Dia do Médico

O amigo e colega Dr. Luis Carlos Faleiro telefonou-me na noite do último domingo para saber se havia preparado algum texto para o Dimensão desta semana, imaginando que eu tivesse sempre algo pronto para ser publicado. Disse-lhe que por vezes acontecia ter um ou dois artigos prontos, mais era coisa rara. Normalmente os temas vão surgindo de acordo com meu dia a dia. Pode ser através de uma simples palavra que ouço, de algo interessante que assisto em algum programa de TV, a exemplo de um vídeo sobre o poeta Carlos Drumond de Andrade ou de outros escritores, e até mesmo velhas lembranças da infância. De fato queria que eu abordasse algo sobre o dia 18 de outubro, dia do médico, cuja data foi comemorada com um belo jantar de confraternização no Coroas Country Clube, ao som da belíssima voz de Juá da Bahia, que nos proporcionou uma noite agradabilíssima. Além das homenagens que são prestadas nesses encontros, foi feita uma retrospectiva dos médicos que aqui atuaram e que nos deixaram, ficando a cargo do Dr. José Otávio Curvelo, Dr. Marcelo Pinto e do próprio Faleiro, fazerem um breve histórico sobre a vida de cada um. Foram lembrados os nomes de alguns colegas:

Dr. Joselito Oliveira, Dr. Luis Jacy Diniz, Dr. José Alves Sobrinho, Dr. Agnaldo Aguiar, Dr. Idalécio Andrade, Dr. Settímio Orrico, Dr. Jolimar Perdigão, Dr. José Iracildo Franca e Dr. Antonio Souza, contemplando também Dr. Lúcio Borba, que apesar de não ter sido médico, transitava com desenvoltura no meio médico. Dr. José Otávio Curvelo enalteceu a profissão médica e a necessidade de mantê-la viva e exercida com ética, competência e profissionalismo, pois sem esses pilares a medicina perde sua verdadeira função. A reunião organizada pela Delegacia Regional do Cremeb, tendo à frente o Delegado Regional, Dr. Luis Carlos Faleiro, contou com a participação de mais de 70% dos profissionais médicos de Itapetinga, o que representa um número significativo. Parabéns ao Dr. Faleiro e equipe por mais esta vitória. É importante que a classe médica mantenha-se unida e fortalecida não apenas nesses momentos de confraternização, para que possamos dar nossa parcela de contribuição visando uma assistência médica de qualidade à população. Os médicos precisam urgentemente retornar aos hospitais, postos de saúde e aos consultórios, seus verdadeiros locais de trabalho, evitando constantes aparições em rádios e na mídia em geral. A medicina precisa ser exercida de forma mais humana para que a classe médica possa retornar ao seio da sociedade e gozar da confiança e do prestígio de outrora, evitando constantes matérias divulgadas na mídia, denegrindo a imagem de toda a classe. Sabemos que em toda profissão há bons e maus profissionais, mas como é citado na Bíblia, é preciso separar o joio do trigo. Trilhando por este raciocínio, selecionei dois textos que foram lidos por mim durante nosso encontro e que faço questão de transcrevê-los, por serem tão atuais. Foram retirados do livro: “A arte perdida de curar”, escrito pelo Dr. Bernard Lown, professor emérito de cardiologia da Escola de Saúde Pública de Harvard, que em 1985, recebeu o prêmio Nobel da Paz. Na apresentação do livro, Dr. Roberto S. Zeballos, Clínico geral, doutor e mestre em Imunologia pela UNESP, escreveu:

“Nesta virada de milênio a medicina apresenta progressos tecnológicos espetaculares no diagnóstico e tratamento das mais variadas doenças. Apesar de todos esses avanços, nunca o doente foi tão esquecido. Nunca foram solicitados tantos exames desnecessários, o que aumenta a ansiedade e a insegurança do paciente. Nunca a falta de diálogo e atenção foi tão evidente como a que se observa hoje. Enfim, o paciente nunca esteve tão insatisfeito e desapontado com a época atual. Isso se deve ao fato de que a medicina, talvez a mais nobre das profissões, ou das «missões”, vem se esquecendo cada vez mais da relação médico-paciente. O médico está desaprendendo a arte de curar… Esqueceu-se de que uma boa relação médico-paciente, uma relação mais humana, é tão importante e tem tanto poder de cura quanto os mais sofisticados métodos de diagnóstico e tratamento.”

Há também a citação de um pequeno texto do ensaísta Anatole Broyard, que às vésperas da morte, vitimado pelo câncer da próstata, escreveu:

“Eu não tomaria muito tempo do meu médico. Desejaria apenas que matutasse sobre minha situação talvez uns cinco minutos, que por vez me franqueasse a mente por inteiro, que por um breve tempo se vinculasse comigo, esquadrinhando a alma tão bem como o meu corpo, para então entender o meu mal, pois no diagnóstico e no tratamento cada indivíduo adoece à sua maneira… Assim como me pede exames do sangue e dos ossos de meu corpo, desejaria que meu médico me examinasse considerando o meu espírito tanto quanto a minha próstata. Sem um reconhecimento desses, não sou mais que uma doença.”

 

Antes de encerrar este artigo, recebi E-mail do mano Rui Dutra, médico oftalmologista, residindo atualmente em Brasília, que serviu para complementar o texto”.

 

“Carta da Medicina para um médico:

 

Eu não tenho resposta para tudo. Se me perguntarem como você poderia me perdoar pelo tanto que exigi e continuo exigindo de você, eu não saberia responder. Mesmo assim eu gostaria de aproveitar para lhe pedir perdão. Perdão por tirar tantas horas da sua juventude, absorvendo você com intermináveis páginas dos meus livros. Perdão por lhe tomar tantas noites de descanso, embalando você em exaustivos plantões. Perdão pelos momentos de diversão que você abriu mão por me levar tão a sério. Perdão à sua família. Disputar comigo não é fácil. E a compreensão dessas pessoas que estão ao seu lado pode ensinar muito sobre esse sentimento chamado AMOR. E muitas vezes ter que assistir você enfrentar sozinho esse nosso inimigo implacável: a DOR. Como poderia agradecer a vida que você dedicou a mim? Eu não sei. Eu não tenho resposta para tudo. Mas, se me perguntarem qual é o meu motivo de orgulho, eu tenho a resposta: É VOCÊ.

 

Sinceramente,

 

MEDICINA”.

 

É este o verdadeiro caminho da profissão médica.

Aqui um belo poema de Mário Quintana, dedicado aos colegas médicos, para que pensem na profissão com amor e carinho, mas não esqueçam de viver. O lazer, a família e os amigos também fazem parte da nossa vida.

 

“A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.

Quando se vê, já são seis horas.

Quando se vê, já é sexta-feira.

Quando se vê, já terminou o ano.

Quando se vê, perdemos o amor da nossa vida.

Quando se vê, já passaram-se 50 anos.

Agora é tarde demais para ser reprovado.

Se me fosse dado, um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.

Seguiria sempre em frente e iria jogando, pelo caminho, a casca dourada e inútil das horas.

Desta forma, eu digo: Não deixe de fazer algo que gosta, devido à falta de tempo, pois a única falta que terá, será deste tempo que infelizmente não voltará mais.

Nesta longa e árdua estrada da Medicina, ainda há muito o que se aprender.

 

 

* Carlos Amorim Dutra é médico Cardiologista, médico do Trabalho e músico

e-mail: carloskdutra@gmail.com

 

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