De volta ao batente

Há pessoas que a gente leva um tempão sem ver e começa então a indagar: Que fim levou fulano? Escafedeu-se. Tomou chá de sumiço. Caiu na lapa do mundo. Evaporou-se. Quando você menos espera, o sujeito surge na sua frente e você leva aquele baita susto e diz: Quem é vivo, sempre aparece. Bons ventos o traga. Apareceu a Margarida. Isto quando há uma certa amizade ou afinidade entre as pessoas. Se for alguém mal visto a coisa muda logo de figura ou de tom e a conversa é outra bem diferente. O comum é dizer: Vaso ruim não quebra. Perdi o meu dia. Quanto mais eu rezo, mais assombração me aparece. Mas o certo é que uma prosa sempre puxa outra. Deixando de lado o futebol, que é o único assunto que a maioria dos homens costumam discutir, a boa prosa tá ficando escassa. Discutir política com quem não entende ou pensa que entende, é um tiro no saco. Religião então, nem se fala. Há uma legião de pessoas tiradas a catequizadoras que se Deus não tiver pena, vai endoidar mais cedo do que se imagina. Eu, cá pra mim, não tenho lá muita paciência com esse tipo de conversa pra boi dormir. Usa-se muito o nome de Deus, em vão. Ninguém costuma dar nada de graça a ninguém. De graça, nem injeção na testa. Como costumava dizer meu saudoso pai: De graça Deus fez o mundo, pra receber defunto.

A fé e a conotação religiosa é bem diferente quando perguntado a um nordestino de verdade, que trabalha de sol a sol, como ele está passando. A resposta é precisa e sincera: Vou indo bem, com as graças de Deus. Se for de forma modesta: Vou indo, como Deus é servido. Mesmo levando a vida com dificuldade, nunca perde a esperança: Vou assim, pelejando. É o oposto da conversa entre os mais abastados. Uns respondem que está mais ou menos, outros que vão levando. O certo é que nunca estão satisfeitos com o que tem. Se tem muito sol, reclamam do calor. Se a chuva é abundante, dizem que já está na hora de dar uma trégua. Se não chove, é Deus o culpado. Isto quando a culpa não cai nas costas de São Pedro, que nada tem a ver com o peixe.

Controlada a inflação o tema perdeu o interesse e as lamúrias e lamentações foram deixadas de lado. Mas, há também o perfil do otimista e engraçado que tem sempre a resposta na ponta da língua, quando é inquerido sobre o estado de saúde ou o bem estar. Saca logo da manga a resposta pronta: Melhor do que aqui? Estraga! É bom viver com otimismo. O otimismo revigora as pessoas e estimula a irem à luta. Lamentar, baixar a cabeça, viver a vida com queixume não vai levar ninguém pra frente e a lugar algum. Gozador é aquele que leva a vida na brincadeira, sem maldade, quando diz que o que leva homem pra frente é chifre, e para trás, rapariga por conta. Desta filosofia eu não entendo patavina nenhuma.

Envolvido com outras atividades fui deixando um pouco de lado a escrita e sempre cobrado pelos leitores. Aí, bate aquele estalo e me ponho em frente à tela do computador deixando brotar alguma ideia. Quando menos espero, está pronta mais uma história. Não encaro como cobrança quando algum leitor me pergunta se eu deixei de escrever no Dimensão. Me desculpo de alguma forma e fico à espera de que surja inspiração para algo proveitoso e agradável ao leitor. É como a cobra que fica esperando para dar o bote na hora certa. Só que daqui não sai veneno. Esta semana li uma crônica na Revista Carta Capital, que coloquei no meu blog, cujo assunto eu já abordei neste espaço, falando sobre os nomes mais estranhos que as famílias colocam nos filhos. Quem quiser conferir é só acessar: www.blogdokalu.com.br

Acho que já está de bom tamanho o artigo da semana. Um domingo azul para todos.

 

* Carlos Amorim Dutra (Kalú) é médico cardiologista, médico do trabalho e músico

e-mail: carloskdutra@gmail.com

 

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