Chega de indignação seletiva

qdMuita gente, ao ler o teor dos meus textos neste último ano, acredita que eu venha apoiando o Partido dos Trabalhadores e todos os seus desmandos que, a longo prazo, foram responsáveis – direta ou indiretamente – pela atual crise que está apertando os nossos cintos. No entanto, o fato de eu ser contra o processo de impeachment, o discurso de ódio e essa caçada inconseqüente à presidente, nada tem a ver com partidarismo.
Coaduno-me com todos aqueles que são contra a corrupção, se enojam com as denúncias que estampam os jornais e se indignam com a roubalheira institucionalizada. Mas não vou engrossar o coro desafinado daqueles que querem, a todo custo, sem pensar nas conseqüências, exterminar um partido, acreditando ser esta a solução de todos os nossos problemas. Não me junto àqueles que acreditam que a corrupção está em um único canto do país – naquele vestido de vermelha e com estrela no peito. Não compartilho do mesmo raciocínio daqueles que pedem a volta da ditadura militar. E, em hipótese alguma, serei mais uma “Cunha”, como aqueles que seguravam orgulhosamente a faixa de apoio ao presidente da Câmara.
Acredito que o problema do Brasil vai muito além do executivo e é muito maior do que um partido. Se não vou às ruas pedir a saída da presidente, isso não quer dizer que eu a apóie, apenas significa não acreditar ser esta uma solução. Eu não faço parte do grupo que tem indignação seletiva. Por isso, não vou esbravejar contra as pedaladas de Dilma e me calar quando a denúncia é contra Aécio Neves, que é investigado pelo desvio de R$ 4,3 bilhões da área da saúde em Minas Gerais – entre 2003 e 2008, Aécio desviou bilhões de um estado, imagine o quanto não poderia fazer à frente de um país. Eu também não vou bater panela para o pronunciamento da presidente da república e ouvir calada as mentiras absurdas ditas por Eduardo Cunha.
Tudo o que eu venho tentando explicar, sempre que me abordam para questionar sobre os meus posicionamentos nesta página, o publicitário Paulo Aranã resumiu em um post no seu facebook. Disse ele: “Dilma engasga no discurso e vira meme, vídeo montado no whatsap e assunto na mesa de bar. Dilma diminui o próprio salário, o do Temer e de todos os ministros e ninguém toca no assunto. Sem nenhuma prova, a Veja faz uma capa dizendo que Lula e Dilma sabiam da corrupção. Governo Suíço denuncia Eduardo Cunha, a capa da Veja é Dilma. Nenhuma denúncia contra Dilma e pedem impeachment. Cunha é denunciado 8 vezes, incluindo o Lava Jato e o ministério público da Suíça, continua presidente da Câmara com o apoio do PSDB e do DEM, dois dos maiores defensores da bandeira “contra a corrupção”. Não precisa defender o PT, mas indignação seletiva, para mim, não é indignação, é falta de caráter”.
Na terça-feira, o pedido de cassação de Eduardo Cunha foi protocolado no Conselho de Ética. Mas, apesar de afirmarem ser contra a corrupção, nenhum dos 54 parlamentares do PSDB, assim como nenhum dos 21 deputados do DEM, assinou o documento para iniciar o processo de expulsão do presidente da Câmara. A oposição espera que a blindagem que ela está dando a Cunha seja paga com a celeridade da abertura de processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Que tipo de justiça é essa?
Ou a gente é contra a corrupção e luta contra ela de onde quer que ela venha, ou para de fingir que se indigna apenas com os desvios do seu adversário. Ou a gente defende um país sério e com economia forte de verdade, ou para com esse discurso de quem perdeu a disputa. Eu não quero aqui, com essa minha fala, defender uma postura passiva da população, pelo contrário. O que defendo é a análise global do problema, sem lados definidos. A questão da corrupção deve ser discutida para além do ódio, desmascarando um problema gigantesco que se esconde em discursos pseudomoralistas. É um problema complexo e sua discussão não pode ter ênfase só no Executivo, ou só neste ou aquele partido, senão terminamos ignorando a presença desse problema em outros poderes, outros partidos e, principalmente, em outros espaços da sociedade.
A gente pode até discutir o PT em particular, porque o partido que está no governo tinha uma proposta ética bastante diferenciada. A gente pode falar sobre a desilusão com o projeto de esquerda e sobre aquela velha ideia de que todo partido é igual até cair em um desencantamento absoluto com a política, tudo bem. Mas se formos olhar para o que realmente importa é diferente. Olhar para o partido apenas para dizer que tudo se reduz a ele é muito conveniente. Basta fazer um exame não muito longo na história do Brasil para encontrar outros partidos, outros integrantes da nossa elite política, misturados a denúncias de corrupção e eventualmente até condenados. Enxergar isso não significa ser conivente com a corrupção do governo atual, muito menos estar aliado a este ou aquele partido.

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