As rodovias da região – III

No dia 30 de maio de 1963, às 19 horas, este articulista entrava pela redação do jornal “Diário de Notícias”, na rua Carlos Gomes, nº 57, no centro de Salvador, Ba., procedente de Vitória da Conquista, com o material (anotações e material fotográfico) para redigir a reportagem de inauguração da BR-4 (Rio-Bahia) pavimentada e ali ouvia, de vários colegas, uma pergunta básica: “Como é que foi?”. Em meio aos que confundiam o meu raciocínio, ainda aparecia o comentarista político Virgílio de Sá, querendo saber sobre alguns lances políticos. Entretanto, do companheiro Antônio Guerra, chefe de reportagem, guardei e não esqueci, mais ou menos estas palavras: “É fantástico viajar por estrada asfaltada, de Salvador ao Rio de Janeiro. Parece mesmo um milagre!”

Para os jovens de hoje (ano de 2011), não parece milagre. Tanto asfalto por aí, não é? Qualquer pequena cidade da Bahia, Pernambuco ou outro estado do Nordeste é servida por asfalto. Mas, para os brasileiros que testemunharam, ouviram pelo rádio, viram na televisão ou leram nos jornais e revistas, naquele distante 1963, sobre a inauguração da rodovia Rio-Bahia asfaltada soava como um orgulho nacional. Principalmente, para os baianos e minérios, pois a nova faixa pavimentada acabava de rasgar os sertões da Bahia e de Minas Gerais.

E, para um homem da roça, que nunca viaja, ver aviões e mais aviões descendo e subindo, num aeroporto improvisado, em meio à caatinga seca e triste, bem na divisa dos dois estados, e uma daquelas aves metálicas trazendo o presidente da República, João Belchior Marques Goulart, era fantástico. Tanto que a revista “Manchete”, de grande circulação nacional à época e hoje inexistente, contou, em sua edição de 22.06.1963, uma historinha de Geraldo Romualdo Simplício, filho do sertão da Bahia, 75 anos, que andou 40 quilômetros, a pé, para assistir à inauguração da Rio-Bahia, e viu, num mesmo palanque, um presidente da República, seis governadores e três ministros, o que pouca gente viu até hoje. O Brasil ganhava, com aquela solenidade, mais 1.621 quilômetros de estrada asfaltada, entre as cidades de Leopoldina (MG) e Feira de Santana (BA). Os trechos Salvador-Feira e Rio-Leopoldina foram inaugurados antes, por Juscelino Kubitschek, que governou o Brasil de 1956 a 1961.

Àquele tempo, o eng. Hélio de Almeida era o ministro de Viação e Obras Públicas; o eng. Roberto Lassance ocupava o cargo de diretor geral do DNER; e o também eng. José de Miranda Correia era o chefe da Comissão Especial de Obras da Rio-Bahia. Três presidentes da República impulsionaram as obras da Rio-Bahia (BR-4): Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros e João Goulart.

Junto com o presidente João Goulart, estavam no palanque, no dia 30 de maio de 1963, logo cedo, às 9h15min, com frio de 16 graus e muito vento, os governadores Lomanto Júnior (BA), Magalhães Pinto (MG), Miguel Arrais (PE), Virgílio Távora (CE), Seixas Dória (SE) e Pedro Gondim (PB). Ali, estavam também os ministros Celso Furtado (Planejamento), brigadeiro Reinaldo Carvalho (Aeronáutica) e Hélio de Almeida (Viação e Obras Públicas), este com uma perna engessada, vítima de fratura da tíbia, em acidente quando descia a escada de um avião. Mesmo assim, Hélio de Almeida veio de carro do Rio de Janeiro para a inauguração e seguiu depois até Salvador usando o mesmo transporte, com o propósito de ver, palmo a palmo, bem de perto, toda a Rio-Bahia, obra que o consagrou, juntamente com muitos outros engenheiros, técnicos e operários. Mais de 200 prefeitos estavam ali presentes, inclusive o de Itapetinga, José Mendonça Luna, com a esposa Maria Ribeiro Luna.

