Cemitérios: contaminação ambiental…

A Vigilância Sanitária Municipal de Itapetinga realizou na sexta-feira, 19, a inspeção sanitária periódica nos cemitérios da cidade, o que nos levou à reflexão sobre a importância de um trabalho educativo junto à população sobre os riscos à saúde e ao meio ambiente presentes nestes locais.

Um breve histórico

Na Idade Média os corpos das pessoas eram depositados dentro e ao redor de igrejas, no centro das cidades, pois conforme as ideias teocentristas isso mantinha as pessoas que partiram mais próximas do paraíso por se tratar de um solo sagrado. Com o aumento da população ficava cada vez mais difícil encontrar espaços para o enterro de entes queridos e, além disso, havia segregação social e religiosa para escolha dos locais de enterro.

Após a reforma religiosa, os cemitérios começaram a ser construídos desligados fisicamente de Igrejas. A partir do século XVIII o cemitério começou a ter o sentido atual, e, por razões de saúde pública, foram proibidos os sepultamentos nos lugares habituais. Os enterros passaram então a ocorrer ao ar livre, o mais longe possível do perímetro urbano.

Sob o aspecto ambiental, os cemitérios nunca foram incluídos nas listas de fontes tradicionais de contaminação, todavia existem relatos históricos em Berlim e Paris da década de 70, constatando que a causa de epidemias de febre tifóide estava diretamente relacionada à proximidade entre cemitérios e fontes de água como nascentes e lençóis freáticos.

 

Cemitérios e a poluição do meio ambiente

A principal causa da poluição ambiental pelos cemitérios é o líquido liberado pelos cadáveres em processo de putrefação, chamado necrochorume. Durante este processo são liberados gases funerários, principalmente dióxido de carbono, gás sulfídrico, mercaptanas, gás metano, amônia e fosfina (hidrato de fósforo, incolor e inflamável). No caso de embalsamamento o corpo libera formaldeído e metanol, no caso de quimioterapia também são liberadas no solo substâncias químicas dos medicamentos ingeridos em vida.

Durante a decomposição dos caixões, também são liberadas substâncias químicas contaminantes como o verniz, conservantes da madeira (fontes de metais pesados como cromo ou organoclorados, como o pentaclorofenol) e as partes metálicas dos caixões, como alças e adereços, que podem liberar Chumbo, Zinco, Cobre, Cromo e Níquel e Ferro (Spongberg&Becks, 2000). No entanto, madeiras não tratadas se decompõem rapidamente, permitindo uma rápida disseminação de líquidos humorosos.

 

Sabe o que é necrochorume?

O necrochorume é um liquido viscoso, de cor castanho-acinzentada, cheiro forte e patogenicidade variável (capacidade de causar danos à saúde). O necrochorume é rico em sais minerais e substãncias orgânicas desagradáveis. Sua decomposição pode gerar diaminas, as principais e mais tóxicas são a cadaverina e a putrecina que podem ser degradadas gerando amônio, gás tóxico em grandes concentrações. No necrochorume é encontrado um elevado número de bactérias heterotróficas, proteolíticas e lipolíticas e bactérias causadoras de doenças como Escherichia coli, Enterobacter, Klebsiellae Citrobacter. Também são encontrados microorganismos patogênicos como Clostridium perfriges, Clostridium welchii, causadores de tétano, gangrena gasosa e toxi-infecção alimentar; Salmonela typhi, causadora da febre tifoide e S. paratyphi, a febre paratifoide; Shingella causadora da disenteria bacilar e o vírus da hepatite A. Tais microorganismos podem se propagar num raio de 400 metros além do cemitério e são responsáveis por doenças de veiculação hídrica (pela contaminação da água).

 

Cemitério e os riscos à saúde

A população deve dispor de cuidados ao frequentar cemitérios, evitando riscos à saúde através da lavagem das mãos, uso de sapatos fechados e higienização dos trajes utilizados na visita ao cemitério.

