Carro novo

O novo é sempre o novo. Muita gente se encanta tanto com o novo que, muitas vezes, se torna motivo de chacota para aqueles que estão ao seu redor. Infelizmente, a maioria das pessoas não sabe conviver com o impacto causado, por algo tão especial, que se chama novo, isso pelo fato de muitos viverem desacostumados com uma grande novidade na vida.

Quando eu era menino, um sujeito de minha idade foi alcunhado de “João chinela nova”, isso porque ele só calçava os seus pés com peças ou herdadas dos irmãos mais velhos, cujos pés cresciam e repassavam as sandálias para os mais novos, ou herdava dos primos ou outros parentes que moravam na cidade.

João, em uma noite de natal, ganhou de Papai Noel, um par de sandálias novinhas em folha, que veio dentro da embalagem, ou seja, ganhara uma sandália que ninguém colocara os pés. Esse garoto manifestou a alegria e o espanto de várias formas, saia de casa para os lugares com a chinela nas mãos a fim de não gastá-las, só as utilizava dentro de casa, a cada sentença que construía, sempre encontrava uma maneira de utilizar a expressão “minha chinela nova”. As lavava três quatro vezes ao dia e as enxugava com muito cuidado. Este apelido pegou e nele se vê a crueldade do ser humano.

A alegria está presente em todos os seres humanos, a não ser um distúrbio forte no psicológico para esvaziá-la, e as motivações desta alegria, deste encantamento advêm de um manancial que atinge a alma de cada ser, respeitando e aproveitando todos os seus condicionantes sociais.

O Brasil vive um momento no qual está proporcionando muitas novidades para brasileiros desacostumados com o novo. Um exemplo é a aquisição de bens de consumo e hoje comprar um carro novo ou usado se torna quase obrigatório, seja por status ou por necessidade de mobilidade, uma vez que o governo criou condições favoráveis para isso. Adquirir um carro pela primeira vez, seja usado ou novo, tem provocado comportamentos diferentes em algumas pessoas, posturas similares a de João chinela nova.

Outro dia vi um sujeito que comprou pela primeira vez um carro usado, aliás, muito usado. O que causava estranhamento nas pessoas era que ele lavava este veículo três vezes ao dia. Ao amanhecer, meio-dia e ao anoitecer. Não era uma lavadinha qualquer, era uma senhora lavada, com direito a limpeza interna, lavagem de pneus e até shampoo para carro ele utilizava.

Recentemente vi algo tão inusitado com a aquisição pela primeira vez de um carro, que me motivou a escrever esta crônica. Um senhor, com seus cinquenta ou sessenta anos, comprou um automóvel em bom estado, aparentemente quase zero. O que ele fez pode até estar certo, mas foi a primeira vez que vi este tipo de cuidado. O carro estava estacionado sobre um passeio plano e três passageiros foram entrar no veículo. Ele tirou uma pequena balança do carro e mandou que todos se pesassem, anotou o nome e o peso de cada um, em um caderno que carregava, depois desta operação, distribuiu os passageiros a fim de que um lado do veículo não ficasse mais pesado do que o outro e também os passageiros da frente não fossem mais pesados do que os do banco traseiro, ou seja, fez um balanceamento de peso. A esposa ficou no banco traseiro com um cunhado e ele ficou ao lado da cunhada no banco dianteiro.

São situações que jamais imaginava existirem.

 

* Moacir Saraiva é professor do Ifba/Valença, membro da AVELA e da União Brasileira de Escritores .

saraiva40@hotmail.com

 

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