Crise no leite: Valedourado não paga fornecedores há mais de 3 meses.

Produtores de leite de Itapetinga estiveram reunidos na segunda-feira com diretores do Sindicato Rural de Itapetinga para solicitar apoio. Eles estão sem receber o pagamento do leite que entregam à Valedourado desde o mês de dezembro de 2011. Segundo um dos diretores do SRI, Adriano Alcântara, a instituição assumiu esse compromisso junto com os produtores que estão envolvidos nessa situação e na terça-feira conseguiram uma reunião na Valedourado com o diretor da empresa em Itapetinga, estando presentes ainda a diretoria do Sindicato, um representante da Coopardo e os produtores que quiseram participar.

“Fomos recebidos pelo diretor Carlos Henrique, expomos a situação dos produtores, ouvimos as explicações deles e o nosso objetivo nesse primeiro momento era pelo menos receber um cronograma de pagamento dos atrasados e que isto nos fosse entregue por escrito, pois como dissemos na reunião, a empresa não está com credibilidade junto à classe. Também esclarecemos que anunciaríamos esse compromisso publicamente, o que poderia até ser bom para a imagem da empresa junto à própria comunidade” – disse Alcântara.

A Valedourado se tornou uma devedora contumaz dos produtores rurais, há muito tempo vem atrasando os pagamentos do recebimento de leite e de dezembro pra cá, a empresa sustou os pagamentos. Na reunião, o diretor da fabricante de leite em pó e bebidas lácteas apresentou aos produtores presentes e aos representantes do Sindicato Rural, elementos para justificar a razão do atraso de quase quatro meses de pagamento que não convenceram aos presentes: dificuldades de mercado, empresas concorrentes praticando preço abaixo de mercado, problemas com empréstimos e linhas de crédito, entre outros. Justificativas que a princípio não convencem o produtor, uma vez que a fábrica continua a sua produção a pleno vapor, com carretas no pátio sendo carregadas para transporte de produtos fabricados aqui, o que pode ser constatado pela comissão que esteve na fábrica esta semana.

Quanto à decisão de suspender o fornecimento temporariamente para a Valedourado a fim de não aumentar a dívida, os fornecedores ficam no impasse, uma vez que a outra indústria que poderia absorver a demanda, também é fornecedora de leite para a Valedourado. “Na realidade nós não temos indústria aqui para absorver a produção da matéria prima toda e o produtor também não pode jogar o seu leite no ralo”, explica Adriano.

“Nós continuamos fornecendo o leite para a fábrica e estas justificativas apresentadas pelo senhor diretor não nos convenceram de que estaria aí o problema de falta de caixa para honrar os compromissos com a classe”, disse o pecuarista e advogado Thiago Nolasco Andrade, que também esteve na reunião. Na opinião do jovem produtor, “a Valedourado precisa olhar com mais apreço para esta região que muito tem colaborado para o seu crescimento e infelizmente esta recíproca não tem sido verdadeira. Estive lendo esta semana uma revista onde pude notar que os fornecedores de leite à matriz da Valedourado em Alagoas recebem inclusive assistência técnica por parte da empresa, o que aqui para nós não acontece, apesar de constar na propaganda enganosa que vimos do site deles”, completou.

 

Preocupação

O pecuarista e presidente da Coopardo, Rômulo Coelho, também mostrou preocupação com a situação que está prejudicando não apenas os fornecedores de leite, mas também a todo o comércio da cidade. “Infelizmente é triste chegarmos a esta constatação, mas virou uma bola de neve. Se a empresa não paga o produtor, este também não pode cumprir os seus compromissos com a própria cooperativa onde compra insumos e medicamentos, bem como ficará em falta com o comércio em geral. Quem mais sofre nessa hora é o pequeno produtor, que depende da venda de seu leite para honrar os compromissos com seus empregados e até mesmo com a própria família, faltando às vezes até o dinheiro da feira”, disse Rômulo Coelho, recordando-se saudosamente dos bons tempos da Leite Glória em Itapetinga, empresa que tratava seus fornecedores “como verdadeiros parceiros. Nos prestava assistência técnica, estavam sempre dispostos a nos socorrer em uma emergência, enfim, havia um comprometimento, uma identificação e infelizmente hoje nos encontramos numa situação de vermos a classe praticamente humilhada, sem receber o produto que entrega e sem também ter como honrar seus compromissos”.

 

Importância da ação do Sindicato

Billy Grahn Almeida, que também é pecuarista e esteve presente na reunião da Valedourado, disse acreditar que a intervenção do Sindicato Rural como representante da classe vá surtir o efeito desejado. “Toda vez que uma classe se une em busca de seus objetivos, se fortalece. Os produtores rurais têm um órgão representativo forte e acredito que esta união vai facilitar as negociações com a Valedourado”, frisou Billy, que também se diz perplexo com a falta de jogo de cintura da direção da empresa em buscar resolver as pendências com os fornecedores de leite da região. “Eles sabem que quem entrega leite depende deste dinheiro para manter sua propriedade, para arcar com seus compromissos, para sobreviver. As justificativas do diretor não nos convence e queremos uma solução urgente para esta situação”.

O empenho dos diretores Henrique Brugni, Adriano Alcântara e Marcelo Ferraz, do Sindicato Rural, em prol da resolução deste dilema que afeta nesse momento os produtores rurais, marca mais uma ação efetiva não apenas em favor da classe ruralista, mas de toda a comunidade, pois se trata de um assunto que interfere em vários setores, que não conseguem entender como uma empresa como a Valedourado, presente na Bahia há mais de 10 anos, não tem uma reserva orçamentária para momentos de dificuldades no mercado como é alegado pelo diretor de Itapetinga. “Se o mercado se tornou difícil a empresa precisa aprender a sobreviver no mercado. Agora o que ela não pode é transferir para o pobre do produtor esse ônus de suportar a dificuldade que tinha que ser da empresa e não do produtor. Eles alegam que estão tentando linha de financiamento para liquidar os compromissos e não se entende é como uma empresa dessa não tem uma reserva de capital para poder honrar os compromissos dela com os produtores, que a mantém funcionando. Isso sacrifica não só a vida pessoal do produtor, a do vaqueiro, do roçador de manga, da comunidade como um todo, enfim, uma verdadeira bola de neve”, comentou Adriano.

 

O cronograma de pagamento

O cronograma de pagamento dos valores em atraso, que foi solicitado pelo Sindicato Rural à Valedourado, foi prometido para ser entregue até ontem, sexta-feira, 16. Entretanto até o fechamento desta edição não tinha sido enviado pela empresa. Isso deixa todos os produtores em situação ainda mais comprometedora, pois sequer podem fazer uma previsão de receitas para poder honrar seus compromissos. O Sindicato Rural de Itapetinga, segundo informa sua diretoria, promoverá na próxima semana novas reuniões com a classe produtora para discutir outras medidas a serem adotadas, inclusive, se necessário, disponibilizará assessoria jurídica para aqueles que necessitem cobrar judicialmente seus créditos. Todavia, também conforme diz a diretoria, todos ainda alimentam esperança de que a situação se resolva pela via amigável, o que seria benéfico a todos aqueles direta ou indiretamente interessados.

 

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