De outro lado, este articulista, na verdade, se mistura à história daquela festa. A esse tempo, cursava o 3º ano de Direito, na UCSAL (Universidade Católica do Salvador), e era repórter do “Diário de Notícias”, agora já extinto, mas que era um dos órgãos dos “Diários Associados”, de Assis Chateaubriand, na Bahia. No dia 26 de maio, eu e mais outros jornalistas (lembro-me bem de Orlando Garcia, do “Jornal da Bahia”, José Curvelo, de “A Tarde” e Newton Moura Costa, da “Rádio Excelsior da Bahia”) saímos de Salvador, bem cedo, numa Kombi, da Assessoria de Imprensa do Governo do Estado, chegamos a Vitória da Conquista, às 12h, e nos hospedamos no Hotel Aliança, que não existe mais. Às 14h, assistimos à instalação provisória do governo de Lomanto Júnior, naquela cidade, em uma casa perto da Prefeitura local. Na oportunidade, discursaram o prefeito de Vitória da Conquista, José Pedral Sampaio, e o próprio governador. Às 16h, estávamos presentes à abertura de mais uma Exposição de Pecuária, no Parque Teopompo Almeida. Nos dias 27, 28 e 29, Lomanto Júnior manteve reuniões, no Clube Social de Conquista, com prefeitos da Região Sudoeste, ao lado de todo o seu secretariado, tratando de assuntos previamente agendados, como transportes, saúde, educação, segurança pública, saneamento e eletrificação (naquele tempo, quase todas as cidades do Sudoeste eram servidas por grupos geradores e apenas Jequié e algumas poucas por ali tinham energia da Hidrelétrica de Funil, no Rio de Contas, e nem sonhavam com Paulo Afonso).

Finalmente, na quinta-feira, 30, bem cedo, toda a comitiva do governo do Estado se deslocou, de Vitória da Conquista para a divisa Bahia-Minas, pois que a inauguração da Rio-Bahia seria àsh30min. Os jornalistas fizeram o mesmo caminho, passando pela cidade de Cândido Sales, ponte do Rio Pardo e chegando à pequuena cidade de Divisa Alegre (MG), ali bem juntinho do palanque (do lado baiano, fica o território do município de Encruzilhada, mas a cidade fica distante).

Passados alguns dias e meses, eu fiquei sabendo que estiveram ali mais algumas pessoas de Itapetinga, dentre elas Juvino Oliveira, José Vaz Espinheira, José Iracildo da Franca, Júlio Alberto Filho, Júlio Ferreira Coelho, Américo Nogueira de Souza. Apenas meu primo e quase irmão Fidelino Lopes Ribeiro (Deda) tive a oportunidade de abraçar.

Quatro foram as autoridades que discursaram: ministro Hélio de Almeida, governador Magalhães Pinto, governador Lomanto Júnior e presidente João Goulart. Às 11h, o presidente Goulart e o ministro Hélio de Almeida cortaram a fita simbólica da grande festa e estava oficialmente inaugurada a Rio-Bahia (BR-4) asfaltada. Existe uma foto publicada pela revista “Manchete”, em que aparecem os dois cortando (ou desatando) a fita com o repórter do “DN” testemunhando o acontecimento. Peço à amiga Portellinha o obséquio de publicá-la. Fico agradecido.

No seu discurso, João Goulart disse que “esta rodovia, de 1.621 quilômetros, é uma afirmação da capacidade dos nossos engenheiros e espírito de equipe de nossos técnicos. Afirmação, na cidade, dos nossos administradores, que têm fé no desenvolvimento do Brasil. É a vontade do progresso do nosso povo”. Considerou que a Rio-Bahia era “a maior obra rodoviária asfaltada e entregue ao tráfego, nos últimos anos, em todo o mundo”. E encerrou o seu discurso de 20 minutos com estas palavras: “É assim que reformaremos o Brasil, vencendo a batalha do progresso e entregando aos nossos filhos a pátria que recebemos de nossos pais”.

Quanto à Rio-Bahia, propriamente dita, que em 1963 era a BR-4, hoje é a BR-116, muito mais longa, ligando Forteleza (CE) a Jaguarão (RS), na fronteira com o Uruguai. Tem a extensão de 4.385 quilômeros, passa por dez estados (Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia, Pernambuco e Ceará), ligando cidades como Jaguarão, Pelotas, Porto Alegre, Canoas, Novo Hamburgo, Caxias do Sul e Vacaria (RS); Lages (SC); Curitiba (PR): São Paulo e São José dos Campos (SP); Volta Redonda, Rio de Janeiro, Niterói e Teresópolis (RJ); Leopoldina, Muriaé, Caratinga, Governador Valadares e Teófilo Otoni, Itaobim, Medina e Divisa Alegre (MG); Cândido Sales, Vitória da Conquista, Poções, Manuel Vitorino, Jequié, Milagres, Santo Estevão, Feira de Santana, Santa Bárbara, Serrinha, Teofilândia, Araci, Tucano, Euclides da Cunha e Macururé (BA); Salgueiro (PE); e, Juazeiro do Norte, Quixadá e Fortaleza (CE). Hoje, é a maior rodovia totalmente pavimentada do país. Em alguns trechos, a BR-116 toma nomes diferentes: entre Rio e São Paulo, é a Via Dutra; entre São Paulo e Curitiba é a Régis Bitencourt; aqui, no Nordeste, o trecho Feira de Santana-Fortaleza já foi denominado de Transnordestina, mas hoje só se ouve falar BR-116.

