E se não fosse assim?

Não sei com você, caro leitor, mas a mim ocorre, às vezes, ficar meditando na existência de certas coisas e pessoas ou no rumo que a História vai tomando. E se a História é o fazer humano ao longo do tempo, eu gosto desse exercício intricado e contraditório de pensar a não-história. Como se dissesse: E se não fosse assim? e se não fosse aquele fulano que iniciou assim?

Nesta semana não tem como fugirmos à lembrança de um fato marcante na vida do Jornal Dimensão. Em 30 de março de 2003, fazendo uso aqui da expressão de Portelliinha, “ficamos sem o timoneiro-mor”. Exatamente num domingo, Flávio Scaldaferri, Bacharel em Direito por formação, Músico por diversão e Jornalista por puro autodidatismo e paixão, deixava órfão um Projeto que ele fez nascer em 11 de julho de 1971, outro domingo passado há 42 anos. Para fundar o Jornal Dimensão, contou com a parceria de Laécio Sobrinho, Emerson Campos (Tote) e Evandro Andrade, além de Juvino Oliveira, nome sempre presente nos empreendimentos de Itapetinga.

A ousadia foi grande em fazer existir um Jornal impresso, hebdomadário (fica melhor dizer semanal), numa cidade de interior do porte de Itapetinga à época. Ainda mais que o material produzido aqui, conforme obtive nos relatos de Emerson Campos, seguia para uma gráfica em Itabuna toda quarta-feira e voltava impresso na sexta. Não custa lembrar também que era o tempo de austeridade do regime militar, capaz de tolher os anseios de liberdade de expressão, característica marcante nas publicações que contassem com mentes idealistas.

E, se à época muitos jornais e revistas sucumbiram, com o Dimensão não foi diferente. Tanto que o Jornal foi interrompido por algum tempo, mas Flávio, com sua persistência costumeira, voltou a tocar o Dimensão, em junho de 1976. É dele a frase: “Acreditamos no poder da palavra e vamos procurar tornar-nos fortes, para nos constituirmos, aqui, de fato, no quarto poder que a imprensa representa”. Agora não se movia mais pela militância partidária, mas voltava-se para a política, melhor definida aqui como “a arte de governar, o uso do poder para defender os direitos de cidadania” (http://www.artigonal.com).

Viajemos nestes 40 anos de Dimensão, um Jornal construído pelas mãos de seus articulistas, repórteres, revisores, fotógrafos, gráficos, distribuidores, poetas e outros colaboradores. Tudo isto impresso em letras, fotos e gravuras. Servidos em nossas mãos para mergulharmos na História de Itapetinga e região com o olhar de quem escreveu o Jornal. E dessa leitura podermos exercitar a nossa visão política em defesa da cidadania, acima dos interesses que estão postos por este ou aquele segmento partidário, tão comuns nos dias atuais.

Tudo isto tem um agir de Flávio Scaldaferri. Se não fosse assim… seria a não-história de um “não-jornal”.

O Dimensão que renasceu em 1976 passou a ser impresso aqui mesmo em Itapetinga, simbolizando uma emancipação também no processo gráfico. E subsiste em sua tarefa de contar a História que ele mesmo ajuda a construir, com versão Online (publicação disponível através da internet), capa colorida e uma gama de colaboradores que o torna uma publicação eclética. Tudo isto é interessante e mostra que o Jornal acompanha a evolução tecnológica.

Mas o que me importa mesmo é destacar o querer e o agir de Flávio. Sentindo-me à vontade para escrever sobre isto com o distanciamento de quem não o conheceu pessoalmente ou manteve qualquer contato. Apenas sabia quem era de vê-lo ou ler os seus editoriais. Ainda hoje, quando leio o Dimensão, sinto falta de suas idéias na análise dos assuntos em voga, a qualquer tempo (ainda que a linha editorial, por vezes, traz lá umas nuanças como se fosse herança genética no pensar. Vai saber!)

São nove anos de ausência de Flávio, o Jornalista. Mas são 41 anos de presença do Jornal Dimensão, idealizado, realizado e sustentado por ele. Esta história está posta. Você agora pode até perguntar sobre o meu primeiro parágrafo nesse texto. E eu digo: Se não fosse Flávio, caro leitor, você não estaria lendo isto agora. Não haveria Jornal Dimensão. Poderia até haver jornal e até com esse nome, mas com outra trajetória e eu não teria escrito nada disto. Poderia até escrever mas seria outro texto.

Eliene Portella, redatora e um dos pilares da equipe Dimensão foi fonte das minhas informações, enviando-me alguns textos. Destaque para as narrativas de Emerson Campos que conhece em detalhes por fazer parte dos pioneiros, embora a primeira fase do Jornal tenha durado apenas 5 meses. Para Gabriel Campos (sobrinho de Emerson Campos): “Mais do que fundar e fazer funcionar um jornal por trinta e cinco anos, Flávio expressou a liberdade, informando e formando seus leitores com ética, qualidade e paixão”.

E pensar que a aparente loucura que era fazer um jornal semanal em Itapetinga, lá pelos anos 70, mantém-se firme e tem você, leitor, como parte da história de um Jornal que “Veio para ficar”, vaticínio dado por Laécio Sobrinho, no dia do lançamento.

 

* Nilton Cirqueira é Pedagogo, fotógrafo e atualmente cursa História

 

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