Capanga ou jagunço?

Nos tempos idos estas expressões foram por demais usadas nos meios do banditismo organizado, porém, elas agora, como lembrança do passado, estão a encontrar eco na obra histórica do escritor conquistense Durval Lemos Menezes, “A Conquista dos Coronéis”, e vem definir com sabedoria todas as terminologias ligadas à proteção pessoal e ao crime de mando.

Segundo o autor as “ordens” fazem parte da organização da raça humana e são geralmente instituições secretas. As mais conhecidas são a religiosa, a maçônica e a militar. E, na obra em foco, ele explícita a questão estabelecendo parâmetros que deixam claro o que é, por exemplo: CANGACEIRO, CAPANGA, JAGUNÇO, PISTOLEIRO, CAMANDO etc. Enfim, esclarece quais são os grupos que fazem a segurança ou a matança para cumprir ordens de alguém. Continuando no seu primoroso discernimento, o autor explica primeiro o que é CANGACEIRO, mas com ressalva: todos os coronéis tinham jagunços, mas nem todos os jagunços eram bandidos, e nem todos os coronéis eram chefes de bandidos.

CANGACEIRO tem origem e atuação nas caatingas do Nordeste. Eram andarilhos, sempre em grupos de cinco a trinta indivíduos. Às vezes, esses grupos se juntavam, quando necessário, no enfrentamento de uma batalha maior. Eram valentes, corajosos e vaidosos; usavam trajes chamativos e gostavam de ser fotografados. A maioria se fez cangaceiro por se achar injustiçado. Lampião não foi o primeiro, mas foi o mais famoso cangaceiro.

Em seguida vem o CAPANGA: Também conhecido por “cabra” na linguagem do nordestino, trata-se do homem de confiança do fazendeiro, do chefe político, e de confiança íntima do patrão e sua família. Tem livre acesso às dependências da casa e acompanha o patrão e sua família. Como homem de arma, está sempre alerta e pronto para uma ação de defesa ou ataque. O capanga passou a ser utilizado também nos centros urbanos.

JAGUNÇO: o jagunço foi muito utilizado nos séculos XIX e XX. O modus operandi é muito parecido com o do capanga, chegando, às vezes, a confundir esses dois profissionais. O jagunço é mais confiável, discreto e com atividades mais restritas à zona rural. É corajoso, valente, obediente, fiel, defende, com risco da própria vida, da honra, a família, o patrimônio e a vida do seu patrão. Havia uma relação muito forte entre jagunços e coronéis; suas existências dependiam uma da outra.

Uma qualidade indispensável a um bom jagunço é ser um bom rastejador. É ele quem orienta e conduz os seus protegidos através do mato ou caminho desconhecido até atingir o objetivo, que pode ser o de perseguir o inimigo ou despistar de um provável ataque. Nele, são mais importantes a visão, a audição e o olfato do que mesmo a pontaria. Escuta, observa e vasculha tudo nos mínimos detalhes. Uma simples folha que se mexe, um pequeno pedregulho que rola, um galho quebrado, um capim amassado, um simples palito de fósforo, um cheiro de suor são pistas importantes para detectar a presença de alguém próximo ou a léguas de distância. São verdadeiros instrumentos naturais, capazes até mesmo de revelar, sem errar, quantos membros existem num grupo. Não se trata de adivinhação, é um dom desenvolvido pelo rastejador, conhecido como ilação, também utilizado por índios e alguns animais. Certos rastejadores também têm o que se chama premonição. O médico, escritor e diplomado Guimarães Rosa também se dizia possuidor desses fenômenos, os quais são cientificamente estudados.

PISTOLEIRO: Também conhecido como matador profissional, o pistoleiro é um bandido que escolheu o ofício das armas como meio de vida e não deseja fazer outra coisa a não ser matar. Esse profissional é também conhecido como matador de aluguel. Geralmente não tem patrão, age como autônomo e presta serviços a quem está disposto a pagar-lhe. Na maioria das vezes, o pistoleiro não é conhecido do mandante nem da vítima, por isso existe o intermediário conhecido como empreiteiro. Nesse mundo do crime, é comum o empreiteiro ser vítima de “queima de arquivo”.

O pistoleiro é o pior dos bandidos, não tem escrúpulo, tanto mata homem rico ou pobre; mulher casada ou prostituta, idoso, inválido ou criança. É sem dúvida um elemento asqueroso, frio e calculista; estuda minuciosamente as atividades da vítima antes de executá-la. O pistoleiro ataca sempre de surpresa e, na maioria das vezes, pelas costas sem dar nenhuma chance de defesa à vítima. Não existe outro motivo a não ser o dinheiro pago para tirar a vida do seu semelhante. O assassino de aluguel é uma profissão das mais antigas, existem desde os primórdios da civilização. A única coisa que surgiu diferenciando os costumes da época em referência são os comandos identificados por cores: amarelo, vermelho ou código como PCC e outros.

Analisando pelo pressuposto de que “todo passado reflete no presente e o presente refletirá no futuro”, conclui-se que não mudou muito essa questão de jagunços ou capangas, mudou apenas a forma de se chamar àqueles que contratam e os que são contratados. Quem contrata agora são os políticos que se valem das chamadas “verbas de gabinetes” para contratar seus guarda-costas ou seguranças que desempenham o mesmo papel dos antigos jagunços ou capangas. E os artistas que nunca se arriscam saírem às ruas desprotegidos, também contratam fortes e simpáticos homens, profissionais da área, para lhes fazer segurança.

É comum se ver na atualidade os prefeitos municipais andarem acompanhados de dois, três ou mais seguranças aonde quer que eles vão. Esses profissionais que trabalham dando esse tipo de cobertura aos artistas e aos políticos ainda são conhecidos por “leão de chácara”. Hoje em dia nenhum artista sai às ruas da cidade ou vai se apresentar em shows se não estiverem cercados de homens bem fortes e bem vestidos como seus seguranças. A mega estrela Xuxa, por exemplo, quando deixa a TV em que trabalha, logo está segura por 12 homens guarda-costas, contratados especialmente para lhe acompanhar até a residência ou ao shoping center, distribuídos sempre em quatro carros de modelos e cores diferentes. Mas se ela é reconhecida por um fã que se aproxima, logo seus seguranças se apresentam para afastá-lo e por aí a banda vai tocando…

 

 

* Miro Marques é escritor, historiador e radialista

jornaldimensao@yahoo.com.br

 

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