Bolivar de Aragão Lima: uma figura lendária que viveu em Itororó

modelo 1Entre tantas aventuras e peripécias de Bolivar de Aragão Lima, um episódio entrou para a história e para o anedotário folclórico da cidade por ser o mais famoso e comentado em toda a região. “A Volta de Tarzan” que virou pauta do dia do folclore regional.

O Cine Itororó funcionou com esta denominação na cidade de Itororó a partir da metade da década de 50, e foi o segundo cinema desta cidade. Adquirido por Bolivar de Aragão Lima e Zizina Brito, novos investidores na área empresarial que sonhavam dar uma dinâmica especial no que concerne a diversão pública dos itororoenses, o Cine Tupinambá foi vendido pelo seu fundador, Manoel Buarque Alvim que pensou em investir mais nas suas empresas de panificação, torrefação de café e moagem de milho. Então, o velho Cine Tupinambá muda de nome e de direção. A partir dai passou a se chamar Cine Itororó, mas funcionando no mesmo local, na Rua Itabuna, portal de entrada da vila de Itororó.

Bolivar assumiu a direção comercial da empresa com vasto conhecimento de: piloto de avião de guerra, ex-motorista de confiança do então governador do Estado Dr. Régis Pereira Pacheco, licenciado em rádio amador, apresentando uma linguagem estranha de “macanudo, câmbio” etc., e coisa e tal; agente dos Correios e Telégrafos de Itororó, Sócio Efetivo do Grêmio Esportivo Social e Cultural de Itororó, matrícula nº 81, construtor de barragem hidroelétrica no Rio Colônia para gerar sua própria energia e ainda por cima colecionador de carros importados, revistas e jornais de todo o Brasil e até de países estrangeiros. Dona Zizina Brito, diretora executiva, logicamente, assumiria a bilheteira e o controle financeiro da empresa. Mas como ela nunca foi boa das vistas, muitas vezes fora enganada pela molecada capitaneada por Valtenor, Bazinho, Solonelson, Ecleudio, Tinho de Adalberto, Dalton Brasil e uma grande “comandita” como dizia o poeta de cordel João Casa Velha.

Quando soava o gongo para começar a projeção, era ora vez dessa turma azucrinar o juízo da pobre senhora dizendo que tinha dado um dinheiro graúdo e estava esperando o troco, e acabavam conseguindo o que queriam, um troco superior ao dinheiro que haviam dado por conta do ingresso. Muitos nada haviam dado e ainda queriam troco e a coitada acabava atendendo os desejos dos malandros. Entravam no cinema de graça e ainda levavam algum dinheiro do borderoux.

Valdeni Vieira Andrade que hoje reside em Eunápolis, onde é cantor evangélico e professor de literatura brasileira, era o responsável pela divulgação da programação cinematográfica. Era ele que também pintava os cartazes ou tabuletas para Amadeu, Zé Pitoquinha e Tico da velha Júlia espalharem pelas esquinas da cidade. Mais tarde Valdeni assumiu, também, a direção do serviço de alto falantes e Abmar Figueiredo ficou sendo o responsável pela pintura das tabuletas para Estraquino, Fedegoso ou Bizuca colocarem nas ruas, nos pontos estratégicos, como era de costume.

Quando, durante a projeção, acontecia quebrar a fita ou dar um branco na tela a gritaria era ensurdecedora e enorme era a batucada que tomava conta do salão. As cadeiras acabavam soltando alguns parafusos para dar trabalho ao velho Caboclo que era o “lanterninha” e responsável pela reposição das peças quebradas. Luiz Zoinho com seus óculos “fundo de garrafa”, era o operador e exigia de Bolivar a contratação de bons filmes para uma programação digna de uma platéia de elite.

Muitas vezes Bolivar vindo de Salvador, d’onde tinha fechado grandes contratos com as melhores distribuidoras estaduais como: Metro Goldwyn Mayer, Arte Filmes, Juvenal Calumby, Fama Filmes, 20th Century Fox, Universal Internacional, Condor Filmes, Paramount Picture e outras, para exibição dos melhores filmes em lançamento, passava de avião particular por sobre a cidade e num voo rasante jogava os trailers e o material fotográfico dos filmes para Valdeni procurar nas pastarias da fazenda de Dona Auta Souza Ramos ou na fazenda Realeza de Edgar Brito e assim poder proceder a programação da semana.

