E o mundo não acabou

kaluNa semana passada mudei de assunto deixando de escrever aqui neste espaço sobre a Copa das Copas, que estamos chegando à reta final. O fato é que fui obrigado a dar a mão à palmatória e retomar o tema, em função de um diálogo que aconteceu comigo, com um representante de laboratório, em meu consultório médico. Educação a gente herda mesmo é de berço, nos restando praticá-la e aprimorá-la através de um convívio salutar e respeitoso com os nossos semelhantes. Recebemos com freqüência a visita desses profissionais e ao recebê-los ouvimos com atenção seu recado, bem como a devida divulgação dos seus produtos. E é neste papo informal que trocamos ideias. Após a visita nos despedimos. Por estarmos em ritmo de Copa lhe desejei um bom jogo, na esperança de que pudéssemos sair vitoriosos com um bom resultado nesta penúltima etapa. Ele sem titubear disse-me que iria torcer pela Alemanha, pois se o Brasil ganhasse seria um caos. Fiquei assustado e sem querer acreditar no que acabara de ouvir. Como havia assistido na noite anterior um documentário sobre a Copa do Mundo de 1958, na Suécia, em que o Brasil sagrou-se campeão, batendo o time adversário por 5 x 2, com euforia e garra e cuja seleção era composta por: Gilmar, Pelé, Garrincha (o anjo das pernas tortas e o maior jogador de futebol de todos os tempos), Nilton Santos, Zito, Bellini, Djalma Santos, Zagalo, Vavá, Didi e Orlando, fui obrigado a discordar dele. Perguntei-lhe se estava passando por alguma dificuldade financeira, se estava desempregado, com algum problema de saúde, ou se nos últimos dez anos a vida havia piorado para ele. Fui um pouco mais longe perguntando se sua família estava desamparada. Nada disso estava acontecendo com ele. Disse-lhe mais, que naquela época da Copa da Suécia eu tinha apenas 8 anos de idade e o jogo era transmitido apenas através do rádio. Quando a Suécia fez o primeiro gol aos quatro minutos da partida, parecia que o mundo havia desabado sobre nós e que os deuses haviam nos abandonado. Mesmo com um gramado encharcado por tanta chuva que caía lá na terra dos suecos, nossos craques deram a volta por cima com um show de futebol, mostrando ao mundo o talento, a alegria e a raça da seleção brasileira, empatando e ganhando o jogo com dois gols de Pelé, dois de Vavá e um de Zagalo. Foi um documentário que assisti em preto e branco e mesmo assim deu para sentir a emoção dos jogadores e da população como um todo, com a vitória num momento inédito de júbilo e alegria. Estávamos no governo do presidente Juscelino Kubitschek. Quando Pelé fez um gol magistral, a Suécia foi obrigada a cair aos seus pés e reconhecer que aquela geração estava ali para ganhar e mostrar ao mundo que éramos muito mais capazes, apesar de tanta adversidade. No final já sagrados campeões, os comentários foram unânimes quanto a qualidade da seleção brasileira. Jornalistas, comentaristas, jogadores adversários não pouparam elogios à nossa seleção. Pelé e Garrincha viraram nossos ídolos, seguidos de todos aqueles gigantes da Copa. No momento do gol o jogador é abraçado por todo o grupo, simbolizando a união. É como se quisessem abraçar o Brasil inteiro. Disse-lhe que ganhamos muitas copas e perdemos outras. Mas o momento é de festa e de união entre os povos, como é a Copa do Mundo, com cada vencedor na devida proporção e merecimento. A melhor seleção em campo deverá galgar o posto mais alto. Não podemos é considerar que somos sempre os melhores do mundo. O futebol está evoluindo no mundo inteiro. Agora, aproveitar para tirar a alegria do povo, numa sanha de raiva e ódio como temos visto em boa (?) parcela da mídia, é imperdoável. Qual será o real motivo de disseminar tanto ódio e desejar o quanto pior, melhor?

Após ouvir meus argumentos o representante terminou dando-me razão, dizendo que eu realmente o havia convencido. Respondi que ele é que havia se convencido e que talvez, por algum momento de infelicidade tenha sido contaminado pela sanha da mídia raivosa. Lhe pedi que no dia de jogo em que a nossa seleção estivesse presente, vestisse a camisa verde e amarela e torcesse pelo Brasil. Resultado de jogo de futebol é sempre uma surpresa e haverá de vencer o melhor. No final, sendo ou não campeões a vida continua e nos resta pedir a Deus que continue iluminando nossos passos, nos conduzindo a um mundo mais fraterno e generoso e aguardar a próxima Copa de 2018. Como diz o velho ditado: ‘‘Depois da tempestade vem sempre a bonança’’. Menos para aqueles que semeiam o vento, pois só irão colher tempestade.

 

Carlos Amorim Dutra

e-mail: carloskdutra@gmail.com

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