Aos trancos e solavancos

modelo 1Tenho bem presente na memória, tal como muitos também devem se recordar, a euforia com alguns dos mais destacados líderes do PMDB, no clima que se seguiu a eleição e posse da presidente Dilma Roussef, ressaltavam e até festejavam a oportunidade que supunham lhes estar sendo acenada pela nova ocupante do Palácio do Planalto com a promessa de que se tornariam protagonistas do novo governo e não meros apoiadores seus. As entrevistas eram muitas e sempre ilustradas com fotografias de sorridentes próceres peemedebistas, como que antegozando as benesses que lhes estavam reservadas como recompensa pela enxurrada de votos que faziam brotar dos seus redutos e do tempo de televisão, cedido como moeda eleitoral sempre em alta cotação.

Já na constituição do ministério viu-se que a festa tinha acabado. Os melhores lugares, as posições mais destacadas, as pastas contempladas com orçamentos mais generosos, estavam antecipadamente reservados para os donos da casa, o pessoal do PT, configurando-se, na prática, a divisão do bolo com reserva ao leão dos maiores e melhores pedaços da presa, tal como na fábula grega. As cadeiras reservadas às demais legendas, por mais representativas que fossem, não tinham o forro do poder (prestígio político e dinheiro); estavam em fila secundária e sob o olhar da desconfiança da governante maior e do seu partido, cioso de seu hegemonia. Visto sob o ângulo político o PMDB, por sua representação no Congresso Nacional, a conquista de governos estaduais e sua organização partidária espalhada por todo o território brasileiro, ostentava a condição de representatividade e respeito para desempenhar papel de relevo no governo. Era o momento preciso para se impor e exigir a condição de ser protagonista no governo. Mas, por lhe faltar de líderes autênticos, comprometidos com os interesses nacionais e com suficiente envergadura moral para reivindicar o cumprimento dos acordos costurados antes do pleito, o PMDB se acomodou com o naco que lhe foi oferecido, perdeu o trem do respeito público e a oportunidade de firmar a sua posição diante do Governo Dilma. O PMDB de hoje nem de longe lembra o partido que enfrentou a ditadura militar. Cultiva a memória dos seus líderes, mas não foi capaz de produzir nenhum à altura do seu passado e da sua história.

As escaramuças entre o PMDB e o PT, amplamente divulgadas pela imprensa, envolvendo até mesmo ofensas pessoais entre destacados dirigentes dessas legendas, mais parece briga de comadres, bate boca de quem eleva a voz na esperança de que alguém por perto lhes chame a atenção pela pouca educação demonstrada nessa infértil discussão. Para o momento tudo não passa de simples tentativas de acomodação no banco eleitoral, cada um procurando auferir vantagens através da visibilidade proporcionada por algum cargo público. E, nesse embate, está claro que a balança pende ostensivamente para o lado do PT. A intervenção do Luiz Inácio sedeu apenas para acalmar os ânimos do perdedor, com palavras de conforto, tapinha nas costas, massagem no ego de algum mais vaidoso. Em horizonte mais distante, entretanto, o chega – pra lá de agora não passa do preâmbulo da disputa que se avizinha para entronizar o PT como partido do Estado, mantendo as demais agremiações politicas como simples figurantes para lhes darem o respaldo do pluripartidarismo.

As estocadas desferidas pelos dirigentes do PT, sem que nenhuma delas tenha sido desautorizada pela Presidente, deixa transparecer tenham sido adredemente pensadas e autorizadas. O projeto de hegemonia do PT passa naturalmente pelo aniquilamento do PMDB, dito e reconhecido como o segundo maior partido da chamada base aliada. É estratégico, portanto, que se procure diminuir ao máximo a sua representação no Congresso Nacional, minando-lhe, desde as próximas eleições, a sua bancada, especialmente na Câmara dos Deputados, onde a sua atuação tem se mostrado mais recalcitrante às ordens palacianas. O mais curioso neste jogo de xadrez é que a caça não parece preocupada com o caçador, muito embora algumas sentinelas já estejam advertidas a respeito da armadilha preparada. A evidência mostra que o PMDB já foi maior tanto em valores pessoais, quanto em número de eleitos.

Outro detalhe interessante e que não pode passar despercebido nesse burburinho parlamentar é a posição assumida pela Presidente Dilma. A sua passividade faz parecer que ela nada tem a ver com imbróglio, embora esteja a seus pés. Até parece aquela figura familiar da matriarca que deixa os filhos brigarem sabendo que, a um simples rabo de olho, faz parar a disputa. A verdade, contudo, é que essa omissão é apenas o reflexo de seu despreparo para lidar com os problemas políticos do país e com os políticos em particular, de quem ela não faz questão de esconder a sua antipatia. A sua assessoria, por mais especializada que seja, ainda não conseguiu convencê-la de que a Presidência da República é um cargo de representação política e não simples órgão administrativo, cuja posição lhe permita exercitar a lei da prepotência, desferir pitos e fazer desairosas advertências a seus subordinados.

Estes fatos e outros de passado recente me convencem de que a relação politica entre a Presidente da República, respaldada na ortodoxia do PT, e os ditos partidos da base aliada, especialmente o PMDB, se faz entre trancos e solavancos. Até entendo que uma bem refinada ironia desferida em momento próprio é interessante pelo talento que revela o seu autor em exprimir, em sentido contrário, o seu sentimento em relação a alguém, ou a algum fato, de forma depreciativa. Ante as escaramuças comandadas pelo PMDB, e que a Câmara dos Deputados testemunhou, impondo ao Governo sérias e seguidas derrotas em suas pretensões, soa como nítido sarcasmo a afirmação da nossa Presidente dizendo que “O PMDB só lhe de dá alegrias”. A respeito, dois detalhes: houve no partido quem acreditasse tratar-se de um elogio. Lamentável. Outro: o local do pronunciamento: Chile é um pais onde a democracia é levada a sério.

 

* Laécio Sobrinho é advogado

laolsadv@hotmail.com

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