Baderna, vandalismo e truculência

destUma série de manifestações e protestos transformou São Paulo num campo de batalha na noite da última terça-feira, paralisando o trânsito em algumas das principais vias da cidade e deixando um rastro de destruição como há muito tempo não se via na capital paulista. Os jovens integrantes do Movimento Passe Livre reuniram, durante toda a manhã, estudantes em várias escolas para uma passeata marcada para a Avenida Paulista. À tarde, juntaram-se a eles, servidores da Secretaria de Estado da Saúde e delegados da Polícia Civil, que estão em campanha salarial.

Todos os jornais registraram as primeiras concentrações, que começaram logo após o almoço, e descreveram as providências tomadas pela Polícia Militar e pelo serviço de segurança do Metrô. Durante a tarde, os grupos de interesses diversos foram se aglomerando até que uma pista da Avenida Paulista foi bloqueada e a massa começou a se movimentar.

Eles saem caminhando em relativa ordem, gritando slogans e exibindo seus cartazes; eventualmente, pequenos grupos se deslocam lateralmente e provocam um distúrbio, incendiando sacos de lixo, quebrando vitrinas ou atirando pedras em ônibus. Enquanto a multidão se deslocava por avenidas do centro, grupos de vândalos passaram a atacar sedes de bancos e casas de comércio. Além de vitrinas despedaçadas, automóveis destruídos e ônibus incendiados, houve agressões e tentativas de linchamento.

Nas redes sociais, pode-se encontrar depoimentos de pessoas que foram agredidas por policiais pelo simples fato de serem jovens e estarem transitando na região das manifestações. Uma dessas vítimas, que esperava um amigo diante da Faculdade Casper Libero, acabou no hospital e teve seu smartphone expropriado por integrantes da tropa de choque.

Também há relatos de cidadãos que foram intimidados ou agredidos por manifestantes, e uma variedade enorme de episódios mostrando que os protestos contra o aumento das passagens de ônibus saíram do eixo e podem se transformar em qualquer coisa.

Enfim, o movimento perdeu o controle e a violência assumiu a manifestação. No meio daquela manifestação legítima havia rebeldes que se julgam revolucionários e estes não costumam medir o efeito de seus atos. Portanto, não é difícil antecipar o que pode acontecer na sequência: baderna e vandalismo dos “manifestantes” respondidos com truculência e abuso de poder da polícia.

Isso mesmo, houve, sim, um excesso na ação da polícia. A imprensa registra com destaque os casos de policiais que foram encurralados e agredidos por manifestantes, mas omite o outro lado, em que agentes atacaram transeuntes. O PM Wanderlei Vignoli, que apareceu nas mais diversas mídias, mereceu ser identificado porque, mesmo ferido e ameaçado de linchamento, não disparou sua arma. Mas não se pode afirmar que ele tenha sido o modelo de comportamento da polícia.

Sou a favor de toda e qualquer manifestação legítima e legal da população. Mostra que a nossa geração “saiu do facebook” – como dizia um dos cartazes levantados durante o protesto – e foi para as ruas reivindicar seus direitos, fazer ser ouvida. Essa é uma representação do que é democracia – o governo do povo. Mas acredito que todo protesto deve ser feito de forma organizada e consciente. Os manifestos devem ser estruturados sobre mudanças possíveis.

Em entrevista, um consultor de planejamento urbano, afirmou que levou uma multidão para as ruas – o aumento do passe de ônibus – não tem solução fácil. Segundo ele, pelas contas disponíveis, as empresas de ônibus não são uma fonte extraordinária de lucros e dependem de subsídios oficiais para manter os serviços em condições mínimas de operação. Por outro lado, o custo da tarifa já superou a capacidade de pagamento de boa parte dos usuários e mesmo assim as empresas de transporte coletivo não apresentam melhoras significativas para os usuários. Muitos empregados contam com o vale-transporte e o aumento acabará atingindo, também, os empregadores, o que pressiona a inflação.

Trata-se, portanto, de uma equação difícil de articular, ainda mais se levando em conta que as empresas de ônibus não são o que se poderia chamar de negócio transparente. A complexidade do problema exige uma análise mais cuidadosa, uma discussão mais embasada, uma atenção maior dos nossos governantes. Mas as autoridades diretamente ligadas à crise estão em Paris, representando a candidatura de São Paulo à sede da Exposição Mundial de 2020, enquanto a cidade pega fogo. Sem uma liderança que possa estabelecer alguma ordem, a perspectiva é o caos, com o risco real de episódios ainda mais graves. Nossas próximas manifestações devem ser para que as nossas autoridades olhem mais para seu povo.

Isabela Scaldaferri

belscaldaferri@hotmail.com

Tags:

Sem comentários ainda.

Deixe um comentário