Confinada com nordestinos

Mayara Penteado Petruso foi condenada a 1 ano, 5 meses e 15 dias de prisão pelo crime de racismo contra os nordestinos. A ofensa da estudante que gerou a punição foi cometida pelo Twitter no dia 31 de outubro de 2010, logo após a vitória eleitoral da petista Dilma Rousseff sobre o tucano José Serra. A garota acreditava que a eleição de Dilma foi propiciada pelos nordestinos, que, segundo ela, “não sabem votar”. “Nordestino não é gente. Faça um favor a Sp: mate um nordestino afogado!”, escreveu a estudante pela rede social. A pena contra ela foi convertida em prestação de serviço comunitário e pagamento de multa. Mayara parece ter posto o fogo e o rastilho incendiou a internet: postagens preconceituosas, racistas, xenófobas e criminosas contra os nordestinos espalharam-se pela rede.

O preconceito é sem dúvida a maior prova do quão desprezível o ser humano pode ser. Vem sempre seguido de desinformação e ignorância.Vivemos na região mais bonita do país. Nosso ar é puro, temos petróleo e infinitas riquezas naturais. João Pessoa é a segunda capital mais verde do universo, pra quem não sabe, perdendo apenas para Paris. Temos cultura, pratos típicos deliciosos, estilo musical próprio e contagiante. Gente hospitaleira e acolhedora, ao contrário de grande parte das regiões. Frutas tropicais que muita gente vai passar por essa vida sem ter o prazer de saborear. As praias do nordeste são um sonho! Jericoacoara, no Ceará, está na lista das dez mais bonitas do mundo!

O interior do nordeste sofre, em algumas épocas com a seca e isso deveria ser motivo de mobilização do resto do país e não de preconceito. Naquele chão rachado pelo sol tem muita gente brasileira, honesta, trabalhadora que não quer abrir mão do seu pedaço de terra por amor e orgulho de ser nordestino, sofredor sim, pobre, em grande parte, mas digno, honrado…sofredor, mas feliz. Sofremos com problemas na área da educação e saúde como no resto do país. Isso em nada nos faz inferior,

Mayara afirmou em seus posts cheios de barbaridade, que os nordestinos, ao votarem na candidata petista, teriam se vendido em troca de bolsas famílias. O nordeste possui um grande número de eleitores que devem ter diferentes motivos para sua escolha política. Mas, os que votaram em busca de desenvolvimento para a região conseguiram avanços, sim. Talvez até maiores do que conseguiriam se tivesse votado no candidato que a estudante julgava como certo. A região foi atingida por um verdadeiro “tufão” de investimentos financeiros que começam a germinar. Segundo especialistas, os estados estão interagindo na promoção do desenvolvimento econômico e social.

O Nordeste brasileiro ocupa uma área de 1,5 milhão de km², equivalente a 19,5% do território nacional. De acordo com estimativas de 2009 do IBGE, a população chega a 53,6 milhões de habitantes, o que corresponde a 28% da população brasileira. Segundo o próprio Instituto, em termos econômicos, estima-se que o PIB do Nordeste alcançou R$ 393,4 bilhões em 2009, representando 13% do produto interno brasileiro.

Antes mesmo dessa absurda demonstração de desrespeito e preconceito, envolvendo a estudante Mayara, Ivanildo Vilanova e Bráulio Tavares escreveram sobre a possibilidade de o nordeste se tornar independente. Diziam eles: “Imagine o Brasil ser dividido/ e o Nordeste ficar independente./ O Brasil ia ter de importar/ do Nordeste algodão, cana, caju,/ carnaúba, laranja, babaçu,/ abacaxi e o sal de cozinhar./ O arroz e o agave do lugar/ a cebola, o petróleo, o aguardente;/ o Nordeste é auto-suficiente/ nosso lucro seria garantido/ imagine o Brasil ser dividido/ e o Nordeste ficar independente./ Se isso aí se tornar realidade/ e alguém do Brasil nos visitar/ neste nosso país vai encontrar/ confiança, respeito e amizade/ tem o pão repartido na metade/ tem o prato na mesa, a cama quente:/ brasileiro será irmão da gente/ venha cá, que será bem recebido”.

Por isso, ao contrário do que alguns vêm sugerindo como punição, acredito que essa moça deveria ser confinada com alguns nordestinos. Garanto que seria recepcionada com um sorriso largo, um cafezinho pra agradar, um papo com um sotaque gentil e bondoso, sempre interrompido para provar as delícias do acarajé, da tapioca, do vatapá e da moqueca. Teria o imenso prazer de apresentar-lhe as obras de um tal de Jorge Amado, um certo escritor baiano que publicou dezenas de livros que retratam tão bem a história do povo nordestino do sertão e da cidade. Obras estas publicadas em 52 países que renderam adaptações de filmes de primeira linha, peças de teatro e telas famosas.

Mostrar-lhe a música, a dança e a poesia reverenciada no mundo inteiro através Caetano, Bethânia, Gilberto Gil, Cayme, Alceu Valença, Carlinhos Brown, Zé e Elba Ramalho e mais uma infinidade de gente talentosa. Queria ver a Mayara, que se diz tão superior, conseguir harmonizar os passos frenéticos do frevo e do maracatu. Proeza que só o nordestino é capaz de conseguir a façanha.

Para terminar sua estada por aqui, tentaria mostrar ainda todos os quilômetros de praias de areia fofa rodeadas de coqueiros. Lá, o azul do céu se confunde com as águas quase mornas, prontas pra receber gente do mundo inteiro num doce mergulho no mar.

Esse é o nordeste. Mesmo odiado, seu povo tem no coração a grandeza do sorriso franco e a alma acolhedora. As riquezas culturais acumuladas na história pelo povo nordestino não serão destruídas por preconceitos nem desamor, porque as suas bases são mais fortes que o concreto dos prédios que invadem os grandes centros.

Não tenho dúvida de que essa moça se arrependeria e lamentaria amargamente por ser tão estúpida, pequena, fraca e, consequentemente, inferior em caráter, em amor ao próximo e em tudo mais que o nordestino tem para oferecer.

 

Isabela Scaldaferri

belscaldaferri@hotmail.com

 

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