Cachorro que nem rabo tem

kaluQuando encontro casualmente com D. Netinha pelo centro da cidade, sua alegria é sempre contagiante. Se me vê de chapéu ou boné na cabeça, rumo à Fazenda Liberdade, vai logo adiantando que estou indo em busca de mais uma das minhas histórias, para dividir com os leitores, aqui neste pequeno espaço do Dimensão, o que não deixa de ser verdade. Mas se estou de camisa de manga comprida e gravata rumo ao trabalho, vai logo dando um jeitinho de arrumar minha gravata, se por ventura estiver torta. Acho sua atitude bonita, além de gentil e fico imaginando ela arrumando a gravata de Getro Guimarães, nas noites de festa ou reuniões, seu companheiro de tantos anos, que costumava usar sua tradicional e impecável roupa de linho, bem engomada. Acho que era o único por aqui que usava linho Belga e camisa de cambraia de linho branco. É preciso ter estilo para usar linho e Getro Guimarães tinha de sobra. Quando alguém queria fazer algo mas não tinha gabarito e nem capacidade para tal, meu velho e saudoso pai, Sílio Dutra, costumava dizer: “Cachorro que nem rabo tem”. Ouvia este ditado com certa frequência. Se algum moleque ainda cheirando a leite pensasse em dar um trago em um cigarro ou se atrevesse em montar em Cobiça, Joema ou na mula Ferreira, suas três montarias preferidas, lá vinha ele de novo com o ditado. “Onde já se viu! Cachorro que nem rabo tem!”

Assisti pela TV uma entrevista do músico e compositor Zeca Baleiro e o poeta Ferreira Gullar, ambos maranhenses, com o mesmo nome de batismo de José de Ribamar, santo protetor ou padroeiro do Maranhão. Ambos falavam sobre a cidade natal e a cultura popular e Ferreira Gullar ao ser perguntado sobre sua fonte de criação, disse que tudo provinha da sua cidade, do seu tempo de infância e das coisas boas que conseguiu gravar e absorver durante toda a vida. Acredito que acontece o mesmo com todos aqueles que se propõem a contar um pouco da história da cidade e de sua gente. Escuta uma palavra aqui, outra que ressoa acolá e aí surge a inspiração. Imagino o dia em que tiver a felicidade de contar uma história bem bonita, tirada do fundo do coração, com o objetivo de fazer as pessoas mais felizes. Podia ser uma história bem curtinha, com um pouco de verdade e até alguns floreios que parecessem mentira, mas não fossem. E se fossem também não teria imortância, pois os leitores certamente iriam compreender. Me recordo de uma canção de Chico Buarque, intitulada “Maninha”, onde sua poesia começa assim: “Se lembra da fogueira/Se lembra dos balões/ Se lembra dos luares dos sertões”. Ao comentar com Vinícius de Moraes sobre a letra e sua fonte de inspiração, o poeta foi logo descartando, dizendo que aquilo tudo era mentira de Chico, que não havia nada de fogueira e muito menos de balões. Chico nos conta esta história rindo bastante. E aí eu vejo que cada um tem sua história pra contar, até mesmo em forma de poesia. E olhem que eu estava preparando um artigo para esta semana, falando sobre a monotonia da cidade e aí me vem à mente a lembrança do “cachorro que nem rabo tem”. O que fazer então? Mudar de cachorro, de rabo ou de foco? Como não sou cachorro e nem rabo tenho (nem mesmo preso), resolvi mudar mesmo foi de foco e deixar a monotonia para uma ocasião mais propícia. O jornal não cobra nada de seus redatores quanto ao tamanho do texto. E neste rol do qual me incluo, compondo a lista com figuras do quilate de Laécio Alves Sobrinho, Miro Marques e tantos outros, não é poucas coisa, não! Acontece que computador é bicho danado e engana muito a gente. Você escolhe a fonte 12 como exemplo, para escrever um texto com letras mais graúdas, adaptando-se as deficiências visuais que surgem com a idade, já que depois dos cinquenta todo mundo vai ter que usar óculos com ou sem fundo de garrafa, e logo surge na tela uma página inteira e mais um pouquinho. Mas quando chega a hora de enviar para o jornal, sabendo que a fonte lá é menor por causa de espaço, aí é que a porca torce o rabo. Marca-se então o texto e reduz-se a fonte para 9 ou 10 e não dá nem uma página inteira. Como não há mais tempo de aumentar o texto enchendo linguiça (como agora), surge a mão milagrosa da chefe de reportagem Eliene Portella, carinhosamente conhecida como PorteLLinha, assim mesmo, com dois LL, que tasca lá uma fonte 11 ajudando engordar o texto, ou completa o final da página com algo mais. Está feita a mágica. Eu cá com meus botões comparo esta atitude dela com a farinha, cuja pequena história ouvi do maestro Aderbal Duarte, outro bom contador de causos, explicando o verdadeiro motivo pelo qual o nordestino adora tanto a farinha:

 

1º – Aumenta o que está pouco;

2º – Engrossa o que está ralo;

3 – E esquenta o que está frio.

 

E para não esfriar mais o texto, vamos seguindo em frente que atrás vem gente.

 

Carlos Amorim Dutra

e-mail: carloskdutra@gmail.com

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