Aqui se faz, aqui se paga

15252823_5CK7kMonique Azeredo, depois de circundar a casa, sentou-se, como sempre o fazia, ao pé do jasmineiro. Pensativa, nem notou que naquela frágil árvore, em seu outono, como agora, seus galhos mais se parecem a braços nus e famintos implorando aos céus. Levantou-se vacilante e se aproximou do canteiro de boa-noite, apreciando suas flores de mistura rósea e alva, com o centro rubro. O nome de Renato Sampaio, um belo e airoso rapaz, cobiçado partido pelas fêmeas circundantes, descendente de uma das mais tradicionais famílias de Belo Horizonte, veio-lhe à mente, fato que estava acontecendo quase a todo instante. Não tinha, ainda, por mais que se esforçasse conseguido decifrar o porquê do rompimento de seu noivado, razão pela qual seu pai, Orlando, insistiu e, com a benevolência necessária de momento, conseguiu que ela fizesse uma viagem de recreio até Maceió, nas ambicionadas Alagoas, centro nacional de concorrido turismo. Bem sabia que seu velho e querido genitor só queria que ela se distraísse, esmerado espectador de todas aquelas circunstâncias.
A monumental e requintada residência de veraneio, situada em Escarpas do Lago, município de Capitólio, Minas Gerais, edificada em loteamento projetado e organizado pela Construtora Mendes Júnior, que, aliás, construiu a monumental barragem iniciada no Governo JK, com o esmero que caracteriza o criterioso engenheiro Orlando, contém doze suítes, não só para a família, como para os numerosos e selecionados hóspedes do proprietário, dispostas em longos corredores que ladeiam uma imensa sala de jantar, encimada por uma altíssima cumeeira, em madeira de lei, como as demais dependências salão de jogos e cozinha enorme, digna dos grandes hotéis e restaurantes, fica às margens do lago de Furnas, rodeada de bem cuidados jardins e gramados, tendo, no final no trajeto de chegada, garagem para inúmeros veículos, além de vagas demarcadas ao seu derredor.
É bem verdade que Monique, alta, linda e cobiçada morena bronzeada e de encantadora mineirice, seios proeminentes, ser serem grandes, rijas e roliças coxas que lhe completavam um corpo escultural, ardorosa fã de lanchas, esqui aquático e jet-ski, reconhecida pela sua perícia ali no tranquilo e cobiçado lago à sua frente, há dias nem sequer se aproximara do longo píer, com várias embarcações nele atracadas. Sentia-se, ademais, frustrada com tudo o que lhe vinha acontecendo, na certeza de que, – ela e Renato -, amavam-se o bastante para que uma bobagem qualquer viesse a separá-los. Era deixar o tempo correr, para ver.
Às dez e meia de um dia nublado, mas em condições normais para voar, o Falcon de Orlando decolou do aeroporto das Centrais Elétricas de Furnas, ali perto, com destino a Maceió e ela sentiu certo alívio por ter atendido a seu dileto e sábio pai. Eram apenas uns oito dias, aproveitando o verão nordestino, porquanto mar e praia, dos mais belos do país, não fazem mal a ninguém.
Depois de Monique se deslumbrar, minutos antes da chegada, com a imensidão do oceano Atlântico, ora verde e ora de um azul intenso, o veloz e confortável jatinho aterrissou no Aeroporto Internacional Zumbi dos Palmares, precisamente às doze e trinta horas do mesmo dia. Ao preencher a ficha do badalado e requintado cinco estrelas – Jatiúca Praia Hotel e Resorts -, ali na praia de mesmo nome, recebeu um pacote de programas turísticos, diurnos e noturnos, elaborados especificamente para agradar aos ilustres hóspedes, sempre gente do mais fino trato e de bolso recheado de grana.
Pois foi gozando um destes momentos de lazer que a mineira viveu um verdadeiro pesadelo, no seu terceiro dia de passeio. Conhecera dois irmãos, Paulo e Cláudio Conegundes, sarados e garbosos rapazes interioranos, à beirada da imensa piscina do Jatiúca, que se portaram, a princípio, como dois gentis cavalheiros. Em assim procedendo, durante o jantar, convidaram-na para um passeio, no dia seguinte, num ponto turístico reconhecidamente famoso. Tratava-se de uma cachoeira, próxima à Praia do Gunga, nas proximidades de Maceió, após uma trilha que só se podia vencer de jipe ou similar. Era realmente um local maravilhoso e indescritível, só que bastante despovoado.