Há um fato a considerar: quando uma rodovia é construída, passa por fora das cidades, mas estas crescem e a rodovia passa a ficar na área urbana. Em Vitória da Conquista, a Rio-Bahia foi construída passando por fora da área urbana, mas os loteamentos tomaram conta de tudo a cidade cerco a rodovia. Posteriormente, fez-se um desvio, que, queira Deus, não seja novamente cercado pela cidade. Em Jequié, foi um pouco diferente: inicialmente, a rodovia foi construída passando por dentro da cidade, aproveitando uma ponte já existente sobre o rio de Contas, que liga o centro urbano ao bairro do Mandacaru. Posteriormente, com a pavimentação da rodovia (1963), construiu outra ponte, a alguns quilômetros rio acima, para a rodovia passar por fora da cidade. Pois não é que a cidade chegou até lá! Ali, formou-se o bairro Cidade Nova e a Rio-Bahia ficou também por dentro, em Jequié.

Atualmente, a antiga Rio-Bahia e mais a Salvador-Feira formam, praticamente, uma mesma rodovia. É que o governo Lula, já no final de 2010, privatizou o trecho que abrange Salvador-Divisa de Minas e a ganhadora da concorrência foi a empresa Via Bahia Concessionária de Rodovias S/A. Agora, em 2011, no governo Dilma, foi efetivado o contrato de privatização e implantadas sete praças de pedágio nos seguintes locais: município de Simões Filho; município de Amélia Rodrigues; Rio Paraguaçu, no município de Rafael Jambeiro; divisa dos municípios de Brejões e Nova Itarana, próximo à cidade de Milagres; município de Jequié, pertinho da cidade de Manuel Vitorino; proximidade da cidade de Planalto; e no município de Vitória da Conquista, tendo como ponto de referência o distrito de Veredinha. As tarifas variam, de acordo com o veículo. Por exemplo, no trecho Salvador-Feira um automóvel paga R$ 1,60 e uma carreta de três eixos paga R$ 14,20, em cada praça de pedágio. No trecho Feira-Divisa de Minas, um automóvel paga R$ 2,80 e uma carreta paga R$ 24,29, também em cada pedágio. Existem preços intermediários, sempre considerando o tipo, o peso e o número de eixos do veículo. A tabela é grande e incluiu também bicicletas e motocicletas.

A privatização tem como objetivo a conservação e duplicação da pista, no trecho Feira-Divisa de Minas. Espera-se que o contrato seja cumprido, com vem acontecendo na Estrada do Coco (rodovia estadual), entre Salvador e Praia do Forte, no município de Mata de São João. Ali, a rodovia já está quase toda de pista duplicada e bem conservada. Não se vê buracos, a sinalização é perfeita e a fiscalização é rigorosa. Nas mãos do governo, é uma buraqueira sem fim. Na mão do particular, é uma beleza. Foi, é e será sempre assim.

É, por aqui, termino esta série de artigos – parecidos com reportagens – sobre as principais rodovias do Sudoeste da Bahia. Este último trabalho dedico a meu amigo Antônio Brito Borges, filho da cidade de Jequié e que ali vive desde quando nasceu. É comerciante, foi craque dos bábas no areião do Rio de Contas e, do alto dos seus 73 anos, ama a cidade em que nasceu.

 

 

 

* Emerson Campos é advogado, jornalista e escritor

 

Um comentário para “As rodovias da região – III”

  1. Adenor F.S.Rodrigues,
    26 de agosto de 2012 às 17:02 #

    Ao nobre Jornalista, Emerson Campos, meu conterranio, eu sai de Itapetinga para Salvador 1953, com o bjetivo, de servir na Base Aeria, fiz o a listamento eles marcaram á data para apresentaçã, como ia demorar, omeu cunhado era cacheiro viajante, ou representante de louças mariem, viaja direto por todo interior, ele mé convidou para viaja com ele eu topei, o veiculo dele era um jipinho velho 1937, daqueles americanos de guerra, passamos á viajar por todas estas estradas que voçe sitou que na epoca só existia poeiras é buracos, caminhões capotados com mercadoris estragadas, é muitos desastres com todo tipo de veiculos, muitos animais atropelados, as estradas sem estrutura, tinhamos que conduzir um tambor de gasolina de 20 litros, quando chegavamos nas pençôes ao tomar banho era só barro sofri muito com poblemas de garganta, apesar de estar com um lenço tentando mé proteger da poeira, estas historias que são levado ao publico parece ser uma gracinha,Belem Brasilia, é P/A,70, com caminhão, este era o nosso Brasil, de 500, anos de descoberta, mais a minha teze a tualmente, é o seguinte quem descobrio onossa Brasil, foi o Saudoso Juscelino Kubitschek, os Portugas veio aqui surrupiar o nosso ouro estes dias foi mostrado na TV, que eles estão vendendo todo ouro retirado do nosso Brasil, os primeiros 02 automoveis mod/ JK Fabrica Nacional de Motores, antiga FNM, eu tive á honra de ser Motorista ofiçial, a serviço do ex/ Ministro Alfredo Buzaide,

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