As metástases de Lula

Luiz Inácio Lula da Silva está com câncer. O diagnóstico foi obtido recentemente e acusou um tumor na garganta do ex-presidente. A hipótese de cirurgia para solucionar o problema foi descartada por se tratar de um procedimento de alto risco que poderia comprometer suas cordas vocais, retirando-lhe a capacidade da fala.

A equipe médica optou pela quimioterapia, e está muito otimista, pois, mesmo sendo um quadro bastante sério, a resposta ao tratamento é bem positiva com ótima expectativa de regressão. Além disso, como o mal foi descoberto ainda no começo, as possibilidades de cura se aumentam. É um tumor maligno, mas que ainda está localizado, não tendo se irradiado para nenhuma outra parte do organismo do ex-presidente. Não há metástases.

Sendo ele a figura pública que é, muitas manifestações surgiram acerca de sua doença e de seu tratamento. Felizmente a maioria delas trazia mensagens de otimismo e solidariedade. Mas algumas, entretanto, resvalaram no mau gosto.

Chegou-se até a tentar criar uma campanha, para que ele fosse atendido e tratado pelo SUS. Isso porque, em certa oportunidade, quando ainda presidente, numa inauguração de um centro médico qualquer Brasil afora, ele houvera dito: “Isso está tão bom que dá até vontade de agente ficar doente para ser atendido aqui”.

Ora, qualquer criança sabe que não se pode levar exatamente ao pé da letra tudo o que ele fala, pois frequentemente saem algumas asneiras de dar dó. Ao longo de seus mandatos, foram tantas pérolas produzidas por ele, que se todas fossem compiladas teríamos, no mínimo, um divertidíssimo anedotário. Por isso, defender a ideia de que ele deva ser atendido pelo SUS, só por causa de mais uma dessas suas frases ocas, é algo que deve ser considerado muito mais como ironia e sarcasmo – bem inoportunos, diga-se de passagem – do que propriamente como sugestão a ser ouvida com seriedade.

Até porque todos sabem que o Sistema Único de Saúde de nosso país ainda precisa evoluir muito, e decididamente não oferece o que há de melhor em recursos da medicina. Talvez daqui a algum tempo de aprimoramento, com uma aplicação de recursos bem direcionada, isso venha a ser possível. Mas hoje, infelizmente, nossa rede pública de saúde não é o local mais indicado para que ele realize seu tratamento.

Por outro lado, por mais que todos sejam iguais perante a lei, Lula não é qualquer um. Trata-se de um ex-presidente da república. Só isso, pela grandeza do cargo que ele ocupou, já é o suficiente para que lhe seja dispensado um tratamento diferenciado em qualquer ocasião. O país lhe deve essa reverência.

Além do mais, ele não foi um presidente qualquer. Com sua incrível saga de retirante nordestino, torneiro mecânico e líder sindical sem instrução superior, que conseguiu alcançar o topo mais elevado de uma carreira política, ele, mesmo em vida, já faz parte da história do Brasil. E mais ainda, com sua capacidade de articulação e de liderança, e com seu carisma inigualável, ele desmistificou a Presidência da República, fazendo com que a população se sentisse próxima e identificada com a figura do Presidente, “como nunca antes na história desse país”. E é adorado por isso.

Portanto, Lula não apenas pode, mas deve e merece buscar o que houver de melhor para tratar de sua saúde. Onde quer que estejam os melhores profissionais, os melhores médicos, os melhores hospitais, os melhores equipamentos é para lá que ele deve ser conduzido, para que se obtenha sua cura o quanto antes e da maneira mais eficaz possível. Que assim seja.

E é assim que será. Sobretudo porque além de poder ter acesso ao que de melhor a medicina oferece, ele mesmo já deu sinais de que será um paciente disciplinado, que obedecerá a todas as recomendações que lhe forem prescritas. A começar por ter aceitado resignadamente a possibilidade de não desfilar no próximo carnaval pela escola de samba paulista Gaviões da Fiel, que estará lhe homenageando em seu samba enredo.

Ainda bem que ele está se comportando assim. Pior seria se agora, como paciente, ele adotasse a mesma atitude que teve quando, em certa ocasião, o destino lhe reservou o papel de médico. Sim, médico! Porque, há algum tempo, passou por suas mãos um paciente, também acometido de um câncer dos mais graves e agressivos, e justamente ele, naquela época, é que teve a missão de ministrar o devido tratamento.

O nome do paciente? Governo. O tipo de câncer? Corrupção.

Naquela oportunidade, ainda no início de seu mandato, ele recebeu em mãos um diagnóstico preciso, inquestionável, escancarado do mal que acometia seu governo (lembram?). Nomes, fatos, lugares, valores, todas as informações sobre a grave moléstia vieram à tona. Uma constatação da qual não se podia escapar.

A doença em seu governo estava ainda no estágio inicial. Tudo estava no começo quando foi descoberta. Havia a possibilidade concreta de se aplicar um tratamento eficaz, cirúrgico, para extirpá-la na origem. Um mal que poderia ter sido cortado na cepa. Ele dispunha de recursos e respaldo para isso. Tivesse adotado esse prognóstico e talvez seu paciente hoje apresentasse outro quadro de saúde.

Todavia sua prescrição foi outra. Ao invés do ataque, ele optou pela convivência. Abdicou de qualquer tratamento mais ostensivo, para ser tolerante com o carcinoma. Então o mal criou raízes, cresceu, impregnou-se no corpo de seu paciente, multiplicando-se para atingir vários de seus órgãos, em metástases que talvez pudessem ter sido evitadas. E hoje, infelizmente, o que se vê é um organismo gravemente infeccionado, padecendo de uma doença inteiramente alastrada.

Todavia, alenta saber que esse doente agora está sob o comando de uma “médica” que parece ser mais diligente; que parece mais disposta a usar todas as terapias disponíveis, por mais agressivas que possam ser, para exterminar em definitivo essas células disformes. Nisso ela aparenta estar sendo implacável.

O problema é que, quando se descobre e se combate um foco, logo surge outro. Casa Civil, Ministério da Agricultura, dos Esportes, dos Transportes, todos foram órgãos que já se revelaram contaminados. Uma seqüência verdadeiramente impressionante, que só demonstra a agressividade desse câncer, e as conseqüências severas pelo fato de não ter sido oportunamente erradicado. Uma forma de… “herança maldita”.

Tomara que a atual “médica” não abdique do tratamento que parece estar ministrando (com o perdão do trocadilho), pois, por mais que a doença em seu paciente se mostre grave e alastrada, sempre haverá esperança de cura.

E, mais do que tudo, tomara que os médicos que estão cuidando de Lula combatam sem trégua o seu câncer. Afinal, talvez ele, agora mais do que ninguém, bem saiba que quando se está diante de um mal, o certo é combatê-lo, jamais ignorá-lo, fingindo nada saber, pois as conseqüências podem ser terríveis.

Saúde e vida longa ao ex-presidente!

 

 

* Adriano César Pessoa de Alcântara é advogado

alcantara.adriano@hotmail.com

 

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