Aberto ao debate e confronto de opiniões

padrão destaqueNo início desta semana recebi um e-mail de um leitor sobre o conteúdo do último editorial publicado nesta página dois. Pelo que entendi, o objetivo de M. da Silva era esclarecer a função dos Blac Blocks e sua história. No texto, publicado nesta edição, ele defende a ação do grupo e justifica: “Não é violência destruir os símbolos do capitalismo selvagem (ou destruir a propriedade privada), da exploração, da globalização (…) os alvos de depredações são agências bancárias ou outros símbolos capitalistas (Mc Donald’s, Burguer King, Carrefour), ou carros de polícia e outros símbolos de opressão”. Ao criticar o nosso atual sistema econômico, M. da Silva defende o anarquismo, com uma definição que eu chamaria de “utópica” do sistema. Para ele, “anarquismo é um sistema de organização social que prevê a liberdade de todos, sem a exploração de ninguém sobre ninguém. O anarquismo anda lado a lado com a ordem, mas de forma diferente, o anarquista costuma fazer o que é certo não por medo da coerção, do cassetete da policia, mas porque os princípios dizem o que é certo”.

O capitalismo sempre foi alvo de críticas fervorosas de muitos idealistas. Ultimamente, principalmente depois dessa onda de protestos e destruição que se espalha pelo país, criticar o capitalismo se tornou para muitos um exercício diário. Para esse grupo, gostar do capitalismo é ser concentrador de renda, insensível. Apoiar o atual sistema econômico seria ajudar a matar de fome milhares de crianças. Os anti-capitalistas – e entre eles deve se enquadrar o nosso atencioso leitor – propõem uma mudança para outro sistema. As correntes mais comuns atualmente apontam o comunismo como uma saída mais “justa”. Esquecem-se eles que nenhum sistema baseado no comunismo deu certo e os exemplos estão claros pelo mundo, basta olhar a história da União Soviética, de Cuba ou da China. A verdade é que o comunismo teve sua vez e se mostrou ineficaz. Os exemplos remanescentes estão aí e são dignos de pena. Não vou aqui concentrar o debate sobre os que acreditam na possibilidade de se viver em uma anarquia porque, para mim, viver em sociedade e anarquismo constituem um paradoxo, principalmente nessa nossa sociedade despolitizada e com princípios cada vez mais deturpados como a nossa.

Ao contrário do que muitos pensam, o capitalismo é a era da criação, produção, invenção, liberdade. É o sistema econômico mais compatível com a liberdade do ser humano. Não conheço sociedade que apresente liberdade política sem um mercado livre. Li esta semana que “com o capitalismo, o consumidor é protegido pela presença de outros vendedores com quem pode negociar. O vendedor é protegido por outros consumidores a quem pode vender e o empregado é protegido devido aos outros empregadores para quem pode trabalhar”.

É óbvio que não estou aqui a afirmar que vivemos em um sistema perfeito. Pelo contrário, o capitalismo que vivemos é falho e uma série de fatores nos leva a condenar o sistema: as taxas de juros são altas, os bancos faturam como nunca, a concentração do PIB nas mãos das grandes empresas é um absurdo… O filósofo francês, André Comte-Sponville, certa vez escreveu: “Devemos aceitar o capitalismo? Sim, pois não temos nada melhor para pôr em seu lugar. Mas esse não é um motivo para nos pormos de joelhos diante dele”. E é assim que penso: devemos, sim, ir às ruas e protestar contra os abusos que são jogados em nossa cara diariamente. Mas destruir, quebrar, depredar seja lá o que for, por este ser um símbolo de um sistema econômico que funciona e o que se mostrou mais eficiente é irracional. Hoje podemos acompanhar de perto o quão desumano é o sistema de Cuba e o quanto manipulado é seu povo. Sobre o anarquismo, é difícil compreender uma sociedade organizada com a eliminação total de todas as formas de governo e de Estado, sem qualquer tipo de hierarquia. Isso vai de encontro à democracia. E são essas as opções pelas quais queremos trocar o capitalismo? É por isso que destruímos as nossas cidades e tocamos fogo em nossos ônibus? Winston Churchill afirmou que “o vício inerente ao capitalismo é a distribuição desigual de benesses; o do socialismo é a distribuição por igual das misérias”. É pela distribuição de misérias que estamos optando? Ao invés de escondermos o rosto e sairmos por aí quebrando tudo e gritando palavras de ordem sem muita ordem, considero muito mais produtivo discutir reformas.

Se a razão do protesto que quer o fim do capitalismo é discutível, a forma como vem sendo realizado é, para mim, inquestionavelmente errada. Acreditar que até hoje não se viu nenhuma mudança por parte de ações pacíficas e partir para a violência e o vandalismo é ignorância ou má-fé. O próprio congelamento dos preços das passagens de ônibus urbano, resultado do Movimento Passe Livre que lançou o Brasil às ruas, foi conquistado através da pressão das multidões pacíficas.

No Brasil e no mundo há centenas de exemplos de movimentos reivindicatórios honestos que venceram pela serenidade. Do ativismo de Ghandi e seus seguidores que libertaram a Índia da colonização inglesa ao impeachment de Collor no Brasil, tirando-o da presidência, muitas foram as conquistas pela paz.

O Brasil já cresceu com essas manifestações e as pessoas começam a discutir mais política, isso é muito positivo. Só precisamos agora encontrar o tom certo para que juntos, de forma pacífica, possamos discutir o que realmente é melhor para o nosso país de forma objetiva e consciente da nossa realidade.

 

P.S.: O Jornal Dimensão estará sempre aberto ao debate de idéias e o confronto de opiniões. É nessa revolução que acreditamos. É essa a força que estamos dispostos a utilizar contra o que achamos errado nesse nosso sistema falho, mas ainda o melhor. Desta forma, agradecemos aos nossos leitores, em nome de M. da Silva, a atenção dada ao jornal e a disponibilidade de nos enriquecer com conteúdo e com opiniões divergentes que possam, de forma consciente, fortalecer a nossa democracia.

 

Isabela Scaldaferri

belscaldaferri@hotmail.co

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