Abaixo a baixaria

O show era de Tomate (para os menos festeiros que talvez não o conheçam, é um artista baiano, que vem fazendo sucesso já há algum tempo, principalmente em Salvador). O local era num bairro mais nobre e o preço dos ingressos meio salgado, por isso o público era bem elitizado. A certa altura ele puxou uma música que fala, em tom divertido, dos desentendimentos entre um rapaz e sua namorada.

No refrão, o contrariado personagem da música diz assim para sua amada: “Você jogou fora aquele meu disco de Raul, ú, úúú / Me deu vontade de mandar você…”. Nesse momento a banda pára e a galera, no ato, responde em coro com a rima que vem na ponta da língua…! O cantor faz cara de assustado, reclama de mentirinha, e repete os versos. A banda pára de novo e o público canta mais alto ainda a rima que talvez até o mais circunspecto dos leitores de Dimensão já tenha imaginado…

No coro daquela multidão o que mais se destacava, até pelo timbre naturalmente mais alto, eram as vozes femininas. Todas cantavam descontraídas, embaladas pelo ritmo contagiante do show e – claro – pela animação etílica que bafejava o ambiente. Aparentemente nenhuma daquelas mulheres demonstrava qualquer traço de indignação pelo fato de uma similar de sua espécie – a garota da música – estar sendo alvo de uma expressão grosseira.

Pois bem, de agora em diante, aqui na Bahia, e só mesmo aqui na Bahia, uma situação como essa pode vir a criar problemas sérios, verdadeiramente muito graves. Isso porque, recentemente, foi aprovada por nossa Assembléia Legislativa e sancionada por sua Excelência o governador de nosso Estado, uma nova e inusitada lei. A recém formulada norma, que já foi batizada de “Lei Anti-Baixaria”, proíbe os gestores públicos de contratar bandas ou artistas que executem músicas que possam ofender, desrespeitar, vulgarizar, denegrir a imagem da mulher.

E agora? Logo aqui na Bahia uma proibição dessas! Imaginem! Que aperto vão passar os pobres dos prefeitos toda vez que forem contratar uma simples bandinha para tocar na praça de sua cidade. É bem complicado. Se essa lei for mesmo levada a sério, não vai ter artista que sirva. Corremos o risco mesmo é de ficar sem festas!

Vai ser bem complicado, a começar pelo critério de escolha. Quem será o responsável por definir o que é baixaria? O próprio prefeito? O secretário de cultura? Seria o caso de se criar um COMUCENPRE – Conselho Municipal de Censura Prévia, que teria o papel de analisar antecipadamente todo o repertório do artista, deliberando se ele se enquadra nas exigências da lei, para em seguida expedir parecer favorável ou não à sua contratação?

Ultrapassada essa fase de análise e uma vez contratado o artista, ainda assim os problemas podem continuar. Vai que numa cidade dessas por aí há um Promotor mais radical e ortodoxo, e entende que numa determinada música, está implícita uma ofensa ao sexo feminino. Olha o prefeito em apuros! E aí, como encontrar a dose de equilíbrio para atender a essa nova lei?

É difícil. A maneira mais segura talvez seja abolir logo todos os artistas baianos. De Luiz Caldas, cantando “nega do cabelo duro”, a Black Style cantando “me dá, me dá a patinha, me dá sua cachorrinha”, fica todo mundo excluído do circuito. Ivete cantando “na sua boca eu viro fruta, chupa que é de uva”, então nem pensar!

Prefeito ajuizado de agora em diante, se não quiser cometer nenhuma infração, terá que buscar artistas mais clássicos. Chico Buarque, por exemplo, que como poucos conseguiu cantar a beleza e a essência da alma feminina, talvez fosse ideal. Mas, e se no decorrer do show ele resolvesse mandar “jogar pedra na Geni” porque “ela dá para qualquer um, ela é boa de cuspir”? Ou então Caetano Veloso. Mas e se ele escorregasse num viés machista e resolvesse celebrar a mulher servil dizendo: “com lágrimas nos olhos de cortar cebola / você bota a mesa e eu como / bota a sobremesa e eu como / eu como / eu como você”?

Que situação. Não vai sobrar nada. Nem a clássica canção de Mário Lago poderá ser executada. Afinal, haverá conotação mais depreciativa para as independentes mulheres atuais do que enaltecer a humilde e resignada “Amélia” afirmando que “aquilo sim é que era mulher”? Talvez nem mesmo os versos de Vinícius de Moraes possam ser declamados. Não foi ele quem resvalou no preconceito ao dizer “as feias que me desculpem, mas beleza é fundamental”?

Ora, francamente! É claro que antigas obras primas como essas jamais poderão ser vistas como composições ofensivas à mulher. Da mesma forma, os arrochas, axés e pagodões de agora podem até ser classificados como pouco aprimorados. Isso é visível. Quer dizer, audível. Estão muito mais próximos da vulgaridade do que do bom gosto. Todavia, interpretá-los como ofensa à dignidade das mulheres, e ainda por cima querer coibi-los através da edição de uma lei, sinceramente não faz nenhum sentido.

Primeiro, é preciso saber se as mulheres realmente estão se sentindo tão ofendidas assim, a ponto de ser necessária uma lei para salvaguardar-lhes a honra. Não é o que parece. A julgar pelo sucesso que fazem ditas canções, e pelo entusiasmo com que são cantadas e dançadas, elas agradam muito mais do que incomodam.

