Aqui já passou boi, passou boiada!

Este trecho liga o Ponto da Onça ao Ponto do Garrafão, e, salvo engano, essa estrada ainda é a mesma construída por Bernardo Lopes Moitinho, genro do Cel. João Gonçalves da Costa que foi o responsável pela construção da última estrada real ligando o Litoral sul da Bahia, ao sertão do Planalto da Conquista por projeto aprovado pela Câmara Municipal de Ilhéus, em sessão de 11 de janeiro de 1841. A empresa executora da obra aproveitou as picadas feitas por Bernardo Lopes Moitinho que anteriormente concluiu trechos desta mesma estrada constante do livro. “Itapetinga: a persistente busca de sua história” – P/31 – Emerson Campos.

 

Antiga Estrada Real de Ilhéus a Vitória da Conquista

Relembrando, pois, com saudade, o tempo dos precários meios de transportes que aqui existiram, até uns 70 anos passados, mergulhamos numa longa viagem de volta ao passado até nos situar nos últimos anos das grandes tropas e tropeadas, guiadas por uma pequena mula de reata realçada pelo brilho dos metais especiais e pelo som tangido dos chocalhos ou polacos pendurados ao pescoço, que se chamava “madrinha”. O som produzido pelo equipamento que aquele animalzinho portava, fazia todo mundo correr para a porta a fim de ver, de perto, passar a tropa e seus tropeiros.

Essas tropas trabalharam paralelas aos velhos carros de bois, marcados por um gostoso barulho emitido pelo contacto do eixo nos mancais das gigantescas rodas de madeira com aro de ferro e guiados por seus carreiros trajando gibão, caneleiras e chapéu de couro. Nas folgadas algibeiras pacotes de finas palhas de milho para enrolar o cigarro de fumo de corda, também um afiado canivete, um isqueiro movido a pedra e pavio de algodão, poluindo o ar com fortes baforadas de fumaça. Na mão uma longa vara de ferrão que servia para futucar os bois a acelerarem os passos para avançar a viagem. A partida era dada pelo comando de voz do carreiro: eia, eia, avante. O breque, da mesma forma, também era a própria voz de comando do carreiro, ôa, ôa, pára.

Entretanto, foram esses rudes profissionais do campo que por muito tempo se responsabilizaram pelo transporte das mercadorias de primeira necessidade; e aí se incluiria secos e molhados, ferramentas, produtos farmacêuticos, tecidos, louças, sal de cozinha e especiarias. Esses destemidos tropeiros e carreiros conduziam, sob as intempéries, no lombo dos burros ou no lastro dos seus reforçados carros de bois, todo um progresso da sua época. Eles enfrentavam os percalços do deserto e os transtornos das matas fechadas sob a mira das flechas dos índios e infecção por doenças como: a intermitente malária, impaludismo e febre tifóide pelos corredores da vida.

Entre as décadas de 20, 30 e início de 40 do século XX, o Sr. Aloísio Batista Figueiredo, comerciante e enfermeiro da época em Itapuí, mais tarde, administrador deste distrito, mantinha uma tropa das mais cobiçadas que fazia as linhas Itapuy / Itabuna e Itapuy / Poções e vice-versa. Às vezes a sua tropeada se estendia até a cidade de Jequié levando peles de pequenos animais e trazendo mercadorias de encomendas. Muitos tropeiros de Itororó ficaram bastante conhecidos naquele tempo: Felomeno Fortunato da Silva (Seu Lô) e Gerson Ferreira da Costa que há pouco tempo foram entrevistados pela reportagem da TV Educativa para exibições futuras. Outros ainda podem ser lembrados, porque eles labutaram muito tempo transitando por esses enormes corredores no papel de marchantes: Silerino Coelho, Antonio Ferrador, Minervino Antonio Prates, Zé Mocotó e Laudelino Rodrigues Carvalho.

O cozinheiro da comitiva, também conhecido por “mestre cuca”, partia bem cedo, “na fumaça do gongo” para encontrar um bom lugar para armar a sua cozinha e preparar o almoço da tropeirada ou da peonada e seus capazes que ficavam atrás na rancharia. Mas enquanto ficava pronto o almoço, ele já estava colocando de molho outros ingredientes como: Jabá, toucinho e pés de porco para tirar o sal a fim preparar a feijoada para o almoço e o jantar do dia seguinte.

Nós ainda alcançamos, mas já em fase de decadência, o carro de boi da Fazenda Rancho Alegre, de propriedade do Sr. Juca Leão, nos dando a alegria de uma feliz carona todo sábado pela manhã, guiado por um cidadão de cor chamado Dudu Carreiro, quando atuamos como ajudante de vaqueiro e fazedor de cerca de arame farpado na aludida fazenda. Pudemos também repetir o trabalho pesado de fazedor de cercas, agora de três paus e também de carreiro, no lugar denominado Riacho de Areia na região do Mangerona, na fazenda do Sr. Zito Gomes, entre as fazendas de Zé Caixeiro, Leonísio Pedrosa, Joel de Almeida e o vendeiro Carqueijo.

Existiam naquela época grandes estradas cercadas dos dois lados, por paus roliços conhecidos como cerca de três paus ou, nos tempos mais modernos, por arames farpados. Esses corredores com seus importantes pontos de pouso conhecidos por racharias foram, até início dos anos 40, as principais vias de transporte e escoamento de toda produção rural do Norte para Sul e do Leste para o Oeste – ou vice versa – de uma cidade para outra como hoje são todas elas interligadas pelas rodovias e o uso de carretas.

Com o surgimento da estrada rodagem ou da rodovia, ligando o trecho de Ibicaraí a Itambé, por volta de 1942, por determinação do Governador Landulfo Alves, essas estradas que passou boi, passou boiadas, e também passou boiadeiros, tropeiros, mascates e até o naturalista príncipe alemão Maximiliano Wied Neuwied e os cientistas holandeses Von Martius e Von Spix, lá pelo início do século XVIII, também passou outros viajores, e passaram a se chamar de estradas pedestres.

Porém, durante muitos anos, elas foram as importantes vias de escoamento das diversas produções regionais e ficaram conhecidas como: estradas reais, estradas pedestres, estradas boiadeiras ou, simplesmente, os corredores…

 

 

* Miro Marques é escritor, historiador e radialista

jornaldimensao@yahoo.com.br

 

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