DOM FONTINELLI…

domVítima de um enfarte fulminante, morreu na madrugada desta terça-feira, em sua residência, o cantor, compositor e fotógrafo Manoel Luis de Souza – Dom Fontinelli, 56 anos. Seu corpo foi encontrado por um dos filhos, na sala de seu apartamento. O SAMU ainda tentou reanimar o cantor, mas sem êxito.Levado para o Cerimonial Pax Perfeição, Dom Fontinelli foi velado por um grande número de fãs, amigos, artistas e familiares, antes de o corpo ser transladado para ser sepultado na cidade de Campo Formoso, onde moram seus pais.

 

Dom Fontinelli estava em Itapetinga desde agosto de 1990, tendo vindo trabalhar como inspetor federal da Leite Glória do Nordeste (hoje Valedourado). Compositor, resolve se enveredar pelo mundo da música e chegou a ter algumas de suas composições gravadas por nomes famosos como Adelmário Coelho, Targino Gondim, Gilberto Gil e outros. Dom Fontinelli – que também já se chamou Dom Paraíba, tinha um grande sonho: o de viver da música. Ele falou sobre o assunto ao Dimensão, em uma matéria publicada em junho de 2006, que voltamos a reproduzir em forma de homenagem ao cantador.

 

DOM FONTINELLI: “MEU SONHO É VIVER DA MÚSICA”

 

Manoel Luis de Souza nasceu em Campo Formoso-Ba. Aos 19 anos saiu de sua terra natal e passou 10 anos em Senhor do Bonfim, cinco anos em Riachão do Jacuípe, seis meses em Jacobina, Feira de Santana e Jequié. Em 13 de agosto de 1990 chegou em Itapetinga como Inspetor Federal da Leite Glória do Nordeste. O tempo foi passando, ele foi ficando, gostou da cidade e, hoje, considera-se itapetinguense de coração. Segundo ele, em Campo Formoso ele é um “estranho no ninho” e aqui todo mundo o conhece.

Durante sete anos trabalhou na inspeção e dedicou-se ao trabalho com fotografias e filmagens. O emprego Federal já não o satisfazia. Era enfadonho. Manoel Luis veio a Itapetinga trabalhar com laticínios, mas há tempos estava no frigorífico, emprego que não gostava. Manoel começou a buscar uma saída. Um dia encontrou Mazinho Sanfoneiro, a quem vendia fitas de consagrados cantores de forró. No meio da conversa, perguntou quanto o forrozeiro ganhava por show.

A quantia o impressionou. Estava decidido: era isso que queria fazer de sua vida. “Cheguei em casa e falei que queria ser cantor. Todo mundo disse: ‘Está doido, amarra, bota numa camisa de força. O homem endoidou! Nunca cantou coisa nenhuma e agora inventa de querer viver de música’. Mas disse que ia ser cantor e ninguém tirou isso da minha cabeça”. Foi então que surgiu o Dom Paraíba, hoje, Dom Fontinelli.

Nos dias seguintes procurou grandes cantores que pudessem fazer músicas para ele gravar. A procura foi em vão. Depois de algum tempo sem conseguir êxito, Dom compôs, em 1997, “Cidadão Comum”. A música fez um sucesso surpreendente e foi gravada por mais de dez grandes forrozeiros. Entre eles: Flávio José, Gilberto Gil, Aldemário Coelho, Estakazero, Cangaia de Jegue, Forró do Caruá e Targino Gondim.

Sua primeira apresentação foi em uma festa na Leite Glória, levou cinco músicos para acompanhá-lo. Ao final do show, após pagar som e músicos, restou a Dom apenas R$ 30,00 do cachê de R$ 200,00. O cantor levou para casa, no entanto, R$ 20,00, porque precisou pagar, ainda, o táxi que levaria os músicos para casa. “Gravei esse show na Leite Glória. Quando ouvi pensei que tinha chances e que não era tão ruim”.

Mais tarde, Dom Fontinelli foi fazer a filmagem de um São João em Itororó. Lá encontrou o cantor Targino Gondim, a quem perguntou o que devia fazer para gravar um disco. Targino lhe deu o endereço do músico e produtor Duda da Passira. Logo em seguida, Dom ligou para Duda, marcou um encontro para 25 de agosto de 1997. Ele tinha pouco mais de dois meses para preparar o repertório. Conseguiu aprontar 95% do que precisava.