Segundo, em que pese a discutível qualidade dessas composições, elas são uma manifestação cultural legítima e popular, aceita e incorporada pela sociedade atual, e como tal têm que ser respeitadas. Quem não gosta que não vá aos shows, que não escute, que não cante, que não dance.

O que não se pode é conferir a quem quer que seja o poder de dizer o que é adequado para ser executado nos shows, filtrando aquilo que entenda ser femininamente correto. Estaria assim sendo criado um tipo de censor coletivo, autorizado a mandar no gosto alheio, determinando o que presta e o que não presta. Verdadeiro absurdo, afinal, o que é ruim para uns, pode ser bom para outros. E vice versa. Ou seja, entre Chico Buarque e Black Style, o melhor mesmo é o velho bom senso.

Bom senso que, aliás, não parece muito em uso na Casa de onde brotou essa inusitada norma. Afinal, enquanto os ilustres parlamentares ocupavam-se com a discussão sobre a nova lei, eclodiam denúncias graves envolvendo um de seus pares. Dizem os acusadores que o tal parlamentar, com nome de cantor famoso, empregou um número tão grande de assessores que se todos viessem trabalhar ao mesmo tempo, simplesmente não caberiam em seu gabinete; dizem que por isso boa parte de sua equipe fica “trabalhando” nas cidades onde ele tem base eleitoral; e, finalmente, dizem que todos eles têm uma parte de seus salários retida a título de… sabe-se lá o que!

Isso sim é baixaria. Tanto a conduta que é apontada ao parlamentar, quanto o silêncio permissivo com que os demais reagiram diante das denúncias. Essa é a baixaria que deveria ser combatida. Porém, não é assim que a coisa funciona. Infelizmente.

E quanto ao refrão da música de Tomate, se você pensou em alguma resposta indecorosa, errou. Que fique bem claro, a resposta certa é: “me deu vontade de mandar você… comprar o de Roberto!” (Roberto Carlos). Cuidado, a lei está aí.

 

 

* Adriano César Pessoa de Alcântara é Advogado

alcantara.adriano@hotmail.com

 

2 Comentários para “Abaixo a baixaria”

  1. Alciane Andrade Souza
    25 de abril de 2012 às 23:11 #

    Adriano

    Estamos na era da informação, das imposições do universo midiático, somos norteados não mais por conceitos sólidos, mas pelo modismo: ” A era do politicamente correto”. Interessante observarmos aqueles que, em nome dos valores morais e da ética se debruçam para elaborar legislações desse nível não se tornariam extremamente vulneráveis frente à aplicação de sanções deste teor numa breve investigação acerca de seus posicionamentos no que tange as questões sociais? Perda te tempo, discursos demagógicos e desfilar de sofismo, é o que se compreende da “lei da censura”. Censurada deveriam ser as escolas mal aparelhadas, profissionais de educação e saúde mal remunerados, desvios de dinheiro público, improbidades administrativa em todas as esferas do poder. Enfim, bom senso, bom gosto, criticidade não se impõe por decreto. Saber escolher o ” politicamente correto” deveria ser um processo natural, fruto de uma sociedade politicamente sadia.
    Parabéns pelo seu texto, muito bem escrito, como sempre. Um abraço!

    Alciane Andrade

  2. Madson
    29 de julho de 2012 às 20:06 #

    A sociedade formam bandidos e reclamam da criminalidade, exigem educação e é dessa cultura que crescem nosso filhos. Relaxa na “P”bica! Mulher é igual a lata agente chuta e o outro cata, As novinhas não aguentam abre as pernas e relaxa, O índio virou canibal a Bruninha eu já comi e a Flavinha eu já peguei, Balança a garrafa de whisky e a perereca dela pisca, Rala a theca no chão, “B”voceta gostozinha, Balança o rabinho cachorra e sem falar nos gemidos que colocam nas suas “musicas”. Isso ensina seus filhos a crescerem canalhas e suas filhas cachorras, objeto sexual, lixo! Vivemos tempos difíceis e com problemas cada vez piores. As drogas avançando cada vez mais, a prostituição, estupro, gravidez na adolescência, doenças, criminalidade, assassinatos, tragédias, falta de educação… O incentivo das letras dessas “musicas” não ajudam em nada. Não estou discriminando os artistas baianos nem nenhum outro. Só que eles podem fazer sucesso com letras que não agridam a sociedade e incentivem mal os jovens. Esse é o futuro que querem para seus filhos? É balançando o rabinho que quer que a sua filha cresça e seja chamada de cachorra? Vocês estão prostituindo seus filhos, os filhos dos outros e depois colocam a culpa nas escolas e no governo que por sinal lucra com tudo isso. Quem curte e gosta dessa baixaria não tem amor próprio nem respeito pela sua família e assim muito menos terá pelas dos outros. Sexo, drogas, bebidas e violências nesses shows são cada vez piores. E seu filho uma hora dessa vai ta lá e você pode ser o próximo a sofrer as conseqüências. O mal vai bater na sua porta e nessa hora lembre-se que foi você mesmo que contribuiu para uma eventual tragédia ou decepção na sua família. Sofra as conseqüências e viva pra pagar cada centavo sem reclamar.

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