Naquele tempo, a programação do cinema tinha por hábito preceder na exibição noturna sempre um bom documentário com as famosas marcas publicitárias: Jean Mazon, Lívio Bruni, Canal 100, Herbert Richers e outros que traziam à baila as novidades do Sul do País e do eixo Rio São Paulo e ainda alguns clássicos do futebol brasileiro. Porém, quando coincidia com o clássico Vasco e Flamengo aí a galera ia à loucura e um tremendo alarido sacudia as cadeiras e o chão do salão a cada gol marcado.

Um belo dia, um fato interessante ocorreu na vida empresarial de Bolivar de Aragão Lima.

Mas para este capítulo, nós já chamamos a sua atenção no início deste relato. Você se lembra que prenunciamos esta história com o polêmico episódio “A Volta de Tarzan”?

Pois, ora muito bem! Bolivar exibiu, com o cinema superlotado, em programação contínua de 8 dias de soirée e 7 matinée, o filme Tarzan vai à Ìndia. A primeira produção de aventura de Tarzan colorida. Era uma distribuição da Metro Goldwyn Mayer e tinha como protagonista Jockey Marroney, um Tarzan menos musculoso, mas muito simpático aos olhos dos espectadores. Fim da temporada, rendeu para a casa um gordo borderoux. Bolivar, de bolso cheio, foi a Salvador para devolver o filme de Tarzan e contratar novas películas para a programação seguinte. Chovia bastante e quebrou uma ponte na estrada, depois da cidade de Jequié, impedindo que o velho Bolivar chegasse à capital do Estado. Então ele telegrafou para Valdeni, e para que a notícia fosse mais rápida, ainda passou um “radio” para seu colega Rádio Amador de Itororó, João do Rádio, pedindo-o que avisasse a Valdeni para anunciar um novo filme: “A Volta de Tarzan”. Valdeni espalhou tabuletas por toda a cidade, ouriçou a galera com belos anúncios e a casa superlotou. Coitado, ele mal sabia do que lhe poderia acontecer com aquela ideia de “jerico” que acabara de lhe passar pela cabeça. O novo filme foi anunciado conforme as ordens dadas pelo seu diretor. Programação normal, casa superlotada, então o correto é dar-se iniício a exibição do filme às 8 horas da noite como de costume, e isto foi feito. Mas quando as cortinas rubras se abriram e começou a projeção, pelos primeiros caracteres, logo os espectadores perceberam que o filme era o mesmo. Desconfiados, ainda esperaram um pouco mais para ter certeza da má intenção do velho “malaca” Bolivar de Aragão Lima. Mas logo tiveram a certeza de que fora mesmo um golpe do astuto Bolivar, aí foi um quebra-quebra danado que quase destruiu o interior do cinema.

A polícia foi chamada e chegou a tempo, dando alguns tiros para o telhado e por aí a coisa se acalmou. Entretanto, foi preciso que Bolivar usasse o serviço de alto falantes do cinema, na presença do Delegado de Polícia Sargento Ives Henrique de Souza e do coletor de impostos Wilson Leão, pessoa de comportamento ilibado e muito bem quisto na sociedade, prometendo ao público a devolução do dinheiro dos ingressos, e que continuassem com seus bilhetes para terem direito a assistirem a outro filme grátis, como na verdade devolveu as entradas na mesma noite, como garantia de, posteriormente, assistirem a outro filme gratuitamente.

