Acabou a campanha, começa a política

padrão destaqueNo último domingo, encerrou-se mais uma disputa eleitoral. Uma semana depois de irmos às urnas escolher o presidente que conduziria nosso país por mais quatro anos, os ânimos parecem começar a serem controlados. Saímos de uma campanha acirrada, bem acirrada. Acusações e mentiras foram destiladas por todos os lados, ofensas das mais baixas também. Os noticiários começaram a perder credibilidade – a começar pela já sem credibilidade revista Veja a passar por inúmeros blogs feitos exclusivamente para espalhar falácias. Foram denúncias sem provas, doleiro que morreu, mas está vivo, revista tirada de circulação… E, para esquentar ainda mais o clima normalmente tenso de segundo turno, tivemos a disputa mais acirrada da história da nossa jovem democracia. Dilma Rousseff venceu a eleição com apenas 51,63% dos votos válidos.

Enquanto as coisas vão se acalmando por aqui, o eleitorado vai aceitando o resultado, os descontentes se cansam de esbravejar pela derrota da oposição, a presidente sai de cena para o período regulamentar de férias, deixando para trás a inevitável carnificina da luta por cargos no governo. Segundo Roberto Pompeu de Toledo, “o primeiro desafio para o vencedor será lidar com o país rachado ao meio. Não que lhe incumba unir o país. O sonho de ordem-unida é próprio das ditaduras. Democracia é desunião. O que lhe incumbe é inspirar a tolerância entre contrários e construir espaços de convergência”.

Meu sempre lembrado pai costumava repetir que a democracia é a arte da convivência entre os contrários. E é exatamente isso. Checado o resultado das urnas, é hora de todos juntos buscar o melhor para o país de forma coerente, justa e responsável. Já cansou essa história de dividir o país entre sulistas e nortistas – até porque se os sulistas soubessem como é bom esse nosso lado de cá não haveria essa conversa, vinha todo mundo para o nordeste se confraternizar ouvindo forró. Já não tem mais sentido esbravejar por aí que os eleitores de Dilma são todos ignorantes ou reféns do Bolsa Família. Além de a afirmação não ser verdadeira – demonstraram apoio à presidente nomes como Chico Buarque, Luiz Fernando Veríssimo, Leonardo Boff, Caetano Veloso, Gilberto Gil e tantos outros intelectuais de grande influência na cultura brasileira e fora dos padrões do programa assistencial – não faz mais sentido buscar saber as razões do voto de cada um. A escolha foi feita e Dilma Rousseff, gostem ou não, é a nova presidente do nosso país. “A vida segue e o Brasil continua”, como disse Pompeu de Toledo.

Enfim, acabou a campanha. Chegou a hora de guardar os cavaletes com os rostos dos candidatos, trocar a foto dos perfis das redes sociais antes com o número do presidenciável, rasgar santinhos, arrancar adesivos e voltarmos a discutir a política que realmente interessa, longe das disputas partidárias. Por aqui, por exemplo, o que não faltam soa problemas para exigirmos soluções rápidas e eficazes.

Dizem que a gente se acostuma com tudo. E parece que é mesmo verdade. Passada as eleições, nossa “politização”, exposta em três meses de campanha, dá espaço a um comodismo sem tamanho. Esta semana tive a comprovação clara de que estamos nos acostumando com a mediocridade. Sim, todos nós que moramos em Itapetinga e permanecemos apáticos com a sua atual situação, estamos nos acostumando a viver em uma cidade medíocre. Medíocre, segundo o dicionário, é aquilo que é ordinário, insignificante, irrelevante, que não possui mérito, qualidade ou habilidades. E assim é a Itapetinga atual. Nesta segunda, na tentativa de ajudar a doméstica que nos presta serviço há dois anos, fui buscar informações sobre como tirar a segunda via dos documentos que ela havia perdido. Foi quando descobri que era preciso ir a Vitória da Conquista ou se submeter à humilhação de dormir na porta do complexo policial para tentar – eu disse tentar e não conseguir – ser atendido. Se, com muita sorte, você conseguir ser atendido, seu documento vai levar mais de um mês para chegar. Há algum tempo minha mãe foi buscar informações sobre o cadastramento no Planserv e descobriu que se desse entrada no pedido pela Direc 14 sua solicitação só ia ser atendida daqui a três meses. O mesmo procedimento feito automaticamente em minutos em Conquista, em Itapetinga leva 3 meses. Há alguma explicação lógica para isso? Tem cabimento aceitar que uma cidade com mais de 70 mil habitantes, com a história de desenvolvimento e importância regional que já teve Itapetinga não ofereça serviços básicos como o de emissão de documentos? A gente vai se acostumando com os absurdos, como aqueles descritos no “Caminho com Maikovski”. Daqui a pouco não teremos Matinha, não teremos água – isso mesmo, a nossa água também corre risco com o SAAE quebrado, apesar das contas cada vez mais altas – não teremos saúde, nem educação, nem documentos, nem dignidade, nem a voz na garganta para dizer mais nada.

 

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