As Rodovias da região – II

De importância econômica essencial para todo o Brasil, a atual rodovia BR-116, que se estende por 4.385km, de Fortaleza (CE) a Jaguarão (RS), foi inicialmente apenas a Rio-Bahia (BR-4), ligando a cidade do Rio de Janeiro a Salvador, na Bahia. No ano de 1937, ditadura de Getúlio Vargas, o governo voltou-se, com muita decisão para a construção de estradas de rodagem, mesmo sem asfalto, muito caro e difícil, naquele tempo. Eram as estradas de terra que surgiam, na base do cascalho ou macadame, que significam a mesma coisa. Motoristas e passageiros enfrentavam muita lama ou poeira. Porém, o progresso era anunciado a chegar com velocidade, a galope. Foi confirmado.

Naquela distante década de 30, do século passado, foi ministro de Viação e Obras Públicas o engenheiro baiano João Marques dos Reis, que ficou no cargo de 25.06.34 a 29.11.37 e foi quem sentou à mesa com Getúlio Vargas para incentivá-lo à construir a Rio-Bahia. E Getúlio aceitou muito bem a idéia. Engenheiros, arquitetos e desenhistas debruçaram sobre as pranchetas e o projeto saiu rápido. Com o golpe do “Estado Novo”, mudou-se todo o ministério e para a pasta de Viação e Obras Públicas foi nomeado o engenheiro gaúcho João de Mendonça Lima, que permaneceu o cargo de 30.11.37 a 30.10.45, data da deposição do presidente Getúlio Vargas. Foi esse ministro quem praticamente construiu toda a estrada, iniciada em 1939.

E, num belo dia, o então prefeito de Conquista, Luiz Régis Pacheco Pereira, com um ano no cargo, recebia a notícia vinda do interventor federal na Bahia, Landulfo Alves de Almeida, e transmitia a toda a população: uma estrada de rodagem denominada Rio-Bahia seria construída passando pela cidade. Conta-se que essa foi uma das notícias mais importantes obtidas pelos conquistenses, em todos os tempos. E olhe que a rodovia Ilhéus-Lapa, passando pela cidade, já estava em construção. Um cruzamento rodoviário desse tipo era um presente do tamanho do mundo e que se tornou no maior impulsionador do progresso da cidade e de toda a Região Sudoeste da Bahia. Outros presentes vieram, é certo, mas quase tudo em decorrência do surgimento da Rio-Bahia. Salvador, Feira de Santana, Jequié, Poções, Itapetinga, Brumado, Bom Jesus da Lapa, outras e mais outras cidades e até Itabuna e Ilhéus foram bastante servidas e agradecidas.

Nesse tempo, foi criado o DNER (Departamento Nacional de Estradas de Rodagem), que só foi estruturado e passou a ter orçamento próprio, como autarquia, em meados da década de 40. Esse importante órgão público construiu mais de 20.000km de estradas de rodagem pelo Brasil todo e colaborou com os estados e os municípios mantendo milhares de quilômetros de estradas vicinais. Hoje, infelizmente, nem existe mais DNER, que foi o órgão público melhor administrado no Brasil, em todos os tempos. Para colher dados para este trabalho, este articulador esteve no DNIT (Departamento Nacional de Infra-estrutura e Transporte) e os funcionários do antigo DNER, quase às lágrimas, criticam muito a mudança havida nos últimos oito anos. Até eu senti a diferença. Por exemplo: não existe mais biblioteca; os livros estão jogados numa sala, sem nenhuma proteção. Não consegui pesquisar neles. Por causa de rachaduras no teto, pingos d’água molham tudo. A memória do DNER, ali, está morrendo. O prédio, no seu todo, não tem recebido reformas, com o piso faltando ladrilhos, aqui, ali e acolá; elevadores quebrados; portas sem fechaduras; cheiro de lixo por toda parte. Tudo acabado. Infelizmente, tive que escrever estas linhas. Lamentável, profundamente lamentável.

Ainda com Getúlio Vargas, foi iniciada a rodovia Transnordestina, ligando Feira de Santana (BA) a Fortaleza (CE). As obras prosseguiram, algumas vezes na maciota, e aceleradamente, outras vezes, durante os governos de Dutra (1947-1950), 2º governo Vargas (1951-1954), Café Filho (1954-1955) e Juscelino Kubitschek (1956-1971). A Transnordestina somou-se à Rio-Bahia para trazer muito desenvolvimento a todo o Nordeste e a cidade de Feira de Santana foi altamente beneficiada e tornou-se o maior e mais importante entroncamento rodoviário da região e um dos principais do país. Por ali passam, começam ou terminam a BR-116, BR-101, BR-324, BR-242, BR-407 e BA-052 (estrada do Feijão). Não é por acaso que Feira de Santana tem hoje uma população que se aproxima de 600 mil habitantes e é maior do que várias capitais de estados, como Porto Velho, Rio Branco, Boa Vista, Macapá, Palmas, Aracaju, Vitória, Florianópolis e Cuiabá, isoladamente. A Rio-Bahia (hoje BR-116) foi a pioneira, pois lá no começo essa rodovia ligava Salvador ao Rio de Janeiro. Atualmente, o trecho Salvador-Feira é a BR-342.

Desviei-me um pouco de verdadeiro assunto, que diz respeito às rodovias da Região Sudoeste da Bahia, principalmente no círculo Itapetinga-Vitória da Conqusta-Jequié. Mas, aqui “pego, outra vez, o fio da meada”, para contar um caso ou “causo”, numa homenagem a Judith Jabur de Moura, escritora amiga já falecida, pois que ela gostava de contar “causos”.

A primeira vez que eu vi e conheci a rodovia Rio-Bahia foi no dia 23 de agosto de 1946, quando quase todos lá de casa – onze pessoas vítimas de uma epidemia de sarampo – viajavam, de ônibus, para Aracatu (perto de Brumado), à procura de melhores ares para a saúde. Quando aproximávamos de Vitória da Conquista, meu pai, Mariano Campos, mostrou-nos os cortes (barrancos) na cor vermelha, da nova rodovia, na serra do Periperi. E, logo depois, cruzávamos com a própria, ali onde hoje acaba a Avenida Régis Pacheco e começa a Avenida Brumado, no cruzamento com a Avenida Presidente Dutra (esta via pública era a Rio-Bahia passando por fora de Vitória da Conquista). Nesse lugar, existia apenas capoeira (mato de cipó) e ainda sinais de um acampamento para trabalhadores.

Outro “causo”. Em 1952, quando este articulador, ainda bem jovem, e mais 36 estudantes de Itapetinga retornávamos do Colégio Taylor-Egídio, em Jaguaquara, para as férias de fim de ano, fazíamos a viagem em um caminhão “pau-de-arara”, de José Vaz Sampaio, pai de nosso colega Carlos e de D. Julita, então esposa de Nelson Oliveira, e percorríamos a Rio-Bahia no trecho Poções-Vitória da Conquista, mais do que de repente surgiu uma ema correndo, em paralelo, na mesma direção e velocidade que o caminhão, à nossa direita, entre a pista e a cerca. O caminhão estava a uns 70km por hora e a ema também. Infelizmente, a ema se embaraçou com algumas pequenas árvores e nós perdemos uma boa recreação, naquela tarde de muito sol, calor e poeira. Foi bonito!

Estimados leitores, ainda terei um terceiro artigo sobre a Rio-Bahia, mostrando o seu asfaltamento e a rodovia dos dias atuais, com a privatização, os pedágios e a sonhada duplicação.

 

* Emerson Campos é advogado, jornalista e escritor

emersoncampos@bol.com.br

 

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