Depois daquele episódio, o velho Bolivar não teve a menor condição de continuar como sócio da empresa. Dona Zizina comprou a sua parte, fechou o cinema por poucos dias e reabriu com uma bela programação de palco e tela. Um outro filme de Tarzan, também colorido, com Gordon Scott, como protagonista, e tendo Jockey Marroney em papel secundário. ‘‘Tarzan, o Magnífico’’ foi o filme que esteve em cartaz naquele dia da reabertura para compensar o outro Tarzan que provocara o quebra-quebra no cinema. E no palco, um show de Cascatinha e Inhana com ingressos pagos pela metade, apenas para cobrir as despesas com o show. Este episódio ainda é lembrado hilariamente nas conversas de botequim e nas esquinas da cidade…

O lendário Bolivar era, sem dúvida, uma figura folclórica de Itororó, ele era mesmo um sujeito fabuloso. Viajava quase todo dia para Vitória da Conquista ou para Itabuna, conforme a carona oferecida.

Estava sempre a postos no Ponto de Querzinha, esperando transporte – digamos que ele queria ir para Itabuna, mas se passasse algum amigo, de carro, com destino a Vitória da Conquista e lhe oferecesse a carona – ele imediatamente mudava de ideia e de destino, viajava conforme o itinerário daquele seu amigo que lhe convidasse a entrar no automóvel…

Foram inúmeras as aventuras e peripécias que aconteceram na vida do lendário Bolivar. Acompanhe esta que se passou com o comerciante José Ceguinho, de Bandeira do Colônia, grande distribuidor de fumo de rolo ou de corda, são válidas as duas expressões. Certa vez, chovia muito na redondeza e como Zé Ceguinho era exclusivo comerciante do ramo nesta localidade, precisava fazer uma entrega urgente do produto no distrito de Palmares, município de Itapetinga, distante 46 KM. Procurou Bolivar e contratou um frete, porque este também tinha um Jeep capota de aço e fazia este tipo de viagens. Combinando o preço do carreto, eles seguiram viagem debaixo de chuvas para o destino anunciado. Lá já perto de Palmares, tiveram que cruzar o riacho do Corró que estava supercheio e naquele tempo na maioria dos córregos não havia ponte de cimento armado, era apenas uma pinguela que dava acesso à travessia de cada riacho, córrego ou até rios menos caudalosos. Para quem não sabe o que é pinguela, é a colocação de dois paus de madeira de lei, de uma certa grossura, postos sobre um córrego ou riacho para permitir a travessia, principalmente de carros.

Naquela passagem, Bolivar vinha puxando uns 30 quilômetros, mais ou menos, e do jeito que ele vinha, meteu a cara na pinguela e atravessou o riacho. Zé Ceguinho, assustado, trancou o monossílabo, prendeu o fôlego e só quando já estava do outro lado do riacho é que conseguiu falar. Então, perguntou: como foi que você passou nessa pinguela com tanta velocidade Bolivar? Ele, imediatamente, parou o Jeep e engatou a marcha ré e na mesma velocidade passou sobre os dois paus, só que desta vez, no sentido contrário, depois encheu o peito e disse: – Foi assim meu amigo! Zé Ceguinho disse que teve vontade de não mais prosseguir a viagem, porém, pensou nos seus fregueses e seguiu o destino, mas, confessou que quase borrou na roupa de medo…

Bolivar de Aragão Lima que nasceu no interior da Bahia, no lugar denominado Afonso Pena, antigo distrito de Iaçu, a 22 de fevereiro de 1910, era funcionário público estadual aposentado, morreu em 15 de outubro de 1992, aos 82 anos, na Rua Ruy Barbosa, na cidade de Iaçu-Bahia, onde seu corpo foi sepultado. Bolivar era viúvo de Dona Zinha, mas não deixou nenhum filho para herdar os seu bens. Dona Zinha que era bem mais jovem que ele, viveu menos e foi sepultada no cemitério público de Itororó.

Bolivar de Aragão Lima, era filho legítimo de Alfredo de Aragão Lima e de Theófila Maria Sacramento. Quando adoeceu, sentindo exaurir seu ciclo de vida, optou por ser levado para sua terra a fim de poder viver seus últimos dias junto aos seus parentes na sua cidade natal, a noroeste baiano, Iaçu – Bahia.

 

 

* Miro Marques é escritor, historiador e radialista

tiodomirosilva@hotmail.com / jornaldimensao@yahoo.com.br

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