Coveiro ou sepultador é o profissional que trabalha na organização dos cemitérios, limpeza das covas e jazigos, cavando e cobrindo sepulturas, carregando caixões, realizando sepultamentos e exumações, entre outras funções. Para realização de todas estas atividades e garantirsua segurança e saúde é necessário que ele seja consciente dos riscos que a atividade de coveiro oferece.

Para prevenção de acidentes de trabalho, de riscos químicos e riscos biológicos, cabe ao coveiro o uso de Equipamentos de Proteção Individual – EPI. Os EPIs (luvas, máscara, botas de cano longo, chapéu ou capacete, macacão) irão protegê-lo do contato com substâncias tóxicas, alérgicas ou agressivas, que podem causar doenças ocupacionais (Moraes & Montalvão, 2000). Após o dia de trabalho este profissional deve evitar ir para sua residência vestido com o EPI, carregando os patógenos e expondo a riscos a saúde de sua família. O EPI quando necessário deve ser higienizado, lavado e desinfetado isolado das demais roupas.

 

Por que utilizar cal virgem durante os sepultamentos?

Durante o processo de sepultamento costuma-se usar cal virgem (óxido de cálcio anidro), substância oxidante que maximiza a decomposição devido a sua acidez e minimizar o vazamento de necrochorume para o solo, pois absorve o líquido cadavérico evitando a contaminação da terra e diminuindo a umidade excessiva do solo.

A qualidade do solo influencia no tempo de decomposição dos corpos, por exemplo, em solos muito úmidos pode haver a saponificação e em solos muito secos, mumificação, em ambos os processos a decomposição dos corpos é retardada. Por esses e outros fatores é que o CONAMA (Conselho Nacional do Meio Ambiente), através da Resolução 335, de 03 de abril de 2003, modificada pela Resolução 368, de 28 de março de 2006, sobre o Licenciamento Ambiental de Cemitérios, estabelece critérios mínimos para a implantação de futuros cemitérios, visando garantir a decomposição normal dos corpos e proteger os lençóis freáticos da infiltração do necrochorume.

Solos de cemitérios devem possuir boa capacidade natural de depuração, com alto teor de argila, e nível do lençol freático com profundidade acentuada, para que haja tempo necessário para a ação dos micro-organismos na decomposição do necrochorume em substâncias simples. A escolha do local para a construção de cemitério deve ser feita com critério, observando as características do meio físico, como relevo e hidrologia, e atributos do solo, como profundidade efetiva, textura, densidade aparente, teor de matéria orgânica, mineralogia da fração de argila, entre outros. Em camadas mais profundas do solo, onde normalmente ocorrem os sepultamentos (1,5 a 1,8 m), o teor e a qualidade da argila são fatores importantes para definir a capacidade de adsorção de metais pesados.

Seja ele público ou privado, o cemitério é patrimônio histórico, cultural, local de descanso de entes queridos e deve ser respeitado e conservado, livre de depredações e riscos à saúde humana e ambiental.

 

(Texto de Heneile Carvalho – Bióloga da Vigilância Sanitária Municipal.

 

2 Comentários para “Cemitérios: contaminação ambiental…”

  1. sam
    29 de outubro de 2015 às 8:30 #

    isso é muito interessante.
    o que se pode fazer agora nesse caso?

  2. policena luciá morato de menezes pelegrinelli
    6 de Abril de 2016 às 15:37 #

    boa tarde;
    E´muito preocupante a situaçao dos coveiros e demais funcionarios de cemiterios,pois no interior é muito comum o coveiro nao usar EPI isso ja vi em varias cidade e ir embora com a mesma roupa.mao o que mais me preocupa é esse funcionario nao tem uma medicçao de prevençao a doenças que sao encontradas no solo dos cimenterio,acho que vigilancia sanitaria deveria olhar isso com mais rigor.
    alem da falta de comunicçao que é contaminaçao do lençol freatico,na minha cidade natal a pessoas que moram do outro lado da rua e ainda usam cisterna e todo mundo sabe e ninguem nao faz nada ou faz…de conta que nem sabe
    !todos nos vamos pro mesmo fim mais acho que esta aqui deve ter sua saude preservada.
    atenciosamente
    policena

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