Delícia!

O exercício da profissão médica toma mais tempo do que a gente imagina, não só no que se refere às atividades em si, mas também na dedicação à leitura e atualização científica. Isto sem falar na participação de congressos e cursos que requer além de tempo, despesas extras. É certo que nem todos seguem esta linha. Mas, o amigo e colega Adolfo Leite, cientista da medicina e um dos mais dedicados nesta seara, está aí de prova e não me deixa mentir. Conciliar tal atividade com o lazer, o tempo para a família e os amigos, fazendo com que a vida se torne mais amena, não é lá tarefa nada fácil. Mesmo sabendo que as doenças cárdio-vasculares estão aí, não perdoa ninguém e chegam muito antes que a gente espera, nem todo mundo está livre. Algum espírito de porco pode até contradizer-me e achar que eu não tenho nada que ficar me intrometendo com a vida alheia e que o melhor que eu faço é cuidar da minha vida e deixar cada um seguir a sua. Quem quiser ficar e continuar com seu azedume, que siga em frente. Da minha parte, já passando um pouco do seis ponto zero, vou tocando a vida como posso e Deus é servido, como dizia a velha Sinhá Ana, moradora do antigo Cachorro Assado, hoje Vila Isabel e que Deus a tenha em sua infinita bondade.

O fato é que andei ultimamente descambando a reler livros de Fernando Sabino, João Ubaldo Ribeiro e Carlos Drummond de Andrade, apenas para citar três, deliciando-me com as crônicas que escreveram maravilhosamente durante muitos anos, em jornais e revistas. Nos nossos dias a variedade e a quantidade de livros que são publicados ano após ano chega até assustar. Não dá sequer para acompanhar tanta novidade e diversidade. É certo que tem alguns que não dão nem pro sal, não fazendo qualquer diferença. Para não ficar chovendo no molhado, sem saber se tal livro é bom ou não e ficar à mercê do disse e me disse de alguns críticos ou da seleção não muito criteriosa de algumas revistas, vou ficando aqui no meu cantinho com meus escritores prediletos. E olhem que os brasileiros não devem nada a ninguém neste vasto mundo da literatura. Já disse que não aprecio livros de auto-ajuda. Escritores badalados como Paulo Coelho, nunca li nada e também não gostei. A maneira como nossos cronistas maiores criam e escrevem suas crônicas, é de dar água na boca. A palavra delícia é usada para expressar satisfação e prazer ao degustar algo. Por exemplo: – Este bolo de aipim está uma delícia! Ou até mesmo para elogiar um simples cafezinho, de preferência quente e feito na hora. Mas, a gente acaba roubando tal palavra para dizer que uma crônica que lemos foi uma delícia. Tem até cantor na praça fazendo muito sucesso com a canção: – Ai, delícia! Assim você me mata… Realmente, tem gosto pra tudo. E, haja paciência. Já vi que tenho que contentar-me com textos mais curtos. Começo fazendo um breve rascunho em uma folha de papel A4 e escrita a lápis, do que pretendo enviar para o jornal, chegando a encher os dois lados da folha. Quando vou transpor para o computador, não dá nem meia página. Procuro aumentar um pouquinho a fonte da letra para ganhar mais espaço e mesmo assim sempre fica faltando algo. Aí, não adianta ficar inventando ou enchendo linguiça para completar o espaço que leitor não tem nada de besta e deve ser respeitado. Quando a gente encontra alguma citação de outro escritor que nos ajuda a complementar o texto, aí é sopa no mel. Mas, como tudo tem limites, utilizar tal recurso sempre, fica logo manjado. O bom mesmo é dar logo um ponto final, dando o assunto como encerrado para não deixar o leitor chateado.

E é isto que vou fazer agora, sem mais delongas.

 

 

* Carlos Amorim Dutra (Kalú) é médico Cardiologista, médico do Trabalho e músico

e-mail:carloskdutra@gmail.com

 

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