Na viagem que fez para encontrar o produtor, terminou ainda um arrasta-pé chamado “Coração já não agüenta”. O disco foi tocado pela primeira vez em Itapetinga pelo radialista Edilson Lima. “Ele não saiu exatamente como queria, porque não entendia muita coisa sobre música. Empostei muito a voz, não tinha noção de tom”, confessa.

O lançamento do cd foi feito no Itapetinga Tênis Clube, em 01 de março de 1998. “Tenho prazer de dizer que sou um recordista de público. Ninguém conseguiu colocar aproximadamente três mil pessoas no ITC como eu fiz. Acredito que muitos foram ali para me vaiar, mas como eu vim acompanhado de uma banda muito boa, composta por Duda da Passira e Cia, acabaram não vaiando. Achei graça quando um camarada gritou ‘canta logo, corno’. Na brincadeira respondi que não sabia que a mulher dele estava me traindo. O cara queria me bater no palco. Mas, no final, tudo correu bem”.

Nas idas e vindas da vida, separou-se da mulher e partiu para o seu segundo disco com o título “Sem um porto, sem um cais”, mesmo título da música que foi uma das mais tocadas. Passou um bom tempo correndo o país tentando divulgar seu trabalho e consagrar-se como cantor.

Voltou a Itapetinga e começou a produzir seu terceiro CD, “Cadê o homem”, mas não pôde ser lançado na época certa.

No final de maio, o cunhado de Dom faleceu em um acidente automobilístico. O cantor ficou impossibilitado de lançar, em junho, o novo trabalho. “Achei o forró um ritmo ingrato porque só tocava em um período do ano. Pensei em mudar. Voltei para o estúdio e gravei um disco brega-romântico chamado “Cosmopolita”. Aí sim, minha música começou a ser tocada em todo canto. Duas delas, em destaque: a “Corpo do Pecado” e “Ter asas para voar”. Inicialmente, deu certo.

Fiz um show lá na Avenida Itarantim, em frente à pizzaria Fino’s e marquei muitos outros para as cidades da região. Mas não tive sorte. Sempre chovia e o povo daqui é igual a bode, não sai em dia de chuva por nada! Passei quatro festas no prejuízo. Tirei dinheiro do bolso para pagar os músicos. Se tem uma coisa que posso me vangloriar é o fato de ter conseguido pagar todos os meus músicos” – conta Dom, com orgulho.

Sem dinheiro e com pouca esperança, Dom Fontinelli passou um ano sem gravar. Em casa, passava os dias tentando arranjar um jeito de ganhar dinheiro. Um dia veio a idéia de tirar umas fotografias aéreas da cidade. Vendeu as fotos para grandes empresas e, principalmente, para a prefeitura. Conseguiu um bom dinheiro com isso e resolveu voltar a batalhar para realizar o sonho de ser cantor.

Gravou “Asas da Paixão”, segundo o cantor, um disco muito bom que só não emplacou por falta de divulgação. “Nada parecia dar certo. Mas, como não sou de desistir fácil, voltei novamente para o estúdio e gravei ´Amor Adolescente´, música que fiz assim que entrei na faculdade e arranjei uma namorada nova, mas o disco não emplacou”.

Dom Fontinelli, volta, então, a cantar forró. Hoje trabalha com seu sexto cd, com o nome “Orgulhosamente Nordestino”. Nesse, Dom conta com a participação especial de Flávio José. O cd vem com toda a pompa de sucesso. O cantor já tem muitos shows agendados no Recôncavo, em Senhor do Bonfim, Campo Formoso, Andorinhas e muitos outros municípios.

“Há nove anos vinha tentando tocar em minha terra, mas parecia que eu tinha um terrorista como opositor que me atrapalhava sempre. Este ano já toquei lá. No último dia 13, fiz o show de abertura para a banda Calcinha Preta. Foi o maior público para o qual toquei em toda a minha vida! Fiz um show fantástico!”

Entusiasmado com as portas do sucesso que começaram a se abrir, Dom Fontinelli acredita que, a partir do ano que vem ele conseguirá viver da música. Fontinelli se apresentou no Arraiá do Catolé, no Parque Poliesportivo da Lagoa, no dia 22, fazendo a abertura do show da banda Aviões do Forró.

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Um comentário para “DOM FONTINELLI…”

  1. PIERRE ALEXSSANDRE
    26 de março de 2013 às 14:51 #

    perdemos um grande cantor,que deus o tenha.

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