamento como este e, pasmem, 86% disseram que, sim, que se fosse preciso deixariam o filho passar pelas torturas de um sargento linha dura.

Desanima-me ver esse quadro desolador de pais que tem filhos, mas não medem a dimensão ou a consequência disso. Ao se decidir por ter um filho é preciso, desde a gestação, assumir a responsabilidade sobre ele, alegrar-se por cada descoberta dos filhos e não desanimar nos obstáculos. Não dá para pular etapas, não existem atalhos, nem o caminho mais fácil. Ter um filho é responsabilizar-se pela formação de um ser humano e essa é uma tarefa que não pode ser delegada. Quem me conhece mais de perto sabe que sou contra todo e qualquer tipo de violência, principalmente quando as vítimas são crianças. Fui criada em uma família na qual os pais não batiam nos filhos. Poucos primos meus apanharam. Lá em casa, meus pais nunca levantaram a mão nem para mim, nem para meus dois irmãos. Fomos criados através de uma educação rígida, com regras a serem seguidas, mas com base no amor, respeito à individualidade e carinho. Recebíamos colo, beijos e abraços do mesmo jeito que éramos obrigados a seguir determinadas regras em casa. Regras essas que, acredito, meus pais nunca tiveram grandes dificuldades para implantar, pois nunca foram impostas com rispidez. Desde muito cedo, foi-se respeitando o tempo da cada um de nós e fomos nos “entendendo” devagar. Ouso dizer, com a experiência vazia de quem ainda não tem filhos e não viveu as dificuldades da educação, que o método deu certo. O afeto construiu a confiança entre nós e nossos pais. Nunca fomos agressivos, não respondíamos nem gritávamos com adultos – na verdade, isso era impensável lá em casa. Obedecíamos por respeito e não por medo. Entendíamos que estávamos errados e não repetíamos porque sabíamos que deveríamos agir de forma correta, não pelo medo da próxima surra. Atravessamos a adolescência sem traumas nem problemas típicos. Escondíamo-nos no quarto após uma bronca por vergonha e não por raiva. Resultado: tornamo-nos adultos corretos e honrados, que mantém um forte elo familiar firmado no respeito e no amor. Carregamos em nossas vidas os princípios que aprendemos em casa de forma leve, tranquila, sem traumas.

Hoje, vejo meu irmão cuidando do filho ainda pequeno com a mesma serenidade com que fomos tratados. Conversando e explicando a meu sobrinho o certo e errado com paciência, respeitando seu tempo, ouvindo sua opinião ainda pouco elaborada sobre tudo. Tentando conhecê-lo dia após dia para conseguir mostrar a ele o mundo da forma mais leve possível. E, pelo que posso ver de fora, tem dado certo.

É preciso entender que educar é mais do que um diálogo, uma ação, um momento, um fim. É um processo que acontece dentro de casa, mas que engloba, sim, a sociedade. Pretendo criar meu filho sem violência. Se conseguir entregá-lo ao mundo sem atingir-lhe com um tapa sequer, terei alcançado meu objetivo. Se ele, ao construir sua família, também mantiver esse ciclo de respeito, serenidade e amor, aí, então, terei dado a minha singela contribuição para a formação de um mundo mais pacífico e tolerante. Porque a gente só dá o que recebe e só ensina o que aprendeu. A palmada interrompe o comportamento considerado inadequado de forma instantânea, mas a médio e longo prazos não educa. Esse método de ensino faz parte de um círculo vicioso, no qual pais e filhos não estão habituados a dialogar. É um ato incoerente, pois às vezes a criança apanha para aprender que não deve bater. A violência reforça comportamentos agressivos, e os filhos acabam reproduzindo a atitude dos pais batendo nos irmãos ou amigos. Quando partimos para a agressão com uma criança – por menor que seja o tapa – estamos informando a ela que não sabemos lidar com a situação como “gente grande” e por isso temos que recorrer às mesmas armas que ela tem em mãos. Como somos maiores, mais fortes e gritamos mais alto, ganhamos.

Educar, na essência, não é fácil. É trabalho diário, constante e, claro, exaustivo. Mas, se queremos um mundo melhor, precisamos dessa disposição e disponibilidade. Eu faço parte – orgulhosamente – dos 14% dos brasileiros que, em hipótese alguma, levaria o filho para um acampamento daqueles. Eu faço parte do grupo que acredita na possibilidade de formar seres humanos melhores capazes de transformar esse caótico mundo que vivemos em um lugar mais aprazível e harmônico

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