Na oportunidade, um motorista ao volante do jipe, Paulo e Mônica no banco de trás e Cláudio no da frente, dispuseram-se a mostrar à moça onde começava a queda-d’água. Ao contornarem um imenso coqueiral, típica e característica vegetação das regiões praieiras do nordeste brasileiro, o motorista, já adrede instruído, simulou um inesperado defeito no motor do veículo. Fingindo mostrar-lhe a deslumbrante paisagem, quando circundavam uma gigantesca pedra, Cláudio agarrou a indefessa moça, que, aturdida, levou um susto aterrador. Ela tentou dialogar, prevendo o pior que podia lhe acontecer, mas, com incomum selvageria, os rapazes não lhe deram ouvidos. Foi socada e empurrada contra a pedra, onde bateu a cabeça e começou a sangrar. Pediu, aflita, ajuda ao Paulo, que lhe parecia mais sério, porém ele se aproximou, rasgou-lhe a roupa de praia, desde cima a baixo, e a amordaçou com um trapo da mesma. Imobilizada e indefesa foi estuprada pelos dois, com a cínica cooperação do motorista, um verdadeiro capacho deles, que ainda lhe socou o rosto.
Monique conseguiu, milagrosamente, desvencilhar-se dos três e escapou quase nua, em desabalada carreira e já sem mordaça, esgoelando por socorro, com todo seu fôlego. Estava ainda sendo perseguida pelos canalhas e eis que um praiano, colhendo cocos, caído do céu, veio em sua ajuda, fazendo-os dispersar, ameaçando-os com seu amolado e profissional facão de cortar os ditos frutos.
Já era noitinha quando voltou ao hotel, montada no dorso do jumento de seu bendito redentor, coberta com um vestido emprestado pela esposa.
Por incrível que possa parecer, assim que pôde colocar a cabeça no lugar, ela não telefonou para seu pai, como deveria acontecer, e sim para o seu guapo Renato, apostando intuitivamente na solidariedade do seu ex-noivo, mas ainda seu amado. Ele, então, muito indignado, mas sensato, recomendou-lhe calma, que ela procurasse imediatamente um hospital e cientificasse o ocorrido à direção do hotel, prometendo encontrá-la no dia seguinte, o mais cedo possível.
Já na capital de Alagoas, onde conseguira chegar com a máxima urgência, com a direção do hotel souberam que os rapazes eram irmãos, filhos de um abastado fazendeiro de Campina Grande, na Paraíba, sabidos, ali na hospedaria, irresponsáveis e bagunceiros. Renato, bacharel em direito altamente qualificado, levou Monique a uma delegacia, apresentou ao delegado titular o laudo dos exames periciais e pediu, após a grave denúncia, instauração de inquérito, informando ainda que os moleques já haviam viajado e abandonado o hotel e que o vendedor de cocos, de nome Círiaco Alves de Jesus, dispusera-se a depor como testemunha, única que era.
Passaram-se alguns meses e nada foi resolvido pela polícia alagoana, uma vez que, pedida a colaboração das autoridades de Campina Grande, aquelas eram submissas ao endinheirado fazendeiro, cujo grotesco e bem-humorado comentário restringiu-se a que aquilo se tratava de mais uma brincadeira de seus endiabrados meninos.
Renato e Monique casaram-se e passaram a morar no Rio de Janeiro, onde ele fizera seu curso superior e mantinha, há algum tempo, a chefia do departamento jurídico de conceituada firma de importação e exportação. Advogado e administrador de renome, Renato, que já fora criminalista, conhecia boa parte da polícia, bem como um variado número de marginais cariocas, aos quais já teria prestado, anteriormente, seus préstimos profissionais, inclusive em seus estágios universitários.
Como o ricaço fazendeiro de Campina Grande era proprietário de engenho de cana, especulou-se se o mesmo teria interesse em exportar sua produção de açúcar. Foi aí que ele, Renato, bancou o próprio exportador e engendrou uma maneira de reparar os danos sofridos por sua, já agora, venerada consorte.
Feitos os longos e necessários telefonemas, como contatos comerciais, sugeriu-se a vinda dos filhos de confiança, Paulo e Cláudio, até o Rio, a fim de se manterem os entendimentos finais, o que realmente aconteceu sem muita delonga.
Nunca é ilógico relembrar que os rapazes não conheciam o Rio de Janeiro, nem o intermediário Renato, agora sentado diante deles ali no seu escritório, demonstrando uma capacidade profissional insuspeita. Firmados os necessários e imprescindíveis contratos exportadores, os filhos do nababo como seus procuradores, marcou-se um encontro na – Boate Fossa – para as devidas comemorações. Explicou-lhes o causídico que a boate não era das melhores do Rio, mas que as meninas que a frequentavam eram, além de, em regra, gostosas, as mais liberais cariocas que se podia conhecer, o que lhes agradou desmedidamente.
À noite, as mais nobres bebidas rolavam fartas na boate, o interesseiro mulherio cercava os dois ricos nordestinos, que se divertiam como nunca. Renato foi chamado intencionalmente ao telefone, afastou-se um pouco da mesa, dirigiu-se à cabine e nem pôde ver quando a polícia, numa inesperada batida, invadiu a manjada casa noturna, alardeando uma busca deliberada de todo tipo de droga. Começou uma revista criteriosa em cada um dos presentes indiscriminadamente. Eis que ao abordarem os felizes e já calibrados paraibanos, foi encontrada uma pequena quantidade de cocaína e baseados nos bolsos do paletó de cada um. Atordoados e estupefatos, sem saber como aquilo lhes aparecera, mas, agindo como se estivessem em Campina Grande, tentaram engrossar e foram arrastados e jogados num camburão, ainda sem saberem onde se encontrava Renato, àquela altura dos acontecimentos.
Alegando que já era bem tarde da noite, o sonolento delegado que os recebeu mandou sumariamente trancafiá-los, prometendo enquadrá-los no dia seguinte.
Paulo e Cláudio foram jogados numa cela superlotada e entre delinquentes da pior espécie. Só de cuecas e pés descalços, os dois sentaram-se num canto mais isolado do local, assustados e temerosos, tentando dormir um pouco, alimentando a esperança de que amanhecesse o mais rápido possível, quando então iriam iniciar contatos e contratar um grande advogado local, com a devida referência de seu arrogante pai.
Três elementos barbudos e mal encarados, dos mais fortes que ali se encontravam, acercaram-se dos rapazes, agarraram o primeiro à mão, Paulo, subjugaram-no e seviciaram-no, um a um dos três, sem dar atenção aos terríveis gritos que externava, enquanto os demais detentos riam à solta e incentivavam. A seguir fizeram o mesmo com Cláudio, que veio a desmaiar durante a brutal tortura, de uma crueza inimaginável.
Na manhã seguinte, humilhados e cabisbaixos, foram levados à presença do delegado de plantão, para uma inusitada surpresa: na sala do policial lá estavam Renato e Mônica, que desoladamente reconheceram e lhes foi apresentada como esposa do bacharel. Ao devolver-lhes os contratos firmados, Renato disse-lhes que um táxi estava à disposição, para levá-los ao hotel onde se hospedaram, o outrora sonhado Copacabana Palace.
Sem terem visto o burburinho da Cidade Maravilhosa no percurso, um pranto incontrolável tomou conta dos jovens irmãos, sem a mínima piedade do motorista, sabedor que se tornara das razões que os levaram àquele copioso choro, que durou até chegarem ao quarto do hotel. Sem se olharem e com a cabeça entre as mãos, encharcavam o tapete que lhes ficava aos pés.
Decorrido um bom tempo, uma coisa rígida levantava o queixo do Cláudio. Paulo, trazendo nas mãos seus revólveres, com os olhos rubros e dilatados, ofereceu um deles ao mano, apontou sua arma para a cabeça dele, enquanto, ensandecido, sugeria ao outro que o imitasse.
Dois estampidos simultâneos ecoaram bem longe e selaram suas jovens e desregradas vidas.
Enquanto isso o Rio de Janeiro continua lindo.
Tiãozito, março de 2016

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